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quarta-feira, 25 de abril de 2012

Lady Gaga VS Cristãos

ladBom primeiramente gostaria de deixar bem claro que não curto a Lady Gaga, nem as músicas dela, pra mim nem cheira e nem fede.Mas estarei defendendo o direito dela de fazer seus shows aonde bem intender. Nesse post estarei abordando duas noticias que são : “Grupo cristão se reúne em oração contra show da cantora Lady Gaga” e “Cristãos realizam protesto contra cantora Lady Gaga na Coreia do Sul” Em baixo  postando as duas noticias e logo em seguida colocarei o que penso sobre ela e contestando essas atitudes desses cristãos.

Grupo cristão se reúne em oração contra show da cantora Lady Gaga

O grupo cristão da Coréia do Sul, Aliança pela Cultura do Som em Sexualidade, se reuniu em oração no domingo pelo cancelamento do show da cantora Lady Gaga, que será realizado no dia 27 de abril, em Seul. Eles consideram a canção “Just Dance” como imprópria para o consumo público.

Inicialmente o show foi anunciado com faixa etária para maiores de 12 anos, mas o Conselho de Classificação Coreano elevou  a classificação “adequada” para maiores de 18 anos.

De acordo com o All Media NY, um dos organizadores da oração espera que o show seja cancelado para que “a homossexualidade e a pornografia não se espalhe por todo o país”. O grupo também colocou cartazes que acusavam Lady Gaga de “difusão de cultura sexual não-saudável” através de “letras obscenas e performances”. Os cartazes foram retirados posteriormente por funcionários municipais.

Enquanto artistas como Marilyn Manson, Jay-Z e 50 Cent tiveram restrições semelhantes, nenhuma das outras datas de shows da turnê da cantora sofreram restrição de idade. Nos Estados Unidos restrições ocorrem com frequência, embora devido aos acessos de álcool ao público.

Lady Gaga continua o lançamento de sua turnê global “Born This Way” em Seul, e em seguida irá se apresentar em outras cidades asiáticas antes de viajar com a turnê para a Europa.

http://noticias.gospelmais.com.br/grupo-cristao-se-reune-em-oracao-contra-show-da-cantora-lady-gaga-33549.html?fb_comment_id=fbc_10150754159549654_22068580_10150755549319654#f2b252951

 

Cristãos realizam protesto contra cantora Lady Gaga na Coreia do Sul

Na Coreia do Sul, centenas de cristãos se reuniram para protestar contra a cantora Lady Gaga, que realizará um show no país no dia 27 deste mês, em Seul. Segundo a Agence France-Presse (AFP), muitos têm se posicionado contra a apresentação da cantora no país, principalmente por causa do conteúdo da sua música.

Ainda de acordo com a Agência, cerca de 300 evangélicos se reuniram no último domingo, 22, para orarem e pedirem que a música de Gaga se mantivesse distante. Kang-Hyun Ju, um das organizadoras do movimento de cristãos declarou, “Vamos orar a Deus para que o concerto não seja realizado de modo que a homossexualidade e a pornografia se espalhem por todo o país”.
Porém, não foram apenas os cristãos que se posicionaram contra a música de Lady Gaga, as autoridades do país também tomaram medidas de restrição, o Conselho de Audiência em Mídias da Coreia do Sul elevou para 18 anos a faixa etária do show da cantora, antes era de apenas 12 anos.

Ao saber da notícia da restrição, Lady Gaga fez uma declaração no Twitter sobre o assunto, “Apesar de não afetar os ingressos vendidos para Seul, os pais deveriam ter mais autonomia para determinar o que é bom para seus filhos”.

http://noticias.gospelmais.com.br/cristaos-realizam-protesto-contra-lady-gaga-coreia-sul-33575.html

Acho estranho essa preocupação desses crentes em se manifestar contra o direito de uma cantora exercer o seu trabalho.

Gozado nunca vejo nenhum crente na câmara municipal, no senado em oração para acabar com a corrupção no Brasil.

Também nunca vejo nenhuma grupo cristão em oração em universidades para que "deus" mostre a cura de doenças.

Pelo estupro passa em horário nobre em cadeia nacional isso ninguém se manifesta, ninguém protesta.

Quando um presidiário aluga espaço dentro da cadeia ou tem imunidade por pagar dízimo a igreja, isso ninguém protesta também.

O fato do Sarney presidir o Congresso Nacional nunca vemos um religioso falando alguma coisa.

O fato do cidadão trabalhar mis de 5 meses só para bater os recordes de arrecadação de impostos que não vemos eles serem aplicados, isso não vemos uma oraçãozinha a respeito disso.

Quando o  Secretário dos Transportes é pego bêbado na blitz do bafômetro e acaba saindo impune isso não vemos uma indignação.

Mesmo sabendo que a cada 10 licitações no país 9 são fraudulentas, todos acham normal.

Quando um aluno espanca o professor na sala de aula, este mesmo professor que já ganha um salário de miséria não vemos um pastor gritando a sua indignação, dizendo que aquilo não é de deus.

Quando um traficante tem mais poder do que a policia e este determina quem deve viver, quem deve morrer, a hora que o cidadão deve sair e entrar de casa, em quanto ele compra a policia.Isso também não vemos manifestações, nem um jejum de protesto vemos…

Quando todos os dias pessoas morrem nos corredores do SUS por falta de atendimento, isso é perfeitamente aceitável.

Quando um bandido faz do seu presídio seu QG com todas as regalias do mundo, que só falta daqui a pouco ter piscina e hidromassagem. Isso é uma coisa maravilhosa de deus, deus até aprova sendo esse bandido dizimista, não importa o quanto ele tenha matado, quanto ele tenha estuprado, o quanto ele tenha roubado em fim…O importante é o bandido ser dizimista para ele ser santo.

Quando a família de um presidiário recebe 3 salários mínimos por filho que ele tem, em quanto o cidadão honesto rala muito para ganhar até menos  que um salário mínimo, isso ninguém ora mesmo.

Um país ao qual um professor, um policial, um médico, um bombeiro ganham um salário injusto e um politico ganha 27 mil reais, mais 15 mil de ajuda de custo sem trabalhar muito e mesmo assim roubam milhões todos os anos. Isso não vemos nenhuma manifestação também.

Nunca vimos crentes reunidos só para orar ou protestar para que as autoridades do mundo resolva o problema da miséria do mundo

Um país ao qual o deficiente físico tem que viver uma maratona por dia, pois ele não tem condições suficientes de acesso, isso ninguém se manifesta.

Também não vejo vigílias de orações para gente viver num país aonde as pessoas recebam tratamento igualitário independente de raça, orientação sexual, doença, condições financeiras, etnia, profissão, crença, visual em fim…

Eu poderia até continuar a dar até milhares de exemplos, de que esses religiosos não se manifestam, mas acredito que estes já foram os suficientes para intender. 

Agora o que não consigo intender é que com tantas músicas que degradam a mulher, músicas que são verdadeiros hinos a agressão a mulher, a violência, o ódio e a criminalidade isso ninguém fala nada. Não que devessem se manifestar a respeito disso, mas tem músicas por aí que faze as da Lady Gaga parecerem canções de ninar.

Agora certamente vai vir algum cristão me falar que a Lady Gaga falou mal de Jesus.E daí? Um monte de banda de Black Metal tem um monte de música, satânica, herege e nunca vejo um crente na porta de onde eles tocam pra fazer esse mesmo tipo de coisa e olha que tem bandas que tratam cristo como se fosse uma vadia. Agora só porque ela é um pouco mais popular os cristãos vão querer encher o saco. Se querem falar dela por conta disso, vão ter que falar de todos os grupos, bandas que tem suas músicas ofensivas para cristãos e mesmo assim estarão errados, pois o livre pensamento é direito de cada ser humano, a livre manifestação de pensamento existe. Se não gosta não escuta, não deixei seus filhos escutarem. Difícil?

Agora o que vejo por aí é sempre a mesma coisa, é cristãos se manifestando contra o casamento gay, contra adoção gay, contra a exposição de fatos sobre as igrejas(coisas que eles chamam de perseguição) contra o aborto, se manifestando contra essas celebridades que fazem coisas que vão contra a fé deles. Todas essas manifestações em sua maioria gira em torno de querer controlar a liberdade individual de cada um e nunca vemos manifestações em prol dos direitos coletivos, ou sob os motivos que realmente valem a pena se manifestar. Uma marcha para cristo reúne cerca de 300 mil pessoas, quanto a marcha pelo fim da corrupção reuniu menos de 2mil pessoas, sendo estas boa parte nem fazer parte de igreja alguma ou serem ateus, mas não vemos nenhuma igreja organizando um evento desses.Não estou dizendo que eles não devam promover sua marcha para Jesus, mas que se empenhem mais nesses assuntos aqui já citados e que deixem em paz cada um com a sua liberdade individual.

O mundo não gira em torno da crença de ninguém, o mundo não tem que se adaptar as crenças de quem quer que seja!!! 

Guilherme Kempoviki Serafim dos Santos

quinta-feira, 12 de abril de 2012

A Bíblia de acordo com Thomas Jefferson

JeffersonBibleSourceApós um dia duro de trabalho, um presidente senta-se em sua cadeira na Casa Branca, e se prepara para algo mais agradável, pega duas Bíblias, abre-as nos Evangelhos e com uma faca (ou talvez uma navalha) e começa a recortar as bíblias, uma depois da outra. Este era Thomas Jefferson no ano de 1804. Com este trabalho metódico, Jefferson recortou as partes da bíblia com que concordava e as colava em um portfólio, o restante ele deixou para trás em bíblias mutiladas.

Com estes recortes o presidente escreveu um livro chamado "A Filosofia de Jesus de Nazaré." Que se perdeu e está até hoje perdido, ele só chegou a mostrar para um punhado de amigos, e nunca o publicou.

Thomas_JeffersonMas dezesseis anos depois, ele fez outro. Em 1820, aposentado da política, depois do seu segundo mandato como presidente, Jefferson sentou-se novamente, com a idade de 77, para editar a Bíblia. Ele comprou seis Bíblias e duas em Inglês, duas em francês, e duas contendo tanto latim quanto grego e as cortou seguindo o mesmo padrão, criando uma segunda versão editada do Novo Testamento, em quatro línguas.

Ele manteve as palavras de Jesus e alguns de seus atos, mas deixou de fora os milagres e qualquer sugestão de que Jesus é Deus. Como o próprio Jefferson descreveu em uma carta a John Adams, lapidando as peças dignas da Bíblia "como distinguir diamantes em um monturo." E estas partes úteis eram facilmente distinguíveis do inútil.

O nascimento virginal não é relatado. Bem como Jesus caminhando sobre as águas, multiplicando os pães e peixes, e ressuscitando Lázaro dentre os mortos, etc.

Esta nova versão de Jefferson termina com o enterro de Jesus na Sexta-Feira Santa. Não há ressurreição, nem domingo de Páscoa. Jefferson chamou esta versão "A Vida e moral de Jesus de Nazaré".

article-2088026-0F810F3A00000578-932_634x286 article-2088026-0F810F9600000578-3_634x401Ele acrescentou dois mapas da Terra Santa, e enviou os suas oitenta e seis páginas a Frederico Mayo, que os encadernou em uma capa de couro vermelho elegante.

 

Esse livro está atualmente em exposição no Museu Smithsonian em Washington, DC, juntamente com duas das Bíblias que Jefferson cortou para criá-lo.

Esta exposição com certeza gerará algumas perguntas: Por que um dos Fundadores da America recortaria Bíblias? Foi um ato sincero ou apenas blasfêmias? Jefferson era um cristão ou um herege?

Franklin-Adams-Jefferson-drafting-the-Declaration-of-IndependenceNão tem como responder facilmente estas perguntas, mas uma coisa é certa, um dos maiores presidentes que os Estados Unidos já tiveram, o autor da Declaração da Independência, não seria eleito hoje, este fatiamento de bíblias certamente bombardeariam sua campanha e afastaria dele a maioria dos eleitores.       Jefferson acreditava que nenhum governo tinha o direito de impor qualquer religião a qualquer indivíduo. Ele cunhou a famosa frase "muro de separação entre Igreja e Estado".

Quando Jefferson concorreu à presidência contra John Adams em 1800, este e seus aliados distorciam a defesa de Jefferson da liberdade de religião para retratá-lo como um inimigo de Deus. William Linn, um ministro de Nova York, afirmou que votar nele seria "uma rebelião contra Deus".

Apesar de tudo isso, Jefferson foi eleito e foi o grande presidente que foi.

tumblr_lewzvnpUi31qzdwano1_500Quer provar que Jefferson era um cristão comprometido? É fácil.

Jefferson escreveu: "Eu sou um cristão verdadeiro, isto é um discípulo das doutrinas de Jesus." Ele chamou os ensinamentos de Cristo "o código mais sublime e benevolente da moral que já foram oferecidos ao homem." Convidou também a voltar aos simples preceitos e sem sofisticação de Cristo. "Ele sugeriu que a derrota de Napoleão prova que temos um Deus no céu".

Quer provar que Jefferson era um ateu militante? Isso também é fácil.

Jefferson escreveu que "Jesus não queria impor-se sobre a humanidade como o filho de Deus". Ele chamou os escritores do Novo Testamento "ignorantes, homens iletrados", que produziram "superstições, fanatismos e mentiras". Ele chamou o apóstolo Paulo o "corruptor das primeiras doutrinas de Jesus." Ele rejeitou o conceito da Trindade como um "Abracadabra simples dos saltimbancos que se autodenominam os sacerdotes de Jesus". Ele acreditava que o clero usou a religião como um artifício "apenas para surrupiar a riqueza e o poder para si mesmos" e que "em cada país e em cada época, o sacerdote tem sido hostil à liberdade". E ele escreveu em uma carta a John Adams que "chegará o dia em que a fecundação milagrosa de Jesus, por um ser supremo como seu pai no ventre de uma virgem, será classificado [junto] com a fábula da geração de Minerva no cérebro de Júpiter"

curator-jefferson-source (1)A restauração de A Vida e Moral de Jesus de Nazaré de Thomas Jefferson - Entrou para a história da restauração

Em 2009 Cari Haus, um escritor cristão, publicou O Reverso da Bíblia de Jefferson,que contém as partes ficaram de fora da versão de Jefferson. Haus também emitiu um "aviso" para Jefferson na forma de uma citação do livro do Apocalipse: "E se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida”. O Haus não fez foi citar como Jefferson descreveu o livro de apocalipse: “Apenas os delírios de um maníaco”.

article-2088026-0F8111C800000578-120_306x424O que os críticos do trabalho de Thomas Jefferson ignoram é que mesmo as pessoas que leem a Bíblia regularmente costumam ler apenas partes dela. As pessoas leem de forma seletiva. Mesmo as que se dedicam a leitura integral da bíblia, ignoram certos trechos como uma espécie de memória seletiva, deixando passar suas contradições e seus absurdos. Eles leem as partes que eles acreditam ou as partes que lhes dão conforto, esquecem que leram o resto (quando realmente se dedicaram a leitura integral). Para a maioria das pessoas, a Bíblia é um trabalho de recortar e colar. E Jefferson levou isto ao pé da letra, realmente levando uma tesoura ou uma faca e realmente amputa as peças que ele não acha que deveria estar lá.

A Bíblia Jefferson nunca foi publicada, ele a fez apenas para seu próprio uso, em suas leituras religiosas dentro de sua intimidade.

Após o término da exposição, o livro será mantido em um quarto escuro livre de umidade.

Fonte: http://ce.ligahumanista.org

quinta-feira, 8 de março de 2012

Christopher Hitchens – Os novos mandamentos

Um vídeo curto, acessível e com algum humor, do sempre brilhante Hitchens(para ver ele legendado é só clicar no “CC” em baixo da barra de progresso).

Os Dez Mandamentos foram gravados em pedra, mas pode ser hora para uma reforma. Com toda a devida humildade, o autor assume a tarefa de remoção, o eticamente duvidosa, desafiando o impossível, e corrigir algumas omissões graves.

Para quem deseja se aprofundar mais nesse assunto recomento os seguintes links:

O Big Ten (Os Dez Mandamentos)

http://www.ebonmusings.org/atheism/10c.html

The New Ten Commandments (Os novos 10 mandamentos – Um decálogo para um mundo moderno)

http://www.ebonmusings.org/atheism/new10c.html

segunda-feira, 5 de março de 2012

E então, por que animais não têm rodas?

220px-Richard_dawkinsA roda é a invenção humana arquetípica, proverbial. Nós não apenas viajamos sobre rodas, são as rodas — perdoe-me — que fazem o mundo girar. Desmonte qualquer máquina de complexidade pouco mais que rudimentar e você achará rodas. Navio e hélices de aeronaves, brocas, tornos mecânicos, rodas de oleiros — nossa tecnologia anda sobre rodas e pararia sem elas.

A roda pode ter sido inventada na Mesopotâmia durante o quarto milênio AC. Nós sabemos que era elusiva o bastante para precisar ser inventada, porque as civilizações do Novo Mundo ainda não a possuíam na época da conquista espanhola. A exceção alegada lá — brinquedos de crianças — parece tão estranha a ponto de levantar suspeitas. Poderia ser uma dessas falsas lendas, como a de que esquimós têm 50 palavras para neve, que se espelham unicamente porque é tão memorável?

Sempre que os humanos têm uma ideia boa, os zoologistas ficaram acostumados a encontrar-la antecipada no reino animal. Por que não a roda?

Morcegos e golfinhos aperfeiçoaram sistemas eco-localização sofisticados milhões de anos antes que os engenheiros humanos nos dessem o sonar e o radar. Cobras têm detectores de calor infravermelhos para sentir a presa, antedatando o míssil Sidewinder. Dois grupos de peixe, um no Novo Mundo e um no Velho, desenvolveram independentemente a bateria elétrica, em alguns casos alcançando correntes fortes o bastante para aturdir um homem, em outros casos usando campos elétricos para navegar por água turva. A lula tem jato-propulsão, permitindo-a romper a superfície a 45mph e disparar pelo ar. Grilos têm o megafone, cavando uma buzina dupla no chão para ampliar sua canção já incrivelmente alta. Castores têm a represa, inundando um lago privado para sua própria conduta segura sobre a água.

Fungos desenvolveram o antibiótico (é claro, eles são de onde nós conseguimos a penicilina). Milhões de anos antes de nossa revolução agrícola, formigas plantaram, capinaram e compostaram jardins de fungo. Outras formigas tendem a ordenham o próprio gado de afídeo delas. A evolução Darwiniana aperfeiçoou a agulha hipodérmica (picada de vespa), o bombeamento com válvula (coração), o arpão (dardo de acasalamento do caracol), a vara de pescar (peixe pescador), a pistola de água (peixes arqueiro apontam jatos de água para desalojar insetos de árvores acima), a lente de foco automática, o fotômetro, o termostato, a dobradiça, o relógio e o calendário. Por que não a roda?

Agora, é possível que a roda pareça assim maravilhosa para nós só por contraste com nossas pernas indistintas. Antes de nós termos máquinas dirigidas por combustíveis (energia solar fossilizada), nós éramos ultrapassados facilmente pelas pernas de animais. Não é surpresa que Richard III ofereceu o reino dele por transporte de quatro patas. Nós também revelamos sermos pobres contra corredores de duas pernas, na forma de avestruzes e cangurus.

Talvez a maioria dos animais não se beneficiaria de rodas porque eles podem correr tão rápido com pernas. Afinal de contas, até muito recentemente todos nossos veículos com rodas foram puxados por força de pernas.

Nós desenvolvemos a roda, não para ir mais rápido que um cavalo, mas para permitir a um cavalo nos transportar a seu próprio passo — ou um pouco menos. A um cavalo, uma roda é algo que reduz a velocidade.

Aqui está outro modo no qual nós arriscamos sobre-estimar a roda. Ela é dependente para eficiência máxima em uma invenção anterior — a estrada, ou outra superfície lisa, dura. Um motor poderoso permite a um veículo superar um cavalo ou um cachorro ou uma chita em uma estrada dura, plana ou trilhos de ferro lisos. Mas faça a corrida sobre o interior selvagem ou campos arados, talvez com cercas vivas ou fossos no caminho, e é uma derrota: o cavalo deixará o carro bem atrás. Tamanho por tamanho, uma aranha correndo é certamente mais rápida que qualquer veículo com rodas.

Bem então, talvez nós deveríamos mudar nossa pergunta. Por que animais não desenvolveram a estrada? Não há nenhuma grande dificuldade técnica. A estrada deveria ser brincadeira de criança comparada com a represa do castor ou a arena ornamentada da ave-do-paraíso [bowerbird]. Há até algumas vespas cavadoras que até mesmo socam a terra com força, apanhando uma ferramenta de pedra para fazer isso. Presumivelmente estas habilidades poderiam ser usadas por animais maiores para aplainar uma estrada.

Agora nós chegamos a um problema inesperado. Até mesmo se a construção de estrada for tecnicamente possível, é uma atividade perigosamente altruística. Se eu como um indivíduo construo uma estrada boa de A a B, você pode se beneficiar disto exatamente da mesma maneira que eu. Por que isto deveria importar? Isto levanta um dos aspectos mais tantalizantes e surpreendentes de todo o Darwinismo, o aspecto que inspirou meu primeiro livro, O Gene Egoísta. O Darwinismo é um jogo egoísta. Construir uma estrada que poderia ajudar outros será penalizado através da seleção natural. Um indivíduo rival se beneficia de minha estrada, mas ele não paga o custo de construí-la.

A seleção Darwiniana vai favorecer a construção de estrada apenas se o construtor se beneficiar da estrada mais que os rivais dele. Parasitas egoístas que usam sua estrada e não se aborrecem em construir a deles mesmos estarão livres para concentrar sua energia em procriar mais que você. A menos que sejam tomadas medidas especiais, tendências genéticas para exploração preguiçosa, egoísta, prosperarão às custas de construção de estrada laboriosa. O fim será que nenhuma estrada é construída. Com o benefício de previsão, nós podemos ver que todo o mundo será prejudicado. Porém, a seleção natural, diferente de nós humanos com nossos cérebros grandes, recentemente evoluídos, não tem nenhuma previsão.

O que é tão especial sobre humanos que nós conseguimos superar nossos instintos anti-sociais e construirmos estradas que todos nós compartilhamos? Nós temos governos, tributação policiada, trabalhos públicos para os quais todos nós subscrevemos quer gostemos ou não. O homem que escreveu, “Senhor, Você é muito gentil, mas eu penso que preferiria não me juntar a seu esquema de imposto de renda”, ouviu novamente, nós podemos estar seguros, da Receita Federal. Infelizmente, nenhuma outra espécie inventou o imposto. Porém, eles inventaram a cerca (virtual). Um indivíduo pode afiançar o benefício exclusivo dele de um recurso se ele defender isto ativamente contra rivais.
Muitas espécies de animal são territoriais, não só pássaros e mamíferos, mas peixes e insetos também. Eles defendem uma área contra rivais das mesmas espécies, frequentemente para isolar um chão de alimentação privado, ou um pavilhão de namoro privado ou área de aninhamento. Um animal com um território grande poderia se beneficiar em construir uma rede de estradas boas, planas pelo território do qual foram excluídos os rivais.

Isto não é impossível, mas tais estradas animais seriam muito locais para viagens de longa distância, a alta velocidade. Estradas de qualquer qualidade seriam limitadas à área pequena que um indivíduo pode defender contra rivais genéticos. Não é um começo muito bom para a evolução da roda.

Agora eu tenho que mencionar que há uma exceção esclarecedora à minha premissa. Algumas criaturas muito pequenas evoluíram a roda no senso mais exato da palavra. Um dos primeiros dispositivos de locomoção já evoluído pode ter sido a roda, dado que para a maior parte de seus primeiros dois bilhões anos, a vida consistiu de nada mais que bactérias. Até hoje, não apenas a maioria dos organismos individuais são bactérias, mas até mesmo nossas células bacterianas pessoais excedem largamente em número nossas “próprias” células.

Muitas bactérias ainda estão usando hélices espirais parecidas com linhas, cada uma movida continuamente por seu próprio eixo de hélice giratório. Pensava-se que estes “flagelos” fossem abanados como rabos, a aparência de rotação espiral resultando de uma onda de movimento passando ao longo do comprimento do flagelo, como o ziguezaguear de uma cobra. A verdade é muito mais notável. O flagelo bacteriano é preso a um eixo que é movido por um motor molecular minúsculo e gira livremente e indefinidamente em um buraco que traspassa a parede célula.

O fato de que só criaturas muito pequenas evoluíram a roda sugere o que pode ser a razão mais plausível por que criaturas maiores não a têm. É uma razão bastante mundana, prática, mas nem por isso é menos importante. Uma criatura grande precisaria de rodas grandes que, diferentes das rodas artificiais, teriam que crescer in situ em lugar de serem formadas separadamente no exterior de materiais mortos e então montada. Para um órgão grande, vivo, o crescimento in situ exige sangue ou seu equivalente. O problema de prover um órgão livremente giratório com vasos sanguíneos, para não mencionar nervos, que não se enrosquem em nós é muito vívido para precisar ser descrito em detalhe.

Engenheiros humanos poderiam sugerir passar tubos concêntricos para levar sangue pelo meio do eixo no meio da roda. Mas como teriam se parecido os intermediários evolutivos? A melhoria evolutiva é como escalar uma montanha (o Monte Improvável). Você não pode pular do fundo de um precipício ao topo em um único pulo. Mudança precipitada súbita é uma opção para engenheiros, mas na natureza selvagem o ápice do Monte Improvável só pode ser alcançado se uma rampa ascendente gradual puder ser encontrada de um determinado ponto de partida.

A roda pode ser um desses casos onde a solução de engenharia pode ser vista claramente, sendo contudo inacessível em evolução porque reside no outro lado de um vale profundo, cortando sem possibilidade de construção de uma ponte pelo imenso do Monte Improvável.

Por Richard Dawkins, publicado no The Sunday Times em Nov/96

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O ESTADO BRASILEIRO É LAICO?

211155_233448643376932_1683378699_nNesse post esclarecerei uma duvida muito comum em nosso meio; o estado brasileiro é laico, sim ou não? Sei que muitos fazem essa pergunta, quando observa a igreja interferindo tanto nas nossas leis, sobre tantos privilégios que ela tem, ensino religioso nas escolas públicas em fim…Espero esclarecer algumas de muitas dúvidas sobre esse assunto.

 

Introdução – O que é estado laico?

Não é fácil definir o Estado laico, é mais fácil dizer o que ele não é. Como a democracia. Mas, o que o Estado laico não é será tratado em outro lugar.

A laicidade do Estado é um processo. Antigamente, todos os Estados baseavam sua legitimidade no sagrado, de modo que o rei ou imperador era considerado um Deus ou seu filho ou seu enviado. Depois, ele reinava por direito divino, como se um simples mortal tivesse recebido o poder político de um Deus. Por isso, o poder do governante era considerado sagrado, tirando daí sua legitimidade, que se espraiava para todo o Estado. Com essa base religiosa, o Estado privilegiava uma religião em detrimento de outras. Exemplos desses privilégios são abundantes, no passado e no presente, nos regimes políticos monárquicos e nos republicanos.

Se os Estados não nasceram laicos, um Estado torna-se laico quando prescinde da religião para sua legitimidade, que passa a se basear exclusivamente na soberania popular. Ou seja, quando o Estado prescinde da religião como elemento de coesão social e para a unidade nacional, ele torna-se um Estado laico, mesmo sem dizer isso na Constituição nem proclamar aos quatro ventos.

O primeiro resultado da laicidade é que o Estado torna-se imparcial em matéria de religião, seja nos conflitos ou nas alianças entre as organizações religiosas, seja na atuação dos não crentes. O Estado laico respeita, então, todas as crenças religiosas, desde que não atentem contra a ordem pública, assim como respeita a não crença religiosa. Ele não apoia nem dificulta a difusão das ideias religiosas nem das ideias contrárias à religião.

O segundo resultado da laicidade do Estado é que a moral coletiva, particularmente a que é sancionada pelas leis, deixa de ter caráter sagrado, isto é, deixa de ser tutelada pela religião, passando a ser definida no âmbito da soberania popular. Isso quer dizer que as leis, inclusive as que têm implicações éticas ou morais, são elaboradas com a participação de todos – dos crentes e dos não crentes, enquanto cidadãos. O Estado laico não pode admitir imposições de instituições religiosas, para que tal ou qual lei seja aprovada ou vetada, nem que alguma política pública seja mudada por causa dos valores religiosos. Mas, ao mesmo tempo, o Estado laico não pode desconhecer que os religiosos de todas as crenças têm o direito de influenciar a ordem política, fazendo valer, tanto quanto os não crentes, sua própria versão sobre o que é melhor para toda a sociedade.

De todo modo, vale não esquecer que a laicidade do Estado é um processo. Não existe no mundo um Estado totalmente laico, como não existe um Estado totalmente democrático. Como a democracia, a laicidade é um processo, uma construção social e política.

Mas o estado é laico sim ou não?

É difícil responder à pergunta em termos de "sim" ou "não". A laicidade não existia no tempo do Império, já foi maior no início do período republicano, pelo menos na educação pública, e é hoje maior do que naquela época na legislação sobre a família. É como a democracia. O Estado brasileiro é hoje mais democrático do que foi em qualquer momento do passado, mas há muito, muito mesmo a fazer para ampliar a democracia. Já houve recuos, mas os avanços prevalecem.

Em suma: o Estado brasileiro não é totalmente laico, mas passal lentamente por um processo de laicização.

Na sua formação, o Estado brasileiro nada tinha de laico. A Constituição do Império (1824) foi promulgada por Pedro I "em nome da Santíssima Trindade". O catolicismo era religião oficial e dominante. As outras religiões, quando toleradas, eram proibidas de promoverem cultos públicos, apenas reuniões em lugares fechados, sem a forma exterior de templo. As práticas religiosas de origem africana eram proibidas, consideradas nada mais do que um caso de polícia, como até há pouco tempo. O clero católico recebia salários do governo, como se fosse formado de funcionários públicos. O Código Penal proibia a divulgação de doutrinas contrárias às "verdades fundamentais da existência de Deus e da imortalidade da alma". Os professores das instituições públicas eram obrigados a jurarem fidelidade à religião oficial, que fazia parte do currículo das escolas públicas primárias e secundárias. Só os filhos de casamentos realizados na Igreja Católica eram legítimos, todos os outros eram "filhos naturais". Nos cemitérios públicos, só os católicos podiam ser enterrados. Os outros tinham de se fingir católicos ou procurarem cemitérios particulares, como o "dos ingleses" (evangélicos), no Rio de Janeiro.

A situação de hoje é bem diferente daquela, mas ainda está longe de caracterizar um Estado laico. As sociedades religiosas não pagam impostos (renda, IPTU, ISS, etc ) e recebem subsídios financeiros para suas instituições de ensino e assistência social. O ensino religioso faz parte do currículo das escolas públicas, que privilegia o Cristianismo e discrimina outras religiões, assim como discrimina todos os não crentes. Em alguns estados, os professores de ensino religioso são funcionários públicos e recebem salários, configurando apoio financeiro do Estado a sociedades religiosas, que, aliás, são as credenciadoras do magistério dessa disciplina. Certas sociedades religiosas exercem pressão sobre o Congresso Nacional, dificultando a promulgação de leis no que respeita à pesquisa científica, aos direitos sexuais e reprodutivos. A chantagem religiosa não é incomum nessa área, como a ameaça de excomunhão. Há símbolos religiosos nas repartições públicas, inclusive nos tribunais.

A expressão Estado laico não consta da constituição de 1988, mas parte de seu conteúdo pode ser encontrado nela: entre as interdições à União, aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios, está a de

"Estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-las, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público."

Assim formulado, o texto constitucional permite associações entre o Estado e instituições religiosas que, se não interdita consciência e crença, privilegia uns credos em detrimento de outros, e, mais ainda, privilegia os crentes diante dos não crentes em matéria religiosa.

O Estado brasileiro tem tratados com o Vaticano, ente estatal da Igreja Católica, em matérias como a capelania militar, além de concordatas implícitas, como a que mantém o laudêmio. Este é um resquício do direito medieval, que persiste até hoje no Brasil. Ele consiste numa taxa que o proprietário de um imóvel tem de pagar anualmente (foro). Além disso, cada vez que o imóvel sujeito ao laudêmio é vendido, tem-se de pagar uma taxa calculada à base de 2,5% a 5,5% do valor da transação - chega a ser maior do que o imposto de transmissão devido à Prefeitura Municipal. Além da família imperial, dioceses da Igreja Católica e irmandades religiosas beneficiam-se do laudêmio nas áreas centrais das cidades mais antigas do país. Se as Igrejas Evangélicas não recebem recursos do laudêmio, beneficiam-se de outros privilégios, como as concessões de emissoras de rádio e televisão, além de acesso a recursos públicos para atividades assistenciais e educacionais. O art. 150 da Constituição proíbe a criação de impostos federais, estaduais e municipais sobre "templos de qualquer culto".

Durante a preparação da visita do papa Bento XVI, em maio de 2007, o Vaticano pressionou o governo brasileiro a assinar um pacto para consolidar os privilégios da Igreja Católica, assim como para estabelecer outros, como o livre acesso às terras indígenas, para ação religiosa. Naquela ocasião, denúncias de entidades laicas e matérias na imprensa, de que um acordo secreto estava sendo elaborado, frustraram a iniciativa, que, aliás, recebeu a rejeição do Presidente da República, que afirmou ser "o Brasil um Estado laico". No entanto, os entendimentos continuaram, secretamente, e culminaram na assinatura da Concordata, em Roma, em novembro de 2008. O texto encontra-se no Congresso Nacional para ser homologado ou rejeitado.

Nesse processo de construção do Estado laico, há avanços e recuos. Aqui vão dois exemplos. Primeiro, dois exemplos de avanço seguido de recuo. A Constituição Republicana de 1891 determinava que fosse laico o ensino ministrado nas escolas públicas, mas a aliança do Governo Vargas com a Igreja Católica fez com que o ensino religioso voltasse às escolas públicas, mediante decreto, em 1931, e por determinação constitucional, em 1934. Desde então, todas as constituições preveem o ensino religioso nas escolas públicas, um retrocesso. Vamos a outro. As duas Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1961 e 1996) foram promulgadas com uma cláusula que proibia o uso de recursos públicos para o ensino religioso nas escolas públicas - um avanço na direção da laicidade do Estado. Mas, essa cláusula foi retirada das duas leis, pelo mesmo Congresso que as promulgara, por causa da pressão da Igreja Católica - outro recuo na laicidade. Agora, um exemplo de avanço da laicidade do Estado, este bem consolidado. Apesar da longa e sistemática oposição do clero da Igreja Católica contra a possibilidade legal de dissolução da sociedade conjugal, o divórcio foi instituído, por lei do Congresso Nacional, em 1977. Neste caso, a moral coletiva foi retirada da tutela religiosa, portanto, houve um avanço no processo de laicização do Estado que refletiu a secularização da Sociedade.

O que é liberdade religiosa?

A liberdade religiosa é o direito que todas as pessoas têm de exercer sua religião ou até de não ter qualquer crença. Qualquer ofensa a esse direito pode ser coibida por medidas jurídicas.
Garantir a liberdade religiosa é diferente de simplesmente tolerar uma religião. Não é um favor que as pessoas fazem, mas obrigação de todos e do Estado.

O que o estado laico não é:

Antes de qualquer outra coisa, é preciso dizer que o Estado laico não é confessional. O Estado confessional é aquele que privilegia uma certa religião ou um grupo de religiões, transferindo para ela(s) recursos financeiros públicos, direta ou indiretamente, sancionando legalmente suas diretrizes morais e introduzindo nos currículos escolares das escolas públicas sua(s) doutrina(s). O Estado confessional pode ter uma religião exclusiva, proibindo as demais, ou privilegiar uma(s) e tolerar outras. O Estado brasileiro era confessional durante o Império, assim como são confessionais Estados contemporâneos, como a Grã-Bretanha, o Irã, Israel e a Dinamarca, que têm, religiões privilegiadas, respectivamente o Cristianismo de Confissão Anglicana, o Islamismo, o Judaísmo e o Cristianismo de Confissão Luterana.

Algumas pessoas pensam que basta a separação jurídica entre o Estado e as sociedades religiosas (separação Igreja–Estado) para que a laicidade exista. Não é assim. Há países que não têm religião oficial e nem por isso são laicos. Por outro lado, existem antigas monarquias, com religião oficial, que são mais laicas do que certos Estados latino-americanos. Por exemplo, a Grã-Bretanha e a Dinamarca são mais laicas do que o Brasil e a Argentina, que se separaram formalmente da Igreja Católica há mais de um século.

O Estado laico tampouco é um Estado concordatário. Concordata é um termo próprio do universo simbólico da Igreja Católica, a única organização religiosa que tem um Estado para representar-la, o Vaticano. Concordatas são, então, tratados firmados entre os governos de dois Estados, o Vaticano e um outro. Se a concordata com a Itália não foi a primeira, constitui a matriz das que a Igreja Católica estabelece com diferentes governos, com esse nome ou outro. O governo fascista italiano firmou com o Vaticano uma concordata (Tratado de Latrão), pelo qual o primeiro reconheceu certas propriedades eclesiásticas, introduziu o catecismo católico no currículo das escolas públicas e símbolos religiosos católicos nas escolas e outros estabelecimentos públicos, além de outros privilégios econômicos e políticos. O Vaticano, por sua vez, reconheceu o Estado italiano (que se constituiu a partir da unificação estatal, em 1870, que incorporou os Estados pontifícios). Mesmo depois da queda do fascismo, o Estado italiano vem renovando a concordata com o Vaticano.

O Estado laico também não é ateu. O Estado ateu é aquele que proclama que toda e qualquer religião é alienada e alienante, em termos sociais e individuais. Para combater a alienação, o Estado ateu combate, então, toda e qualquer religião. Se não consegue proibi-la, completamente, dificulta ao máximo suas práticas, inibe sua difusão e desenvolve contínua e sistemática propaganda anti-religiosa. A União Soviética e os Estado socialistas constituídos no leste europeu, assim como a República Popular da China estabeleceram regimes ateus, com base na concepção de que toda e qualquer religião seria fonte de alienação do povo. Houve diferentes graus na efetivação da política ateísta, mais radical na Alemanha Oriental do que na Polônia, por exemplo, onde todo o aparato formativo da Igreja Católica manteve-se em operação, acabando por se tornar um dos principais elementos de dissolução do “socialismo real”

Bom espero que tenha esclarecido algumas duvidas sobre o estado laico. Esse tema é extenso demais, mas com o tempo eu irei abordando com mais frequência. Fiquem a vontade para comentar, criticar, acrescentar, toda e qualquer opinião será bem vinda.Obrigado por disponibilizarem seu tempo e sua paciência para ler esse artigo até o fim. Então até a próxima pessoal!

Consulta:

BIRMAN, Patrícia e outros. Religião e espaço público, São Paulo, Attar Editorial, 2003.
BOURDIEU, Pierre, A economia das trocas simbólicas, São Paulo, Perspectiva, 1974.
BRUNEAU, Thomas C. O catolicismo brasileiro em época de transição, São Paulo, Loyola, 1973.
CUNHA, Luiz Antônio e CAVALIERE, Ana Maria, “O ensino religioso nas escolas públicas brasileiras: formação de modelos hegemônicos”, in Lea Paixão e Nadir Zago (orgs.) Sociologia da Educação – pesquisa e realidade brasileira, Petrópolis, Vozes, 2007.
Dossiê “Religiões no Brasil”, Estudos Avançados (São Paulo), vol., 18, no. 52, 2004.
JACOB, César R. e outros. Atlas da filiação religiosa e indicadores sociais no Brasil. São Paulo, Editora Loyola, 2003.
MARIZ, Cecília L. A teologia da batalha espiritual: uma revisão bibliográfica. BIB- Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais (Rio de Janeiro, Brasil), no. 47, 1999.
PIERUCCI, Antônio Flávio, “Interesses religiosos dos sociólogos da religião”, in Ari Pedro Oro e Carlos Alberto Steil (orgs), Globalização e religião, Petrópolis, Vozes, 1997.
FISCHMANN, Roseli, Estado Laico, São Paulo, Memorial da América Latina, 2008.
LOREA, Roberto Arriada (org.), Em defesa das liberdades laicas, Porto Alegre, Livraria do Advogado Editora, 2008.
http://www.nepp-dh.ufrj.br

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Pálido Ponto Azul - Carl Sagan

palido_ponto_azul

“Devido ao reflexo da luz do sol na nave espacial, a Terra parece estar pousada num raio de luz, como se nosso mundo tivesse um significado especial”. Mas é um acidente de geometria óptica. O sol emite sua radiação eqüitativamente em todas as direções. Se a foto tivesse sido tirada um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde, nenhum raio de sol teria dado mais luz à Terra.
Deste ponto distante de observação, a Terra talvez não apresente nenhum interesse especial. Para nós, no entanto, ela é diferente.
Olhem de novo para aquele ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, todos os que conhecemos de quem ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas.
Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, “superastros”, “líderes supremos”, todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali - num grão de poeira suspenso num raio de sol.
A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na glória do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fração deste ponto. Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes mal distinguíveis de algum outro canto em seus freqüentes conflitos, em sua ânsia de recíproca destruição, em seus ódios ardentes.
Nossas atitudes, nossa pretensa importância, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no universo, tudo é posto em dúvida por este ponto de luz pálida. O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Em nossa obscuridade, no meio de toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos.
A Terra é, até agora, o único mundo conhecido que abriga a vida. Não há nenhum outro lugar, ao menos em futuro próximo, para onde nossa espécie possa migrar. Visitar, sim. Estabelecer-se, ainda não. Goste-se ou não, no momento a Terra é o nosso posto.
Tem-se dito que Astronomia é uma experiência que forma o caráter e ensina humildade.
Talvez não exista melhor comprovação das loucuras da vaidade humana do que esta distante imagem de nosso mundo minúsculo. “Para mim, ela sublinha a responsabilidade de nos relacionarmos mais bondosamente uns com os outros e de preservarmos e amarmos o pálido ponto azul, o único lar que conhecemos.”
Carl Sagan - (de “Um pálido ponto azul”, 1994).

Richard Dawkins: “A evolução de um crente”

“Se vocês dispuserem de um tempo para ver a entrevista que o autor fez à BBC (disponível em YouTube e dividida em três partes), verão um Dawkins politicamente correto assegurando em mais de 5 ocasiões que ele seria incapaz de dizer frases extremas contra os cristãos. Entretanto, é o entrevistador quem lhe recorda que essas mesmas frases, carregadas de intolerância, foram tomadas de seu livro. É patético ver o guru do ateísmo evolucionista reconhecer o extremismo de sua própria cruzada!”

Como Richard Dawkins, eu detesto os templos. Detesto, além disso, todos os intermediários de Deus. Porém, diferentemente dele, também detesto as mesquitas e os imãs, e não só os padres que abusam sexualmente de meninos na Irlanda como a todos os religiosos do Oriente Médio que obrigam as meninas a se casar com barbudos da terceira idade. Detesto, ainda mais, essa Sharia tolerada pelos políticos covardes do Reino Unido. Não nego, durante anos admirei o trabalho de Dawkins e comprei quase todos os seus livros, exceto "The God Delusion", porém deixemos os motivos dessa seleção para mais tarde. Não há nada que afete mais o prestígio de um cientista do que a arrogância. Há meses venho observando os vídeos de Richard Dawkins contra a religião. Em especial, a virulência de seus ataques contra a religião cristã, contra a qual se ira como faria um islamita. Também posso dizer que me surpreendeu sua conferência na Universidade da Califórnia. Nessa palestra, intitulada "Estou ofendido", este oportunista filho de colonialistas no Kênia, comporta-se como um comunista do primeiro mundo ante um público que em Berkeley não podia ser mais liberal.

O vídeo exposto em "YouTube" mostra todo o cinismo e a vaidade de um homem interrompido pelos aplausos ao final de cada frase: "Devemos nos sentir ofendidos quando se diz às crianças que passarão uma vida nos fogos do inferno", diz uma das palavras de ordem dirigidas a uma massa de idiotas hipnotizados pela sapiência do grande predicador. Porque Dawkins, que se considera um ateu puro e duro, quer de qualquer maneira se converter no Martinho Lutero de uma nova bíblia, intitulada "A origem das espécies".

Muitos dos meus amigos (cientistas, alguns deles) são pessoas de fé. Trata-se de seres humanos com alguns princípios morais e uma tolerância que Dawkins não chega a assimilar. São pessoas honestas que amam as festas natalinas porque são parte da cultura na qual cresceram. Muitos (eu, entre os primeiros) admiram a obra de Darwin, um homem fora de época e extremamente modesto, cujas idéias deram coesão à nossa vocação científica em uma Cuba na qual o adorado devia ser Federico Engels, porque o ateísmo ou o agnosticismo de Darwin não se igualavam ao ateísmo fundamentalista que hoje nos quer vender o Sr. Dawkins.

O primeiro Bulldog de Darwin foi Thomas Henry Huxley [1]. Este brilhante intelectual defendeu a teoria da evolução como ninguém fez. Além disso, fez quando fazia falta. Seu primeiro trabalho em defesa da teoria da evolução foi publicado já em novembro de 1859, um mês depois de ter sido publicado "A origem das espécies". Porém, para defender as idéias científicas dista muito de tentar convertê-las em textos sagrados, e a intenção de Dawkins é a de converter Darwin em um novo Profeta, e a sua obra sobre a evolução em "O último testamento" para o século XXI.

Que contraditório: Dawkins foi o único cientista que melhor me convenceu do grande valor utilitário que implica crer em Deus e Deus, ao que parece, segue seu caminho de maneira silente, alheio à existência do evolucionista e seus discursos populistas pelas universidades do planeta. Talvez tenha sido pela importância cotidiana que a religião oferece ao homem mais simples, que Darwin dizia: "tão bela como é a moral do Novo Testamento, que apenas pode-se negar que sua perfeição depende em grande parte da interpretação que nós lhe demos agora às suas metáforas e alegorias".

Pouco importa quem seja o personagem (um minúsculo detalhe no universo da vida), este sempre será prisioneiro de suas próprias palavras. Imaginem quão cativo não serão os cientistas arrogantes. Ao finalizar a cúpula sobre a mudança climática em Copenhague, o senhor Dawkins publicou um editorial em "The Guardian" no qual dizia: "Não importa o que você pense acerca do aquecimento global ou se você pensa que os humanos são os responsáveis por isso eu penso que devemos saudar este notável logro de cooperação internacional". Ou seja, qualquer que sejam suas crenças sobre o Aquecimento Global, lutar contra ele até arruinar a economia mundial é um sacrifício do qual todos devemos nos sentir felizes e orgulhosos.

Quem poderia imaginar? Richard Dawkins: outro crente do culto do carbono!

O disparate me obriga a responder-lhe então de uma forma parecida a como Huxley respondeu ao Arcebispo Willberforce: "Preferiria ser descendente de dois crentes que ser um ateu e temer enfrentar a verdade". Sobretudo, porque há uma grande diferença entre crer em Deus e crer no Aquecimento Global. Deus, qualquer que seja o grau de credibilidade que você lhe outorgue, oferece esperanças, guia moral e conforta milhões de pessoas neste mundo. O Aquecimento Global, pelo contrario, é a religião do castigo eterno, da culpabilidade humana ante a natureza tornada deidade: os humanos somos todos pecadores no novo Culto do Carbono.

Porém, não era este Richard Dawkins, agora crente da falácia do aquecimento global, o mesmo que dizia em suas arrogantes palestras universitárias que os crentes não eram outra coisa senão "cabeças-duras" e "ignorantes"? O ser humano não deve apoiar somente aquilo que é "verdade" graças às evidências? Como pode então Richard Dawkins crer no culto do apocalipse climático quando ele mesmo afirmava que: "Eu não sou bem versado no clima?" Por acaso Phil Jones, Rajendra Pachauri, Michael Mann ou Al Gore, são cientistas que respeitam as evidências?

A cultura científica, como disse Ed Wilson, pode ser definida "como um conhecimento novo verificável, assegurado e distribuído com um crédito justa e meticulosamente dado". Como Dawkins chamaria a cultura do obstáculo editorial, das mentiras e da falta de crédito de todos os cientistas envolvidos e beneficiados por este negócio lucrativo do Aquecimento Global? Como pode o pomposo evolucionista converter-se em apologista de milhares de dados truncados, dos impedimentos editoriais politizados, ou do vergonhoso lucro dos cientistas implicados no IPCC e a Unidade de Investigações Climáticas da Universidade de East Anglia?

Ele mesmo dizia em 2008: "Eu sou bem versado em evolução... e por isso me dá alegria poder tomá-la com os criacionistas". Porém, Dawkins, não é puro criacionismo inventar-se uma teoria "científica" e sustentá-la com dados falsos? Por acaso você não leu os e-mails tornados públicos antes da conferência de Copenhague? Não é uma obrigação científica se informar amplamente antes de opinar sobre um tema científico? Por que Dawkins ignorou então certa literatura no controverso assunto da mudança climática? Por que acreditar então que teria que empreendê-la contra os céticos? Mc Cornmack [2] tinha muita razão quando lembrou-lhes que: "a ciência sem integridade é má religião".

Considerar como um fato destacado de cooperação internacional os esforços inúteis das Nações Unidas para lutar contra o aquecimento global, é o mesmo que apoiar a criação de um governo mundial que ninguém necessita é ignorar que se trata de uma "realidade" envernizada de ciência produzida por cientistas emprenhados de agendas políticas e interesses econômicos. Para consegui-lo, não duvidam sequer em destruir a imagem de outros cientistas que opinam parcialmente o contrário. A ciência não é um templo onde tudo é evidência racional e imparcial, senhor Dawkins? Ao menos isso, me parece ter escutado.

O ódio cego de Dawkins contra os crentes o converteu em um fervoroso crente, ele também. Falar dos horrores das cruzadas religiosas (sem ter em conta os perigos políticos da época), é como desaprovar o presidente Bush em sua cruzada no Afeganistão e votar depois em Barack Hussein Obama. Dawkins esquece que os mais destacados cientistas são os que sempre construíram as armas mais letais. Ou talvez ele acredite, como acreditava Isidor I. Rabi, que as armas atômicas são benéficas para a evolução porque geram mutações genéticas em todas as espécies irradiadas.

Chega assim o momento de mencionar a inquestionável culpabilidade do ser humano na mudança climática. Como se fôssemos uma espécie de Deus onipresente, onipotente e capaz de modificar tudo com nossos atos, Dawkins acredita que somos culpados do que a olhos vistos é um processo natural no qual o sol, as mudanças dinâmicas na atmosfera e a evolução do planeta são os principais protagonistas. Se esse tipo de ciência é a ideologia a que devemos nos submeter para sobreviver como espécies, prefiro a extinção. A ciência do clima é hoje em dia a disciplina mais desonesta que existe e terminará colapsada um dia pela evidência.

Da mesma forma que os fanáticos religiosos são a vergonha da fé, os fanáticos do aquecimento global são a sem-vergonhice da comunidade científica mundial. Entre estes, Dawkins merece uma menção especial, não só por acreditar nela, como pela arrogância que demonstra ao crer somente em um grupo de cientistas. Quanto Dawkins cobra por cada uma de suas conferências? Ganha o mesmo que Al Gore? Mesmo que assim fosse, as frases de desprezo que Dawkins lança nos inúmeros vídeos de YouTube contra seus gentis interlocutores demonstra que seu método científico, como seus disparates políticos, são "algorianos".

Que Deus o perdoe! A ciência climática de Dawkins começa a soar como os discursos litúrgicos da religião muçulmana! Só que no culto do dióxido de carbono são dois os profetas adorados (Al Gore e Hussein Obama), porém a ameaça de morte se somos infiéis é a mesma, o apocalipse com altas temperaturas idem e a promessa de salvação se seguimos os "suras e aleias" de Gore e Pachauri não mudam. Aos infiéis, a mais absoluta intolerância e a estrita proibição a todo indício de liberdade de expressão. Quem critique o novo dogma não poderá encontrar emprego nem nas ciências do espaço.

Voltemos aqui então, às razões que me convenceram a não comprar o livro "The God Delusion". Se vocês dispuserem de um tempo para ver a entrevista que o autor fez à BBC (disponível em YouTube e dividida em três partes), verão um Dawkins politicamente correto assegurando em mais de 5 ocasiões que ele seria incapaz de dizer frases extremas contra os cristãos. Entretanto, é o entrevistador quem lhe recorda que essas mesmas frases, carregadas de intolerância, foram tomadas de seu livro. É patético ver o guru do ateísmo evolucionista reconhecer o extremismo de sua própria cruzada!

Darwin dizia: "Alguns escritores estão, sem dúvida, tão impressionados pelo tamanho do sofrimento do mundo, que duvidam se temos em conta todos os seres sensíveis, e se há mais miséria que felicidade. Em meu conceito, a felicidade decididamente prevalece, mesmo quando isto seja difícil de provar... Se todos os indivíduos de uma espécie tivessem que sofrer habitualmente a um grau extremo, se negariam a propagar sua espécie porém, não temos razões para crer que isto nunca tenha, ou ao menos freqüentemente, ocorrido. Mais ainda: muitas outras considerações nos inclinam a crer que todos os seres sensíveis foram formados para desfrutar, como regra geral, da felicidade".

Não creio equivocar-me ao afirmar que Darwin sempre esteve consciente de que o cérebro humano necessitava da fé. Já velho, ele escrevia: "Outra fonte da convicção na existência de Deus, conectada com a razão e não com os sentimentos, me impressiona por ter muito mais peso. Esta se baseia na extrema dificuldade ou melhor, impossibilidade de conceber este imenso e maravilhoso universo... como resultado de um fato ao acaso ou uma necessidade. Ao refletir me sinto inclinado a ver uma Causa Primeira como uma mente inteligente, de certo modo similar à do homem, e neste caso mereço ser chamado Teísta".

Quando eu estudava comportamento animal pelos livros de Tinbergen, Alcock e Wilson, acreditei entender que as aves não necessitavam da experiência para sobreviver, senão da obediência. Obedecer ao instinto de seus genes e aos repertórios da espécie. Ninguém ensinava ao Gavião do Monte como construir seu ninho e, entretanto, este era quase idêntico em forma e tamanho ao dos outros gaviões da mesma espécie. Então eu me perguntava se a religião não seria parte de nossa própria condição operativa, outro evento biológico de nossos genes e não uma expressão psicológica. Nem todos os homens tinham deuses idênticos mas todos tinham rituais.

Não serão nossas crenças religiosas obedientes repertórios ditados por genes particulares? Não apareceram em nossa existência e evoluíram segundo a espécie foi evoluindo ela mesma? Por que quer então Dawkins, o evolucionista, separar de nossa anatomia o que é na realidade um comportamento biológico e natural? Estou quase certo de que o valor utilitário que as crenças religiosas produzem na busca da felicidade, favoreceram nossa sobrevivência e, portanto, nossa evolução. Por que então aborrece tanto a Dawkins que acreditemos em Deus?

Darwin estava consciente do valor da fé como mecanismo de sobrevivência e embora seu lado agnóstico o chacoalhasse frente à sociedade, sua educação e suas próprias vivências sempre o encheram de dúvidas. Em um de seus últimos textos o grande cientista concluía: "Eu não posso pretender oferecer a mais mínima luz a esses problemas incompreensíveis. O mistério do início das coisas é insolúvel para nós e eu desta vez me sentirei satisfeito em permanecer como Agnóstico. Não há nada mais destacado que a disseminação do ceticismo ou do racionalismo nesta última metade da minha vida".

Dawkins, pelo contrário, nos dizia em Berkeley: "Devemos nos sentir ofendidos quando se diz às crianças que passarão uma vida nos fogos do inferno". Viram o vídeo de abertura criado pelos cientistas do aquecimento global para a conferência do clima em Copenhague? Depois de fazê-lo, seguramente se perguntarão: quão ofendidos deveríamos nos sentir se se diz as crianças que se afogarão em desastres de inundações se não atuarem como crentes do aquecimento global? Essa é o tipo de educação que Richard Dawkins quer para nossos filhos. Essa é a tática de terror utilizada pelos cientistas do clima e nos quais o grande evolucionista deposita sua confiança.

Por isso recomendo a todos os leitores e a todos os meus amigos lerem "A Origem das Espécies" de Charles Darwin. É uma obra maravilhosa e inteligente que todos devemos conhecer e não essa "bíblia" que um arrogante e oportunista britânico quer nos vender como único guia para a salvação. Dawkins se faria um imenso favor voltando ao campo de estudos ao qual dedicou sua vida e abandonado sua guerra contra as crenças de seus semelhantes. Diria como disserem à cantora do Dixie Chicks quando criticou George W. Bush em um de seus concertos: "Cala-te e canta!".

Como corolário, quero agregar uma notícia que não faz muito foi manchete nos tele-jornais de todo o mundo: as brigadas de salvamento norte-americanos no Haiti acabavam de tirar uma anciã de entre as ruínas de sua casa destruída pelo terremoto. Quando lhe perguntaram como havia podido sobreviver sem beber e sem comer sete dias sepultada entre os escombros, a mulher apontou para o céu e disse que rezando, porque ela estava segura de que Deus a ajudaria. Dawkins seguramente nos dirá que essa orações não têm mais efeito que o placebo, porém, a realidade é que seu ateísmo não produz esse tipo de milagres e não teria podido salvá-la.

Por essa simples e única razão, digo: Deus abençoe o placebo da fé!

Notas:

[1] Huxley T. H. Time and Life: Mr. Darwin's "Origin of Species" in Macmillan's Magazine and The Darwinian Hypothesis in The Times.

[2] Mc Cormack P. An open letter to Richard Dawkins: man-made climate change or is science subjective?www.petemccormack.com . 11 pages.

Fonte: http://www.midiasemmascara.org