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quinta-feira, 8 de março de 2012

Christopher Hitchens – Os novos mandamentos

Um vídeo curto, acessível e com algum humor, do sempre brilhante Hitchens(para ver ele legendado é só clicar no “CC” em baixo da barra de progresso).

Os Dez Mandamentos foram gravados em pedra, mas pode ser hora para uma reforma. Com toda a devida humildade, o autor assume a tarefa de remoção, o eticamente duvidosa, desafiando o impossível, e corrigir algumas omissões graves.

Para quem deseja se aprofundar mais nesse assunto recomento os seguintes links:

O Big Ten (Os Dez Mandamentos)

http://www.ebonmusings.org/atheism/10c.html

The New Ten Commandments (Os novos 10 mandamentos – Um decálogo para um mundo moderno)

http://www.ebonmusings.org/atheism/new10c.html

terça-feira, 6 de março de 2012

Conheça os 4 maiores fracassos de Deus

DeusComo sabemos, o deus do cristianismo, é o ser superior responsável por todos os acontecimentos em nosso universo. Detêm o controle sobre catástrofes, vidas que vem e vão, mudanças climáticas, enfim... Tudo o que a ciência AINDA não tem o conhecimento ou a permissão necessária de interferir.
Segundo religiosos, o dono das nossas
vidas, destinos, vitórias e conquistas. Onisciente e Onipotente!

Não é provável nem imaginável que alguém com tantas qualidades e "super-poderes" seja capaz de cometer enganos, certo?
Mas não é o que vemos em sua história...
Enganos monstruosos do senhor da perfeição, que poderiam ser facilmente premeditados por um ser de tantas qualidades, foram supostamente cometidos e, com sua própria inspiração através de seres humanos, documentados em seu
livro sagrado.
Listarei aqui quatro grandes CAGADAS do deus do cristianismo:

Cagada 1 - Adão e Eva

Há 6.000 anos, deus extrai matéria de seu pensamento, cria o mundo, estrelas, galáxias, o universo, antimatéria, nos deixa provas de uma explosão como assinatura... Enfeita a terra e se esquece de fazer o mesmo com os outros bilhões de planetas, cria animais, nuvens, arvores, frutos, leis da física, fome, enfim... O famoso Jardim do Éden.
Cria o homem do barro, uma mulher do osso do homem de barro. Explica ao homem e a mulher de que não estão autorizados a comer certo tipo de fruto.
O resto da história nós sabemos...

adao-e-evaUm deus criador do universo e tudo que nele há, não seria capaz de prever que duas miseras criações suas iriam desrespeitar uma ordem tão importante no futuro?
Com essa cagada divina, deus acabou condenando a todos os seres descendentes dessa sua criação, nos tornando pecadores a partir de nosso nascimento. Obrigando-nos a viver sob sofrimento e repetidas orações para, quem sabe um dia..., nos salvar e não nos deixar queimar no mármore do inferno!

Cagada 2 - Dilúvio universal

Ao ver que sua primeira tentativa de criação não saiu muito bem e, além disso, resultou em um mundo cheio de pecados e maldade segundo seus padrões, deus toma outra decisão: dar um fim em quase tudo que vive no planeta.
Escolhe uma família que, ao seu ponto de vista, está mais próxima de sua perspectiva de perfeição, pede para que façam uma arca, deem um jeito de colocar um casal de cada tipo de animal existente (porque ele não consegue, é mais fácil pra Noé) e que se preparem para 40 dias e 40 noites de tempestade que irá formatar o planeta deixando apenas dados de inicialização para uma próxima instalação.

Agora Pica Pau e cupim como eles ficaram na arca? A resposta fica na imagem a seguir

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Varre da Terra os animais, adultos e crianças inocentes, tudo que respirava agora está nas profundezas de um oceano com propósitos divinos. Bebes recém nascido desta época agora devem estar queimando no inferno por não estarem dentro dos propósitos divinos (?). Animais inocentes sufocaram até a morte sem poderem imaginar o motivo...
Mais uma decisão de um deus onisciente, que provavelmente prefere confiar em seus instintos, não resulta no esperado...
A geração seguinte ao dilúvio, descendente de Noé e sua família, continuam "pecando" até hoje. Quem alagaria um planeta sem uma certeza de que tudo estaria resolvido com essa decisão? Cagadinha...

Cagada 3 - Moisés e a fuga do Egito

Se existe alguém com razões para ser anticristão, esse alguém é Moisés.
Era uma vez no Egito, um povo escravizado, conhecidos como israelitas.
Deus então, desistindo de destruir civilizações em seu nome, concorda em salvar apenas um pequeno grupo. Indica Moisés como líder da banca e diz que irá guiá-los á terra prometida
Então, o grupo sai vazado do Egito rumo ao desconhecido deserto e esperando que deus realmente cumpra sua parte no acordo. Estão esperando até hoje... 3.000 anos depois e os israelitas não encontraram ainda sua terra prometida por deus.
Reza a lenda que este grupo assombrou o deserto por 40 anos após a fuga do Egito.

Também tem uma outra questão nessa história que não quer calar. Como Moisés abriu o mar vermelho. Eis a resposta a na imagem a seguir:

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Moisés até arrumou umas pedras escritas por deus que usamos de base para leis de nossa sociedade até hoje.
Quantas gerações ele irá esperar para entregar a terra prometida? Será que ele esqueceu? O que aconteceu com todas as orações direcionadas a ele, implorando pela terra de paz? Irresponsabilidade divina.
Tentei entrar em contato para esclarecer o ocorrido mas deus nunca responde minhas orações.

Cagada 4 - A vinda de Jesus Cristo

Em sua ultima tentativa de tentar corrigir as cagadas causadas pela sua irresponsável criação, deus tenta espalhar a bondade pelo planeta mandando um exemplo vivo.
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Por ser muito ocupado, ou por medo de se expor e ser cobrado por tantas coisas erradas que fez nos últimos 6.000 anos, deus, como todo bom pai, exemplo para nossas vidas, joga seu único filho nas mãos de um povo completamente violento e racista para que salve o mundo da maldade e do pecado.
Mais uma vez o poder de onisciência de vossa santidade é falho.

Seu único filho morre de uma forma horrenda, e sua intenção não é efetiva. Ele provavelmente não dá ouvidos aos gritos do filho durante a tortura e ainda manda Jesus de volta a terra após três dias.
Image converted using ifftoanyA maldade ainda é presente 2.000 anos depois, e durante esse período, muitas mortes ocorreram em nome de cristo.
Mais um projeto que não deve ter saído como o previsto.
E há pessoas que ainda esperam pela sua segunda vinda! Depois de tudo o que passou na Terra, duvido que ele volte.
Talvez isso explique a omissão de deus nestes últimos milênios…

Historicamente, acho a participação de Jesus muito interessante e um exemplo a ser seguido. Não vejo defeitos em seus atos e até gostaria que pessoas religiosas se espelhassem neste personagem, mas seu pai tem umas decisões meio duvidosas.
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50316_71869344580_4121910_nAlém de participar diretamente de genocídios, assassinatos, promessas não cumpridas, esse deus do cristianismo é um pouco inconsequente.
Matou tudo que já viveu, irá matar todos ao seu redor, mandar tudo que não lhe agrada para o inferno, mas mesmo assim, devemos adorar-lo, teme-lo, e agradecer por tudo. Inclusive diversas tragédias cotidianas em nossas vidas.hell lake of fire

Vivam suas vidas aqui. Nossa certeza mais próxima da exatidão é essa existência que presenciamos. Não desperdice a vida que o cosmos lhe proporcionou com crenças infundadas e temores que estreitam nossos prazeres e atrofiam nossa evolução psicológica e científica

 

Adaptado do blog http://vidaemorbita.blogspot.com e inspirado em desenhos animados dos Simpsons, Family Guy, American Dad, South Park ect… E neste vídeo do Canal AntiFé:

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

“ATEUS REVOLTADINHOS”

 

Se tem uma coisa que todo ateu já ouviu uma vez é que ele é revoltado. Que ele é nervoso ou rancoroso. Alguns religiosos justificam essa “característica” como sendo oriunda do fato dele “não ter deus no coração”, de ter um “vazio dentro de si”.

O ateu em geral também é invariavelmente condenado por ser muito racional. Eu mesmo já ouvi isso com a pior conotação possível. “Ah, mas você é muito racional, nunca será feliz assim”. Já deveria estar acostumado, mas ainda me impressiono quando ouço alguém criticar a racionalidade e dar-lhe um sentido negativo. Bom, parece que os religiosos não entendem mesmo que, nós ateus, só conseguimos ser felizes em nossa racionalidade. É isso que nos traz paz. Nossa capacidade de separar o real do ilusório e ainda assim apreciar tudo o que a vida traz de belo.

Como se não bastasse o ateu, segundo pesquisas, figurar em primeiro lugar na lista de preconceitos, sendo colocado à frente dos negros, dos homossexuais, dos usuários de drogas e das prostitutas, ele ainda é considerado um ser revoltado, uma pessoa raivosa.

Somos divididos em estúpidos sub-grupos baseado na patética argumentação de que se você diz que não crê em deus você é ateu, mas se você não crê em deus e diz “porque” você não crê em deus você é neo-ateu. Brilhante né?

É claro que nunca vi grupos de ateus se reunindo para agredir homossexuais na Avenida Paulista ou na orla de Copacabana. Nunca vi também associações de ateus colocarem capuzes brancos e queimarem negros. Tão pouco vi ateus dizendo que quem não concorda com eles será torturado por toda a eternidade.

Mas dessa vez sou obrigado a concordar com os religiosos. Isso mesmo: NÓS ATEUS SOMOS REVOLTADOS! Pronto admito para quem quiser ouvir. Somos revoltados e pronto.

Somos revoltados porque existem professores de ciência de escolas públicas que ainda se recusam a ensinar a evolução, somos revoltados porque a Igreja Católica não admite o uso de preservativos em continentes como a África onde a Aids é uma doença endêmica, condenando milhares a morte por via indireta.

Somos revoltados, porque missionários espancam suas mulheres quase até a morte porque afirmam que é a vontade de deus que elas se submetam a seus maridos. Somos revoltados porque em países como a Índia, com seus néscios sistemas de castas, pessoas são doutrinadas para acreditar que sua pobreza é merecida e fruto do carma de vidas passadas onde foram ruins.

Somos revoltados porque até hoje pessoas são mortas e mutiladas na África por facões cegos bradados por padres católicos que acusam pessoas de bruxaria. E antes que perguntem: sim, isso acontece hoje, não estou falando da idade média não.

Somos revoltados porque pessoas são ensinadas a odiarem sua sexualidade sob pena de irem para o inferno. Somos revoltados porque mulheres são convencidas a não exercer sua feminilidade, mesmo que existam igrejas onde a poligamia masculina seja permitida. Igrejas onde as meninas são convencidas a se casarem contra a sua vontade para não serem cobradas em suas pós-vida.

Somos revoltados por ensinarem crianças a odiarem homossexuais, por as doutrinarem a reprimir a sua homossexualidade e a odiarem seus corpos. Somos revoltados por dizerem que se forem gays são doentes e precisam “de cura”.

Somos revoltados porque pais religiosos frequentemente expulsam seus filhos de casa por serem gays quando o certo, o “cristão” a se fazer, seria amar-los e acolher-los, assim como um tal de “Jesus” faria.

Somos revoltados porque humilham e agridem quem é diferente deles com uma mão enquanto na outra seguram algo que é chamado de o “bom livro”.

Somos revoltados porque obras de arte de valor inimaginável como os Budas de Bamiyan foram destruídas pelos Talibãs, por aversão à “idolatria”. Somos revoltados pela pratica monstruosa da infibulação, que consiste em mutilar o clitóris de meninas e mulheres a fim de frear-lhes a sexualidade, e isso tudo com fundamentação em interpretação teológica.

Somos revoltados com a teocracia islâmica onde um o simples desobedecer ao pai ou mero namoro fora do casamento e da religião é punível com açoitamento público e dependendo do caso até a pena de morte por apedrejamento.

Somos revoltados quando sabemos que crianças de 10 anos de idade são forçadas a casar por mero atendimento à crenças e costumes religiosos oriundos de uma época onde as pessoas defecavam no mesmo local em que comiam.

Somos revoltados porque aqui mesmo no Brasil, onde uma outra criança de 9 anos foi estuprada e engravidou e ter um aborto autorizado, ser comunicada que tanto os médicos que fizeram o procedimento, assim como a família que a permitiu, foram excomungados pela Igreja Católica. Somos revoltados também, porque essa mesma igreja Católica não teve essa mesma atitude para com o animal que praticou tal estupro e não o excomungou também. Ora, que pesagem é essa? Que mensagem é essa perpetuou?

Nós ateus nos revoltamos com o fato de que essa mesma Igreja Católica só reconheceu e se desculpou em 1992 pela injustiça que praticou com Galileu em 1663. Nos revoltamos porque 300 anos é muito tempo até se pedir desculpas.

Nós ateus ficamos revoltados quando vemos pessoas diariamente sendo roubadas e abusadas em sua fé por pastores que lhes passam a perna sem a menor piedade. Por larápios disfarçados de cordeiro com suas mansões na Flórida e seus aviões a jato.

Nós ateus ficamos revoltados quando ouvimos que forças sobrenaturais ou entidades atuam e produzem efeitos sobre um mundo natural, mas são totalmente invisíveis e indetectáveis nesse mesmo mundo natural.

Nós ateus ficamos revoltados quando religiosos nos afirmam que não podemos julgar ou discernir os atos ou omissões divinas faces às tragédias do cotidiano e dizer que deus é mal por isso, vez que nosso critério, por ser humano, é falho, quando esses mesmos religiosos, usam esse mesmo critério humano e falho, para dizer que deus é bom e justo.

Nós ateus somos revoltados vez que não aceitamos com passividade o fato da humanidade se matar de forma rotineira com base em livros sagrados contraditórios e sem nenhuma justificativa que os sustente a não ser a fé de quem os professa.

Nós ateus nos revoltamos quando assistimos aviões serem jogados a 500 KM por hora contra prédios. Nos revoltamos quando vemos cristãos matarem muçulmanos e muçulmanos matarem judeus em um loop de violência infinita em nome de um deus que nunca apareceu nem para um cafezinho.

Nós ateus nos revoltamos sim. E temos orgulho dessa revolta. Temos orgulho de propagarmos o pensamento crítico, o embasamento científico doa a quem doer. Temos orgulho de colocar o dedo na ferida. Temos orgulho de dizer que todos que afirmam suas certezas deveriam ter a obrigação de demonstrar-las com evidências ao invés de empurrar a sujeira para baixo do tapete.

Nós ateus temos vergonha quando religiosos aduzem que a terra foi feita para eles quando sabemos que somos apenas poeira estelar e que a humanidade é um mero piscar de olhos na vastidão do tempo e do espaço.

Nós ateus ficamos revoltados quando religiosos nos chamam de radicais e intolerantes por dizermos: “nós não concordamos com vocês”, “que evidências vocês tem para corroborar o que afirmam”.

Nós ateus nos revoltamos quando religiosos querem tentam passar a imagem de que a revolta ateísta pela religião ocorra não pela religião em si e suas mazelas de clareza meridiana, mas sim porque há algo de errado conosco.

Mas sobretudo, nós ateus nos revoltamos, porque vocês religiosos não se revoltam. Porque não se indignam com tudo o que acontece ao redor do mundo em seu próprio país nas bem nas suas barbas. Que legado deixarão para seus filhos? Um país baseado nas ideias da bancada evangélica? É isso mesmo!?!?! Que não reclamem depois!

Por derradeiro que fique claro que, enquanto essas injustiças forem praticadas, esse tapa na cara do bom senso e da postura intelectualmente mais correta continuar, vocês religiosos terão que lidar com esses “ateus revoltados”.

Esses mesmos ateus revoltados que, durante muitos séculos e até nos dias de hoje, foram e são, perseguidos torturados e mortos. Esses ateus revoltados que, ao longo da história, contribuíram para que a ilusão nunca sobrepujasse a razão. Que trabalharam incessantemente para entregar maravilhas científicas. Que de forma inelutável sangraram para que o ser humano fosse reconhecido por sua mortalidade, falibilidade e racionalidade e ainda assim fosse imprescindível. Termino lembrando o belo questionamento de Douglas Adams: Será que não é o bastante ver que um jardim é bonito sem acreditar que ha fadas escondidas nele?”. Penso que sim…e vocês?

Humberto P. Charles

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A religião católica e os Astecas

Para os europeus em meado do século XV, viajar pelo oceano Atlântico era uma tarefa perigosa, pois para os marinheiros o oceano era cheio de monstros e mistérios. Visto que muito pouco se sabia do oceano Atlântico, muitas histórias fantasiosas foram inventadas no decorrer do tempo. Como que em algumas partes desse mar existiam monstros marinhos (como hydras e grandes peixes) grandes cascatas e o verdadeiro ‘fim do mundo’ onde a água caia sem fim. Os primeiros paises que encarar esse oceano foram Portugal e a Espanha. Cada um deles seguiu seu próprio caminho para o desconhecido.

Portugal “achou” o Brasil, mas mesmo sua colonização agressiva, não foi possível limitar a religiosidade aqui, como se vê hoje, esse emaranhado de religiosidades, uma verdadeira festa de religiões.

A Espanha por sua vez encontrou mais desafios. Encontraram povos que já conheciam suas minas de ouro, que já tinham uma sociedade estruturada economicamente, politicamente e religiosamente. Nesse texto falarei um pouco sobre a colonização (ou exterminação, como preferir) dos povos nativos da América: os Incas, Maias e Astecas. Começarei então pelos Astecas:

No século XVI, os espanhóis organizaram algumas expedições para conquistas de novas terras. A expedição de maior destaque foi a de Hernan Cortez, que conquistou e destruiu o império asteca, na atual região do México.

Os astecas eram considerados o povo mais religioso dessa região. Sua religião era essencialmente astral, isto é, baseada nos astros, e foram absorvendo e criando deuses e rituais, o deus mais importante era Uitzlopochtli, que representava o sol do meio-dia.

O mais interessante foi como Cortez conseguiu conquistar esse império. O imperador asteca, Montezuma e seu povo imaginaram que Cortez e seus homens eram grandes deuses, por isso em vez de lutar e defender seu grande império, Montezuma mandou emissários com presentes para o colonizador Cortez, para assim manter a paz e a harmonia entre seu povo e os deuses. Mas os espanhóis, além de seus cavalos dispunham de outras armas de guerra, desconhecidas para o povo asteca.

Como os espanhóis estavam em menor número, eles procuraram conhecer bem a língua, a cultura daquele povo. Os astecas já conheciam o outro, assim Cortez fez Montezuma mostrar os mapas de seu império para conseguir acesso as lendárias riquezas do império asteca. O confronto entre espanhóis e astecas começou quando o colonizador Cortez teve de voltar em Vera Cruz e deixar as tropas em Tenochtitlán sob o comando de Pedro Álvaro. Em uma festa religiosa regional, Pedro manda fechar as porta do templo central e exterminar todos os nativos ali.

Foram totalmente massacrados, com mais de mil mortos. Mas os nativos conseguiram reagir, sob as ordens de Cuitlahuac, irmão de Montezuma. Enquanto o combate no templo seguia, a cidade também passava por outra crise: as doenças trazidas pelos europeus, como exemplo um surto de varíola que também ajudou os europeus na conquista (Até hoje é debatido se essa doenças trazidas pelos português foram propositais para ajudar na conquista do império Asteca), pois essas doenças eram desconhecidas para os nativos (Os anticorpos dos europeus eram mais avançados que dos nativos) e por isso eles não tinham defesa. No meio desses problemas o irmão do imperador Montezuma morreu.

Cortez com um exército de apenas 650 soldados, 194 mosqueteiros, 84 cavaleiros (Dá pra notar a diferença entre os povos por esses números) e milhares de nativo aliados, começou o ataque a Tenochtitlán. Visto que os guerreiros astecas não se deixaram vencer tão fácil e lutavam bravamente, Cortez invadiu a cidade e envenenou todas as fontes de água. Em 75 dias muitos astecas morreram e passaram fome. Os nobres de destaque foram torturados para assim poderem falar onde estavam os tesouros da cidade.

E diferente de algumas colônias, os espanhóis foram autoritários com a cultura asteca, acabando com todo e qualquer tipo de ritual, pelo fato dos espanhóis se depararem com povos de estruturas sociais complexas fez com que a Igreja percebesse “a dimensão da tarefa de evangelização que agora se exigia dela no Novo Mundo.”. Por isso, foi necessário que os espanhóis primeiramente conquistassem militar e politicamente os povos nativos daquela área para que depois fosse possível a missão evangelizadora da Igreja Católica.

Na Europa, pela segunda metade do século XV ocorreu a reforma protestante, e como os espanhóis não aderiam a reforma, acharam que na colônia espanhola dever-se-ia estabelecer o “cristianismo puro”, isento dos erros do velho continente, restaurando assim a Igreja primitiva, foi até estado na colônia o Concílio de Trento, que marcou a evangelização em toda América, sendo que foram impostas diferentes regras como, a título de exemplo, a liturgia que continuara a ser professada em latim e a restrição do acesso dos fiéis à palavra de deus.

Infelizmente, a violência da colonização espanhola acabou destruindo grande parte dessa rica cultura, a Igreja foi unânime e acabou com toda a religião e caçaram todos aqueles que a praticavam.

Bibliografia:

Caminhos das Civilizacoes Historia Integrada Geral e do Brasil - Jose Geraldo Vinci Moraes

A Igreja Católica na América espanhola colonial - BARNADAS, Josep M

A guerra da imagens e a ocidentalização da América” GRUZINSKI, Serge

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Para Hitchens, Jesus supera o seu Pai em crueldade

O Novo Testamento, o do Deus pai de Jesus, costuma ser citado por cristãos conscienciosos como uma espécie de “upgrade, com menos bugs”, do Velho Testamento, onde está o Deus mesquinho, cruel e insano. Para Christopher Hitchens (foto abaixo), contudo, o Novo Testamento é mais terrível que o Velho.
christopher_hitchens_cancerNo Velho Testamento, argumenta Hitchens, há o mandado divino para o extermino de povos, o que hoje é chamado de limpeza étnica. A morte, nesse caso, é o castigo derradeiro de Deus a povos como os midianistas e amalecitas. No Novo Testamento, contudo, o castigo aos ímpios não se finda com a morte e prossegue no inferno por toda a eternidade.

Para Hitchens, essa ideia, a mais cruel de todas já feitas, nasceu com Jesus.

2223712"Ele [Jesus] disse pela primeira vez: “Se você não concorda com o que ofereço, saia daqui e vá para o fogo eterno", disse Hitchens em novembro de 2007 em uma entrevista a Elizateh Carvalho para o programa Milênio, da Globo News. Foi quanto o britânico radicado nos Estados Unidos esteve no Brasil para o lançamento do seu livro “Deus não é grande – como a religião envenena tudo” (Ediouro, 304 págs.).

Nesta entrevista, há um pouco da perspicácia e contundência da critica às religiões do ateu mais brilhante e polêmico da contemporaneidade que morreu aos 62 anos no dia 15 deste mês vítima de um câncer no esôfago.

Íntegra da entrevista.
Christopher, vamos acompanhar um pouco a cronologia do seu livro e voltar a Dartwood na Inglaterra, onde você era um menino de 9 anos e tinha aulas de religião com a sra. Jean Watts. Ela parece ter sido a primeira pessoa a ajudá-lo sem querer a duvidar da existência de Deus. Acho que todos passam por uma experiência parecida como essa em algum momento da vida. Mas a verdade é que, independentemente do quão seja dogmática e irracional a religião, bilhões de pessoas ainda preferem abraçar a fé. Como você explica essa necessidade incontrolável por Deus?
Eu só posso dizer que Ele é muito real, muito necessário para milhões de pessoas. Também temos de admitir que, para muitos de nós, talvez 10%, 15%, essa necessidade não existe. Mas a senhora Watts não disse nada que eu já não soubesse. Não foi como uma revelação no caminho para Damasco. “Eu acreditava em algo, mas agora não acredito mais.” Ou: “Eu acreditava naquilo e agora acredito nisso.” Foi apenas a maneira como descobri que não podia acreditar no sobrenatural. Eu não acreditava e não podia acreditar. É algo diferente de um momento de convicção ou de um momento de descoberta. Mas ainda assim se tornou óbvio para mim, como disse Pascal, “do jeito que fui feito, não posso acreditar”.
Como disse, você escreveu esse livro a vida toda.
É muita gentileza você notar isso com tanta ênfase.
Esse longo caminho que o levou a sua inquestionável objeção à fé religiosa foi fácil ou doloroso?
Acho que foi menos doloroso do que a experiência de muitos dos meus amigos cristãos, muçulmanos e judeus após investiram tantos anos da vida em uma fé que sempre se mostrou inútil. Para mim, é um compromisso intelectual, que é tentar fazer as pessoas entenderem que a melhor vida é a que estuda a razão, ironia, literatura, ciência, humor. E que há outras coisas que fazem a vida a não valer a pena. Nós não devemos nada à ditadura do sobrenatural.
Será que isso tem algo a ver com nossa fragilidade, com a nossa “essência de vidro”? É uma bela definição do roteirista francês Jean-Claude Carrière, que escreveu sobre a nossa “essência de vidro”.
Para mim, não há dúvidas. Somos uma espécie parcialmente racional que tem muito medo da morte, do desconhecido, do escuro. Mas também é muito presunçosa, diferentemente do que outros animais. Acreditamos que o universo foi criado para nós. E isso nos convenceu de que nada foi por acaso. Nós temos de ser o centro, o objeto de tudo. Claro! Entre o nosso medo e o nosso egoísmo, é muito fácil vender a religião para nós. É claro que somos o centro de tudo, com o sol girando em torno de nossa terra! Nada seria mais provável. É tudo para mim, para moi. E é muito difícil perceber que tudo isso é besteira.
Seu livro ilustra muito bem como a religião foi prejudicial ao longo dos séculos e quantas atrocidades foram cometidas e ainda são cometidas em nome de Deus.
Não em nome de Deus, mas por causa da crença em Deus.
Mas ao mesmo tempo há razões por detrás delas [religiões]. E essas razões são a luta constante pela dominação, pela expansão, além do medo constante daquilo que é diferente. Medo e desprezo pelo que é diferente. Você acredita que, sem a religião, essas lutas acabariam?
Não. Vou dar um exemplo. O cristianismo copiou o judaísmo. E o islamismo copiou o cristianismo e o judaísmo. São plágios, mas o monoteísmo é original. É a suposta aliança entre Deus e o povo judaico. Segundo os judeus, Deus os mandou rezar toda manhã, e os homens têm de dizer: “Graças a Deus que não sou mulher”. E as mulheres dizem: “Graças a Deus, eu sou o que sou”. E ambos devem agradecer por não serem gentios ou escravos. Mas isso não foi criado por Deus, mas pelos homens. Pelos "homens", para ser exato, do sexo masculino. Assim eles mantinham as mulheres em seus lugares. Assim é fácil. Só um idiota não vê isso. Deus não decidiu isso. Os homens usaram a religião para controlar as mulheres. No entanto, o impulso por controlar as mulheres existiria mesmo que não acreditassem em Deus. Só que seria mais difícil convencer as meninas de que elas eram propriedade dos homens se não dissessem que esse era o desejo de Deus. Dizendo que era o desejo dos homens, elas não ficariam surpresas. Dizendo que era a vontade de Deus, elas poderiam aceitar, como a exemplo da existência de escravos. Deus quer que haja escravos. É diferente de os homens quererem possuir outras pessoas. Então, com o uso da religião, com a invenção da divindade, você pode disfarçar o que obviamente seria uma ditadura débil e hipócrita criada pelo homem. Então livrar-se da ideia do sobrenatural é um passo – apenas um, mas o mais importante –, talvez o primeiro passo, talvez o maior passo no caminho para a emancipação.
Até ler o seu livro, eu não sabia quantas criaturas divinas tinham nascido de virgens como a Maria. Você diz Buda, Krishma, Perseu, Hórus, Mercúrio...
Deus civilizados. Eu não conheço nenhum deus na mitologia -- escrevi um parágrafo sobre isso -- que não tenha nascido de uma virgem. Seria impossível o cristianismo vender a sua religião se não tivesse dado continuidade a essa tradição egípcia, asteca, persa, mongol. Até Buda nasceu de um corte no corpo de sua mãe. Tudo, menos pelo canal vaginal. Uma via impura. Deus, por alguma razão, prefere usá-la como uma mão única.
Isso seria o medo eterno do sexo ou a necessidade de criar, para Deus, uma origem diferente do sistema biológica humano?
Com certeza é o medo que a religião tem do sexo. Mas também é a repulsa masculina pelo que o homem mais deseja. Os homens precisam das mulheres e não gosta do fato de que precisam delas. Eles precisam muito delas e odeiam ter de precisar. Eles repugnam essa necessidade. E a religião transformou isso em um sistema e o torna sagrado. Minha primeira mulher era ortodoxa grega. Era cristã oriental. Quando ela menstrua não podia ir à igreja. Não podia receber o sacramento da missa. Acho que isso também valia para as católicas e com certeza para as judias. E a repulsa pelos fluídos menstruais femininos é muito comum no islamismo e em outros cultos. Isso vem da antropologia humana, não vem do céu, dos planetas, não vem do sol ou da lua. Vem de formas muito primitivas da antropologia humana. Isso é a primeira coisa é que preciso saber.
Falemos das três religiões monoteístas. Você mergulhou na leitura das Escrituras, em uma mesma história contada de três maneiras diferentes. Mas não ficou claro para mim como vê os três homens mais conhecidos da humanidade: Moisés, Maomé e Jesus. Fale sobre eles.
Moisés é uma figura mítica que foi inventada muitos séculos após a sua suposta morte. O Torá, a Bíblia judaica, tem aproximadamente quatro autores. O Pentateuco, os primeiros cinco livros do Velho Testamento,
Moisés inventado?
Os estudiosos da Bíblia sugerem pelo menos quatro autores que se contradizem e às vezes se sintetizam. Ninguém, além dos judeus fanáticos, acredita que Moisés foi o autor do Torá ou que Deus a ditou para ele, o que, nesse caso, ele seria autor de segunda mão. Maomé, que também teria escrito o livro de Deus – ditado pelo arcanjo Gabriel – não é um figura tão mítica, tão lendária. Provavelmente ele tenha existido. É bem possível que tenha existido. Ele está nesse limite, entre a existência e a lenda. Jesus de Nazaré está ainda mais nesse limite, como Guilherme Tell, Robin Hood e o Rei Artur. Com certeza, muito do que foi escrito sobre Jesus foi feito, como no caso de Moisés e Maomé, séculos após a sua morte por pessoas que evidentemente não o conheceram, pessoas muito tendenciosas. Mas o esforço que fizeram para tornar isso realidade sugere que houve alguma participação de um personagem histórico. Em todo caso, há o desenho de criar uma história que fortalece uma crença.
Como você descreveria Jesus na época em que viveu?
Na melhor das hipóteses, os seus partidários que escreveram sobre ele não concordam sobre o seu nascimento, sua vida, sua morte e sua suposta ressurreição. Os quatro evangelhos se contradizem sobre isso. Mas suponhamos que eles tenham tentado fazer o melhor possível, havendo concordância em relação à morte horrorosa. Ou não horrorosa. Para mim, a pergunta mais importante é: é legítimo que os cristãos digam “alguém morreu pelos seus pecados” sendo que essa pessoa na verdade não morreu? Imagine uma questão moralmente mais importante: se alguém se joga em cima de uma bomba que explodiria em uma sala de aula e absorve o impacto, morrendo para salvar as outras pessoas, podemos respeitar isso. E se for diferente, E se essa pessoa puder se levantar dois dias depois e disser: “Eu estou ileso”. Isso diminui a admiração que temos pelo sacrifício. O cristianismo tem todas essas questões morais que não foram resolvidas.
Voltando às escrituras, você disse que o Velho Testamento foi um pesadelo, mas o Novo Testamento foi mais cruel.. O que é tem de tão terrível?
O velho Testamento é um pesadelo porque tem o mandado divino oficial da limpeza étnica, como chamamos hoje, a destruição de outros povos. Na verdade, é uma limpeza étnica genocida que destrói até a última criança, dos midianistas, dos amalecitas e outros. Essas raças deveriam desaparecer. Suas terras deveriam ser tomadas. E se houvesse sobreviventes, de preferência moças, elas deveriam ser escravizadas e por aí em diante. Era um mandado divino para tudo isto: escravidão, genocídio, assassinatos de crianças, etc. E roubo, conquista, desapropriações. Imperialismo do pior tipo. Depois que os midianistas, amalecistas e moabitas foram destruídos, pronto, eles não sofreriam mais por não serem judeus ou por não terem uma aliança com Deus. Mas aí eles já estavam mortos e pronto, não havia inferno. Mas, pelo Novo Testamento, eles seriam torturados após a morte, para sempre. Essa ideia tão cruel nasceu com Jesus, que disse pela primeira vez: “Se você não concorda com o que ofereço, saia daqui e vá para o fogo eterno”. Acho essa é a ideia mais cruel já proposta na História, hoje muito pregada pelos assassinos suicidas do Islã. É o ensinamento centro de sua doutrina perversa.
Por outro lado, sua leitura do Corão o fizeram dizer que o Islamismo é ao mesmo tempo é mais interessante e a menos interessante das religiões monoteístas. Falemos do que é o mais interessante no islamismo.
O islã alega ser a culminância. Talvez devemos dizer a “consumação” da “revelações” de Abraão, Moisés, Jesus. Ele não as nega, apenas diz que agora Deus as completará com suas últimas palavras, depois das quais não se precisar questionar mais nada. Sem mais perguntas porque todas já foram respondidas. Só precisamos reconhecer as boas novas e nos ajoelhar diante delas. É uma doutrina muito perigosa, é claro, porque sugere literalmente que a época do questionamento humano chegou ao fim. Que já temos as informações de que precisamos. E nada pode ser pior do que isso. A mensagem do Corão ainda traz, no fundo, uma ameaça indireta: “Se você não concorda, há algo muito errado em você e você precisa entrar na linha”. E as medidas a serem tomadas devem ser muito severas.
Mas isso também é válido para outras religiões monoteístas?
Sim, é verdade. O sr. Ratzinger, Herr Ratzinger, o bávaro que se diz “bispo de Roma”, e cujos partidários, mas não eu, o chamam de “papa”, disse recentemente que a Igreja Católica Romana é a fé verdadeira. É claro que ele não poderia dizer outra coisa. Os ensinamentos da igreja estão aí, e ele quis reafirmá-los porque houve um enfraquecimento da doutrina cristã. Mas isso é dito desde antes do profeta Maomé. Acho que a diferença é que os clérigos muçulmanos dizem: “Nos conhecemos a Bíblia [cristã], mas a nossa vem depois, é a última, é a definitiva”. É mais parecido com o que os cristãos falam sobre os judeus. Ou dizem que eles [judeus] fizeram tudo errado, que mataram Cristo, que são hereges; ou os veem com bons olhos e dizem que agiram bem, que inventaram o monoteísmo e que só precisam entender que o Messias já veio, que precisam mais esperá-lo. Para mim, como ateu, todas as religiões são falsas. Elas são falsas do mesmo modo: preferem a fé à razão.
Há um capítulo muito interessante no seu livro, o mais generoso, eu diria, no qual você faz a pergunta: “As religiões fazem as pessoas se comportarem melhor?” E surpreendentemente você diz sim quando fala de Martin Luther King.
Não, eu digo que não. Lamento.
Eu entendi que você...
O que eu disse é que a luta pelos direitos civis dos afro-americanos, dos negros americanos, estava pronta muito antes de o dr. King nascer e foi criada por ateus, leigos e negros.
Você reconhece o papel importante que ele teve?
Retoricamente, a justificativa para o racismo e a escravidão era cristã, especialmente a cristã. É muito inteligente, retoricamente, poder usar a linguagem do cristianismo dialeticamente, mas não ajuda a provar que o racismo e a escravidão são moralmente condenáveis. Nos termos do Velho e do Novo Testamentos, eram um caso encerrado. É apenas uma grande vitória da propaganda: uma vitória retórica porque a religião nunca fez ninguém se comportar melhor. Mas certamente não poderemos dizer que religião não fez as pessoas agirem pior ou não poderíamos usar a justificativa cristã para a escravidão por mais de 200 anos e a justificativa judaica antes disso. Todas as justificativas para a escravidão são religiosas.
Você pertence a um pequeno e seleto grupo de evolucionista que propõe um Iluminismo renovado, centrado no homem. Pessoas como Richard Dawkins e Daniel Dennett, que se chamam de brights, iluminados.
Vou definir assim: eu não posso dizer que tenho uma luz interna. Se você disser que vê isso em mim, eu fico honrado. Mas eu não posso dizer que você deve me ver assim porque seria arrogante de minha parte. O centro do sistema é o ser humano ou a humanidade. Passamos muito tempo tentando mostrar às pessoas que foi a igreja que nos quis convencer de que o universo todo girava ao nosso redor. Por isso não gostavam do Galileu. Queriam que acreditássemos que o Sol girava em torno da Terra, que o universo todo estava centrado em nosso globo. Nós dizemos às pessoas ao contrário. Nós não estamos nem na periferia distante do universo conhecido. É hora de entendermos como nosso papel nisso tudo é pequeno. Só quando tivermos um senso de proporção é que provavelmente poderemos ver isso de forma racional.
Mas a “luz interior” também é uma definição de Deus. E há outras. Por exemplo, eu peguei do filósofo de esquerda Toni Negri, que não é exatamente um homem religioso. Ele diz que a única definição possível para Deus é o excesso, a superabundância, a alegria.
Nós não usamos a razão o suficiente. Nós negligenciamos nossas faculdades, do raciocínio, questionamento e ceticismo. Nós não a usamos de mais, nos a usamos de menos. Será um grande dia quando isso existir em abundância.
De todo o modo, podemos acreditar que a humanidade está evoluindo em direção a esse esclarecimento?
Não acho que a humanidade esteja evoluindo.
Nem um pouco?
Não. Acho que no momento estamos regredindo. As forças da teocracia crescem muito rápido. E de modo mais confiante. E com mais violência e mais adeptos que as forças da razão. O período do esclarecimento humano pode parecer uma fração de segundo muito breve, muito pequena na evolução humana, entre o ano de 1680 e hoje. E talvez esteja para sofrer uma eclipse.
Muito obrigada sr. Christopher. Foi muito bom conversar com você.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Que fé é esta?

Que fé é esta que prega:
• É proibido se relacionar com pessoas de fora!
• É proibido namorar com pessoas de fora!
• É proibido se casar com alguém de fora!
• Não faça negócios com quem é de fora!
• Não respeite outros que pensem diferente de nós!
• Não respeite os que não têm a nossa fé!
• Afaste-se dos seus irmãos verdadeiros se estes não são da nossa fé!
• Somente os da nossa fé são nossos irmãos!
• Que as mulheres são submissas e dever usar véus ou se cobrir!
• Afaste-se da sua família!
Que fé é esta que ensina os membros a dizer aos outros:
• Nos somos (o único e legitimo) povo de Deus!
• Nos somos humildes (mesmos os que gostam de viver no luxuoso)!
• Nós somos os escolhidos!
• Somente a nossa é a verdadeira fé!
• Somente nós professamos a única fé!
• Somente nós a seguimos de forma correta!
• Somente nós vamos para o céu!
• Vocês são cachorros infiéis!
Que fé é esta, nos dias de hoje, que ensina a seus membros:
• Somente o homem (que foi por ele criado, do barro) deve servir ao Criador!
• A mulher, feita da costela, deve somente servir ao homem (ser subserviente, não pode ser pastora, não pode ter cargos em que mande em homens, não pode dirigir, etc.)!
• Uma mulher não deve conversar mais com homens do que com mulheres (eu já ouvi esta pérola: “aquela gosta de ficar no meio dos homens”)!
Que fé é esta que faz com que um pai?
• Discrimine um filho que não tenha a mesma fé?
• Crie filhas e filhos despreparados para enfrentar as coisas do mundo?
• Trate filhas de forma diferente, ensinando-as a ser submissas, impedindo-as de aprender a sobreviver e a se defender?
• Impeça uma filha de frequentar um curso, que, por segurança tenha que usar calças?
• Impeça uma filha de estudar, sob qualquer alegação?
• Impeça uma filha de dirigir alegando que isto é coisa de homem?
• Expulse sua filha de casa somente porque ela gosta de alguém de fora?
• Abandone esta mesma filha à sua própria sorte?
• Discrimine esta filha, que encontrou um homem de bem, mas que não é da sua igreja?
Que fé é esta, que seus membros fingem não ver, tolera ou acobertem os atos:
• De pedófilos?
• De cônjuges infiéis, traidores e amantes?
• De mulheres que tenham ministérios, e para estas seja proibido cortar e pintar os cabelos?
• Ostentar riqueza e humilhar os que têm menos?
Que educação tem um homem que:
• Não respeita a fé dos outros?
• Ao receber um convidado em sua casa, fica atacando e questionando a fé do mesmo?
• Convida pessoas para uma festa em sua casa, mesmo sabendo que elas não frequentam a sua igreja ou tem fé diferente da sua, e faz um culto religioso?
Lembrar que em nome da Fé, ao longo dos milênios:
• Países foram invadidos, subjulgados e destruídos;
• Se matou, torturou, esquartejou, queimou, humilhou, roubou etc.
• Mulheres foram queimadas, apedrejadas, enterradas vivas, etc.
Não esquecer as Cruzadas;
A Santa Inquisição;
As torres gêmeas, etc.

Meus devaneios não se aplicam a nenhuma igreja, peço desculpas se alguém se sentiu atingido, estou apenas questionando os atos dos homens, que os fazem alegando fé.

Fonte: http://www.paulopes.com.br

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Pálido Ponto Azul - Carl Sagan

palido_ponto_azul

“Devido ao reflexo da luz do sol na nave espacial, a Terra parece estar pousada num raio de luz, como se nosso mundo tivesse um significado especial”. Mas é um acidente de geometria óptica. O sol emite sua radiação eqüitativamente em todas as direções. Se a foto tivesse sido tirada um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde, nenhum raio de sol teria dado mais luz à Terra.
Deste ponto distante de observação, a Terra talvez não apresente nenhum interesse especial. Para nós, no entanto, ela é diferente.
Olhem de novo para aquele ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, todos os que conhecemos de quem ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas.
Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, “superastros”, “líderes supremos”, todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali - num grão de poeira suspenso num raio de sol.
A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na glória do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fração deste ponto. Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes mal distinguíveis de algum outro canto em seus freqüentes conflitos, em sua ânsia de recíproca destruição, em seus ódios ardentes.
Nossas atitudes, nossa pretensa importância, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no universo, tudo é posto em dúvida por este ponto de luz pálida. O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Em nossa obscuridade, no meio de toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos.
A Terra é, até agora, o único mundo conhecido que abriga a vida. Não há nenhum outro lugar, ao menos em futuro próximo, para onde nossa espécie possa migrar. Visitar, sim. Estabelecer-se, ainda não. Goste-se ou não, no momento a Terra é o nosso posto.
Tem-se dito que Astronomia é uma experiência que forma o caráter e ensina humildade.
Talvez não exista melhor comprovação das loucuras da vaidade humana do que esta distante imagem de nosso mundo minúsculo. “Para mim, ela sublinha a responsabilidade de nos relacionarmos mais bondosamente uns com os outros e de preservarmos e amarmos o pálido ponto azul, o único lar que conhecemos.”
Carl Sagan - (de “Um pálido ponto azul”, 1994).

Richard Dawkins: “A evolução de um crente”

“Se vocês dispuserem de um tempo para ver a entrevista que o autor fez à BBC (disponível em YouTube e dividida em três partes), verão um Dawkins politicamente correto assegurando em mais de 5 ocasiões que ele seria incapaz de dizer frases extremas contra os cristãos. Entretanto, é o entrevistador quem lhe recorda que essas mesmas frases, carregadas de intolerância, foram tomadas de seu livro. É patético ver o guru do ateísmo evolucionista reconhecer o extremismo de sua própria cruzada!”

Como Richard Dawkins, eu detesto os templos. Detesto, além disso, todos os intermediários de Deus. Porém, diferentemente dele, também detesto as mesquitas e os imãs, e não só os padres que abusam sexualmente de meninos na Irlanda como a todos os religiosos do Oriente Médio que obrigam as meninas a se casar com barbudos da terceira idade. Detesto, ainda mais, essa Sharia tolerada pelos políticos covardes do Reino Unido. Não nego, durante anos admirei o trabalho de Dawkins e comprei quase todos os seus livros, exceto "The God Delusion", porém deixemos os motivos dessa seleção para mais tarde. Não há nada que afete mais o prestígio de um cientista do que a arrogância. Há meses venho observando os vídeos de Richard Dawkins contra a religião. Em especial, a virulência de seus ataques contra a religião cristã, contra a qual se ira como faria um islamita. Também posso dizer que me surpreendeu sua conferência na Universidade da Califórnia. Nessa palestra, intitulada "Estou ofendido", este oportunista filho de colonialistas no Kênia, comporta-se como um comunista do primeiro mundo ante um público que em Berkeley não podia ser mais liberal.

O vídeo exposto em "YouTube" mostra todo o cinismo e a vaidade de um homem interrompido pelos aplausos ao final de cada frase: "Devemos nos sentir ofendidos quando se diz às crianças que passarão uma vida nos fogos do inferno", diz uma das palavras de ordem dirigidas a uma massa de idiotas hipnotizados pela sapiência do grande predicador. Porque Dawkins, que se considera um ateu puro e duro, quer de qualquer maneira se converter no Martinho Lutero de uma nova bíblia, intitulada "A origem das espécies".

Muitos dos meus amigos (cientistas, alguns deles) são pessoas de fé. Trata-se de seres humanos com alguns princípios morais e uma tolerância que Dawkins não chega a assimilar. São pessoas honestas que amam as festas natalinas porque são parte da cultura na qual cresceram. Muitos (eu, entre os primeiros) admiram a obra de Darwin, um homem fora de época e extremamente modesto, cujas idéias deram coesão à nossa vocação científica em uma Cuba na qual o adorado devia ser Federico Engels, porque o ateísmo ou o agnosticismo de Darwin não se igualavam ao ateísmo fundamentalista que hoje nos quer vender o Sr. Dawkins.

O primeiro Bulldog de Darwin foi Thomas Henry Huxley [1]. Este brilhante intelectual defendeu a teoria da evolução como ninguém fez. Além disso, fez quando fazia falta. Seu primeiro trabalho em defesa da teoria da evolução foi publicado já em novembro de 1859, um mês depois de ter sido publicado "A origem das espécies". Porém, para defender as idéias científicas dista muito de tentar convertê-las em textos sagrados, e a intenção de Dawkins é a de converter Darwin em um novo Profeta, e a sua obra sobre a evolução em "O último testamento" para o século XXI.

Que contraditório: Dawkins foi o único cientista que melhor me convenceu do grande valor utilitário que implica crer em Deus e Deus, ao que parece, segue seu caminho de maneira silente, alheio à existência do evolucionista e seus discursos populistas pelas universidades do planeta. Talvez tenha sido pela importância cotidiana que a religião oferece ao homem mais simples, que Darwin dizia: "tão bela como é a moral do Novo Testamento, que apenas pode-se negar que sua perfeição depende em grande parte da interpretação que nós lhe demos agora às suas metáforas e alegorias".

Pouco importa quem seja o personagem (um minúsculo detalhe no universo da vida), este sempre será prisioneiro de suas próprias palavras. Imaginem quão cativo não serão os cientistas arrogantes. Ao finalizar a cúpula sobre a mudança climática em Copenhague, o senhor Dawkins publicou um editorial em "The Guardian" no qual dizia: "Não importa o que você pense acerca do aquecimento global ou se você pensa que os humanos são os responsáveis por isso eu penso que devemos saudar este notável logro de cooperação internacional". Ou seja, qualquer que sejam suas crenças sobre o Aquecimento Global, lutar contra ele até arruinar a economia mundial é um sacrifício do qual todos devemos nos sentir felizes e orgulhosos.

Quem poderia imaginar? Richard Dawkins: outro crente do culto do carbono!

O disparate me obriga a responder-lhe então de uma forma parecida a como Huxley respondeu ao Arcebispo Willberforce: "Preferiria ser descendente de dois crentes que ser um ateu e temer enfrentar a verdade". Sobretudo, porque há uma grande diferença entre crer em Deus e crer no Aquecimento Global. Deus, qualquer que seja o grau de credibilidade que você lhe outorgue, oferece esperanças, guia moral e conforta milhões de pessoas neste mundo. O Aquecimento Global, pelo contrario, é a religião do castigo eterno, da culpabilidade humana ante a natureza tornada deidade: os humanos somos todos pecadores no novo Culto do Carbono.

Porém, não era este Richard Dawkins, agora crente da falácia do aquecimento global, o mesmo que dizia em suas arrogantes palestras universitárias que os crentes não eram outra coisa senão "cabeças-duras" e "ignorantes"? O ser humano não deve apoiar somente aquilo que é "verdade" graças às evidências? Como pode então Richard Dawkins crer no culto do apocalipse climático quando ele mesmo afirmava que: "Eu não sou bem versado no clima?" Por acaso Phil Jones, Rajendra Pachauri, Michael Mann ou Al Gore, são cientistas que respeitam as evidências?

A cultura científica, como disse Ed Wilson, pode ser definida "como um conhecimento novo verificável, assegurado e distribuído com um crédito justa e meticulosamente dado". Como Dawkins chamaria a cultura do obstáculo editorial, das mentiras e da falta de crédito de todos os cientistas envolvidos e beneficiados por este negócio lucrativo do Aquecimento Global? Como pode o pomposo evolucionista converter-se em apologista de milhares de dados truncados, dos impedimentos editoriais politizados, ou do vergonhoso lucro dos cientistas implicados no IPCC e a Unidade de Investigações Climáticas da Universidade de East Anglia?

Ele mesmo dizia em 2008: "Eu sou bem versado em evolução... e por isso me dá alegria poder tomá-la com os criacionistas". Porém, Dawkins, não é puro criacionismo inventar-se uma teoria "científica" e sustentá-la com dados falsos? Por acaso você não leu os e-mails tornados públicos antes da conferência de Copenhague? Não é uma obrigação científica se informar amplamente antes de opinar sobre um tema científico? Por que Dawkins ignorou então certa literatura no controverso assunto da mudança climática? Por que acreditar então que teria que empreendê-la contra os céticos? Mc Cornmack [2] tinha muita razão quando lembrou-lhes que: "a ciência sem integridade é má religião".

Considerar como um fato destacado de cooperação internacional os esforços inúteis das Nações Unidas para lutar contra o aquecimento global, é o mesmo que apoiar a criação de um governo mundial que ninguém necessita é ignorar que se trata de uma "realidade" envernizada de ciência produzida por cientistas emprenhados de agendas políticas e interesses econômicos. Para consegui-lo, não duvidam sequer em destruir a imagem de outros cientistas que opinam parcialmente o contrário. A ciência não é um templo onde tudo é evidência racional e imparcial, senhor Dawkins? Ao menos isso, me parece ter escutado.

O ódio cego de Dawkins contra os crentes o converteu em um fervoroso crente, ele também. Falar dos horrores das cruzadas religiosas (sem ter em conta os perigos políticos da época), é como desaprovar o presidente Bush em sua cruzada no Afeganistão e votar depois em Barack Hussein Obama. Dawkins esquece que os mais destacados cientistas são os que sempre construíram as armas mais letais. Ou talvez ele acredite, como acreditava Isidor I. Rabi, que as armas atômicas são benéficas para a evolução porque geram mutações genéticas em todas as espécies irradiadas.

Chega assim o momento de mencionar a inquestionável culpabilidade do ser humano na mudança climática. Como se fôssemos uma espécie de Deus onipresente, onipotente e capaz de modificar tudo com nossos atos, Dawkins acredita que somos culpados do que a olhos vistos é um processo natural no qual o sol, as mudanças dinâmicas na atmosfera e a evolução do planeta são os principais protagonistas. Se esse tipo de ciência é a ideologia a que devemos nos submeter para sobreviver como espécies, prefiro a extinção. A ciência do clima é hoje em dia a disciplina mais desonesta que existe e terminará colapsada um dia pela evidência.

Da mesma forma que os fanáticos religiosos são a vergonha da fé, os fanáticos do aquecimento global são a sem-vergonhice da comunidade científica mundial. Entre estes, Dawkins merece uma menção especial, não só por acreditar nela, como pela arrogância que demonstra ao crer somente em um grupo de cientistas. Quanto Dawkins cobra por cada uma de suas conferências? Ganha o mesmo que Al Gore? Mesmo que assim fosse, as frases de desprezo que Dawkins lança nos inúmeros vídeos de YouTube contra seus gentis interlocutores demonstra que seu método científico, como seus disparates políticos, são "algorianos".

Que Deus o perdoe! A ciência climática de Dawkins começa a soar como os discursos litúrgicos da religião muçulmana! Só que no culto do dióxido de carbono são dois os profetas adorados (Al Gore e Hussein Obama), porém a ameaça de morte se somos infiéis é a mesma, o apocalipse com altas temperaturas idem e a promessa de salvação se seguimos os "suras e aleias" de Gore e Pachauri não mudam. Aos infiéis, a mais absoluta intolerância e a estrita proibição a todo indício de liberdade de expressão. Quem critique o novo dogma não poderá encontrar emprego nem nas ciências do espaço.

Voltemos aqui então, às razões que me convenceram a não comprar o livro "The God Delusion". Se vocês dispuserem de um tempo para ver a entrevista que o autor fez à BBC (disponível em YouTube e dividida em três partes), verão um Dawkins politicamente correto assegurando em mais de 5 ocasiões que ele seria incapaz de dizer frases extremas contra os cristãos. Entretanto, é o entrevistador quem lhe recorda que essas mesmas frases, carregadas de intolerância, foram tomadas de seu livro. É patético ver o guru do ateísmo evolucionista reconhecer o extremismo de sua própria cruzada!

Darwin dizia: "Alguns escritores estão, sem dúvida, tão impressionados pelo tamanho do sofrimento do mundo, que duvidam se temos em conta todos os seres sensíveis, e se há mais miséria que felicidade. Em meu conceito, a felicidade decididamente prevalece, mesmo quando isto seja difícil de provar... Se todos os indivíduos de uma espécie tivessem que sofrer habitualmente a um grau extremo, se negariam a propagar sua espécie porém, não temos razões para crer que isto nunca tenha, ou ao menos freqüentemente, ocorrido. Mais ainda: muitas outras considerações nos inclinam a crer que todos os seres sensíveis foram formados para desfrutar, como regra geral, da felicidade".

Não creio equivocar-me ao afirmar que Darwin sempre esteve consciente de que o cérebro humano necessitava da fé. Já velho, ele escrevia: "Outra fonte da convicção na existência de Deus, conectada com a razão e não com os sentimentos, me impressiona por ter muito mais peso. Esta se baseia na extrema dificuldade ou melhor, impossibilidade de conceber este imenso e maravilhoso universo... como resultado de um fato ao acaso ou uma necessidade. Ao refletir me sinto inclinado a ver uma Causa Primeira como uma mente inteligente, de certo modo similar à do homem, e neste caso mereço ser chamado Teísta".

Quando eu estudava comportamento animal pelos livros de Tinbergen, Alcock e Wilson, acreditei entender que as aves não necessitavam da experiência para sobreviver, senão da obediência. Obedecer ao instinto de seus genes e aos repertórios da espécie. Ninguém ensinava ao Gavião do Monte como construir seu ninho e, entretanto, este era quase idêntico em forma e tamanho ao dos outros gaviões da mesma espécie. Então eu me perguntava se a religião não seria parte de nossa própria condição operativa, outro evento biológico de nossos genes e não uma expressão psicológica. Nem todos os homens tinham deuses idênticos mas todos tinham rituais.

Não serão nossas crenças religiosas obedientes repertórios ditados por genes particulares? Não apareceram em nossa existência e evoluíram segundo a espécie foi evoluindo ela mesma? Por que quer então Dawkins, o evolucionista, separar de nossa anatomia o que é na realidade um comportamento biológico e natural? Estou quase certo de que o valor utilitário que as crenças religiosas produzem na busca da felicidade, favoreceram nossa sobrevivência e, portanto, nossa evolução. Por que então aborrece tanto a Dawkins que acreditemos em Deus?

Darwin estava consciente do valor da fé como mecanismo de sobrevivência e embora seu lado agnóstico o chacoalhasse frente à sociedade, sua educação e suas próprias vivências sempre o encheram de dúvidas. Em um de seus últimos textos o grande cientista concluía: "Eu não posso pretender oferecer a mais mínima luz a esses problemas incompreensíveis. O mistério do início das coisas é insolúvel para nós e eu desta vez me sentirei satisfeito em permanecer como Agnóstico. Não há nada mais destacado que a disseminação do ceticismo ou do racionalismo nesta última metade da minha vida".

Dawkins, pelo contrário, nos dizia em Berkeley: "Devemos nos sentir ofendidos quando se diz às crianças que passarão uma vida nos fogos do inferno". Viram o vídeo de abertura criado pelos cientistas do aquecimento global para a conferência do clima em Copenhague? Depois de fazê-lo, seguramente se perguntarão: quão ofendidos deveríamos nos sentir se se diz as crianças que se afogarão em desastres de inundações se não atuarem como crentes do aquecimento global? Essa é o tipo de educação que Richard Dawkins quer para nossos filhos. Essa é a tática de terror utilizada pelos cientistas do clima e nos quais o grande evolucionista deposita sua confiança.

Por isso recomendo a todos os leitores e a todos os meus amigos lerem "A Origem das Espécies" de Charles Darwin. É uma obra maravilhosa e inteligente que todos devemos conhecer e não essa "bíblia" que um arrogante e oportunista britânico quer nos vender como único guia para a salvação. Dawkins se faria um imenso favor voltando ao campo de estudos ao qual dedicou sua vida e abandonado sua guerra contra as crenças de seus semelhantes. Diria como disserem à cantora do Dixie Chicks quando criticou George W. Bush em um de seus concertos: "Cala-te e canta!".

Como corolário, quero agregar uma notícia que não faz muito foi manchete nos tele-jornais de todo o mundo: as brigadas de salvamento norte-americanos no Haiti acabavam de tirar uma anciã de entre as ruínas de sua casa destruída pelo terremoto. Quando lhe perguntaram como havia podido sobreviver sem beber e sem comer sete dias sepultada entre os escombros, a mulher apontou para o céu e disse que rezando, porque ela estava segura de que Deus a ajudaria. Dawkins seguramente nos dirá que essa orações não têm mais efeito que o placebo, porém, a realidade é que seu ateísmo não produz esse tipo de milagres e não teria podido salvá-la.

Por essa simples e única razão, digo: Deus abençoe o placebo da fé!

Notas:

[1] Huxley T. H. Time and Life: Mr. Darwin's "Origin of Species" in Macmillan's Magazine and The Darwinian Hypothesis in The Times.

[2] Mc Cormack P. An open letter to Richard Dawkins: man-made climate change or is science subjective?www.petemccormack.com . 11 pages.

Fonte: http://www.midiasemmascara.org

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O futuro evolutivo do homem - Uma visão biológica do progresso - Richard Dawkins

A evolução é amplamente considerada como uma força progressiva impulsionando inexoravelmente uma melhoria racial que pode ser vista como oferecendo um pouco de esperança tangível para nossa espécie com problemas. Infelizmente este modo de pensar está baseado em dois enganos. Primeiro, não está de forma alguma claro que a evolução é necessariamente progressiva. Segundo, até mesmo quando ela é progressiva, mudança significativa procede em uma escala de tempo muitas ordens de magnitude maiores que a escala de dezenas ou centenas de anos com que os historiadores se sentem confortáveis.  

Nós podemos definir progresso evolutivo seja dentro um modo ‘valor-carregado’ ou em um com valor-neutro — ie, com ou sem embutir noções do que é bom ou ruim. Uma definição com valor-carregado especifica se o fator sendo monitorado, seja tamanho do cérebro, inteligência, habilidade artística, força física ou o que for, é desejável ou indesejável. Se um fator desejável aumenta, isso é progresso. Mas em uma definição de valor-neutro, qualquer mudança conta como progresso contanto que continue em seu curso. Tal definição simplesmente toma três entidades em uma seqüência de tempo — pense nelas como uma série de fósseis ancestrais e chame-as de Antes, Durante e Depois [Early, Middle and Late] — e pergunta se a mudança de Antes para Durante está na mesma direção que a mudança de Durante para Depois. Se a resposta for sim, isso é uma mudança progressiva. Esta definição é valor-neutra porque o fator que nós descobrimos ser "progressivo" pode ser algo que nós consideramos como ruim — digamos, ócio ou estupidez. Neste senso de valor-neutro, uma tendência continuada para um tamanho de cérebro diminuído seria progressiva, da mesma maneira que uma tendência para um tamanho de cérebro aumentado seria. A única coisa que não seria progressiva seria uma reversão da tendência.  

Já foi moda para biólogos acreditar em algo chamado ortogênese. Esta era a teoria de que tendências em evolução constituem uma força motriz e continuam sob seu próprio impulso. Pensava-se que o alce irlandês tinha sido levado à extinção por seus chifres enormes, que por sua vez pensava-se que tinham crescido maiores sob influência de uma força ortogenética. Talvez inicialmente houvesse um pouco de vantagem em chifres maiores e foi assim que a tendência começou. Mas uma vez iniciada, a tendência tinha sua própria inércia interna e, com o passar das gerações, os chifres continuaram crescendo inexoravelmente até que levaram a espécie à extinção.  

Nós pensamos agora que a teoria de ortogênese está errada. Se uma tendência é notada para um tamanho de chifre crescente, isto ocorre porque a seleção natural favorece chifres maiores. Veados individuais com chifres grandes têm mais descendência que veados com chifres de tamanho médio, seja porque eles sobrevivem melhor (improvável) ou atraem fêmeas (provavelmente irrelevante) ou porque eles são melhores em intimidar rivais (provável). Se a tendência parecer persistir por muito tempo no registro fóssil, isto indica que a seleção natural estava impulsionando naquela direção por todo aquele tempo. Metáforas como "força inerente" e "impulso inexorável" não têm nenhuma validez.  

Parece se seguir que não há nenhuma razão geral para esperar que evolução seja progressiva — até mesmo no senso fraco, de valor-neutro. Haverá tempos em que o aumento de tamanho de algum órgão é favorecido e outros tempos quando um tamanho menor o é. Na maior parte do tempo, os indivíduos de tamanho médio serão favorecidos na população e ambos extremos serão penalizados. Durante estas épocas a população exibe estase evolutiva (ie, nenhuma mudança) com respeito ao fator sendo medido. Se nós tivéssemos um registro fóssil completo e procurássemos tendências em alguma dimensão particular, como comprimento de pernas, nós esperaríamos ver períodos de nenhuma mudança alternando-se com continuações espasmódicas ou reversões em direção — como uma biruta ao vento em um tempo tempestuoso.  

É ainda mais intrigante descobrir que às vezes tendências longas e progressivas em uma direção de fato ocorrem. Quando um órgão é usado para intimidação (como os chifres de um veado) ou para atração (como o rabo do pavão), pode ser que o melhor tamanho a possuir — do ponto de vista de intimidação ou atração — sempre é ligeiramente maior que a média na população. Até mesmo quando a média se torna maior, o ótimo sempre é estar um passo à frente. É possível que tal "seleção com ponto-final em movimento" realmente tenha levado o alce irlandês à extinção: ao levar o "ponto ótimo de intimidação" muito à frente do que teria sido o "ponto utilitário ótimo" global. Pavões e pássaros do paraíso machos também parecem ter sido impulsionados, neste caso através da seleção do gostofeminino, para longe do ponto utilitário ótimo de um vôo eficiente e maquinaria de sobrevivência (entretanto eles não foram levados além do precipício rumo à extinção).  

Outra força conduzindo a evolução progressiva é a chamada "corrida braço-a-braço" [arms-race]. Presas evoluem velocidades de corrida mais rápidas do que as de predadores. Por conseguinte predadores têm que evoluir velocidades de corrida ainda mais rápidas, e assim por diante, em uma espiral ascendente. Tal competição provavelmente responde pela engenharia espetacularmente avançada de olhos, orelhas, cérebros, "radares" de morcegos e todos outros armamentos de alta tecnologia que animais exibem. Corridas braço-a-braço são um caso especial de "co-evolução". Co-evolução acontece sempre que o ambiente no qual as criaturas evoluem está em si evoluindo. Do ponto de vista de um antílope, leões fazem parte do ambiente assim como o clima — com a diferença importante de que leões evoluem.  

Progresso virtual

Eu quero sugerir um tipo novo de co-evolução que, acredito, pode ter sido responsável por um dos exemplos mais espetaculares de evolução progressiva: o aumento do cérebro humano. Em algum ponto na evolução de cérebros eles adquiriram a habilidade para simular modelos do mundo externo. Em suas formas avançadas nós chamamos esta habilidade de "imaginação". Pode ser comparada ao software de realidade virtual que roda em alguns computadores. Agora aqui está o ponto que eu quero fazer. O "mundo virtual" interno no qual os animais vivem pode em efeito se tornar uma parte do ambiente, de importância comparável ao clima, vegetação, predadores e assim por diante. Nesse caso, uma espiral co-evolutiva pode decolar, com hardware — especialmente hardware cerebral — evoluindo para se ajustar a melhorias no "ambiente virtual" interno. As mudanças em hardware estimulam então melhorias no ambiente virtual, e a espiral continua.  

É provável que a espiral progressiva avance até mais rapidamente se o ambiente virtual é reunido como um empreendimento compartilhado que envolve muitos indivíduos. E é provável que alcance velocidades alucinantes se puder se acumular progressivamente com as gerações. A linguagem e outros aspectos da cultura humana fornecem um mecanismo por meio do qual tal acumulação pode acontecer. Pode ser que o hardware cerebral co-evoluiu com os mundos virtuais internos que ele cria. Isto pode ser chamado co-evolução de hardware-software. A linguagem poderia ser tanto um veículo desta co-evolução como seu produto de software mais espetacular. Nós não sabemos quase nada de como a linguagem se originou, uma vez que começou a se fossilizar apenas muit

o recentemente na forma da escrita. O hardware tem sido fossilizado há mais tempo — pelo menos a cobertura óssea exterior do cérebro o tem feito. Seu tamanho continuamente crescente, indicando um aumento correspondente no tamanho do próprio cérebro, é a que eu quero me dirigir a seguir.  

É quase certo que o Homo sapiens moderno (que data de apenas aproximadamente 100.000 anos atrás) descende de uma espécie semelhante, o H. erectus, que surgiu primeiro pouco antes de 1.6m de anos atrás. Pensa-se que o H. erectus por sua vez descendeu de alguma forma de Australopithecus. Um possível candidato que viveu aproximadamente 3m anos atrás é o Australopithecus afarensis, representado pela famosa "Lucy". Estas criaturas, que são descritas freqüentemente como macacos que andam eretos, possuíam cérebros quase com o tamanho de um chimpanzé. A Figura 1 na próxima página mostra imagens dos três crânios, em ordem cronológica. Presumivelmente a mudança de Australopithecus para erectus foi gradual. Isto não quer dizer que levou 1.5m anos para se realizar a uma taxa uniforme. Poderia ter acontecido facilmente em paradas e começos. O mesmo se aplica na mudança de erectus para sapiens. Há aproximadamente 300.000 anos atrás, começamos a encontrar fósseis que são chamados "H. sapiens arcaico", pessoas com cérebros-grandes como nós, mas com a parte inferior da testa rústica mais como a do H. erectus.  

Parece, de um modo geral, como se houvesse algumas mudanças progressivas ocorrendo através desta série. Nossa cavidade cerebral tem quase o dobro do tamanho da cavidade do erectus; e a cavidade cerebral do erectus, por sua vez, tem quase o dobro do tamanho da cavidade do Australopithecus afarensis. Esta impressão é ilustrada vividamente na próxima imagem, que foi preparada usando um programa chamado Morph*. 

Para usar o Morph, você fornece a ele uma imagem de início e uma de fim, e diz quais pontos na imagem de início correspondem a quais números de pontos opostos na imagem final. O Morph computa então uma série de intermediários matemáticos entre as duas imagens. As séries podem ser vistas como um filme de cinema na tela do computador, mas para imprimir isto é necessário extrair uma série de quadros — organizados aqui em ordem em uma espiral (figura 2). A espiral inclui duas sucessões concatenadas: Australopithecus para H. erectus e H. erectus para H. sapiens. Convenientemente os dois intervalos de tempo que separam estes três fósseis de referência são aproximadamente os mesmos, aproximadamente 1.5m anos. Os três crânios de referência rotulados constituem os dados fornecidos ao Morph. Todos os outros são os intermediários computados (ignore o H. futuris no momento).  

Gire seu olho pela espiral procurando por tendências. É geralmente verdade que qualquer tendência que você encontre antes do H. erectus continua depois dele. A versão de filme mostra isto muito mais dramaticamente, tanto de forma que é difícil, enquanto você assiste o filme, descobrir alguma descontinuidade enquanto você passa pelo H. erectus. Nós fizemos filmes semelhantes para várias transições evolutivas prováveis na ascendência humana. Freqüentemente, tendências mostram reversões de direção. A continuidade relativamente suave perto do H. erectus é bastante incomum.  

Nós podemos dizer que houve uma tendência longa, progressiva — e por padrões evolutivos muito rápida — durante os últimos 3m anos de evolução do crânio humano. Eu estou falando de progresso no sentido de valor-neutro aqui. Como acontece, qualquer pessoa que pense que tamanho de cérebro aumentado tem valor positivo também pode alegar esta tendência como progresso com valor-carregado. Isto é porque a tendência dominante, fluindo tanto antes quanto depois do H. erectus, é o aumento espetacular do cérebro.  

E sobre o futuro? Podemos extrapolar a tendência do H. erectus através e além do H. sapiens e assim predizer a forma de crânio do H. futuris 3m de anos à frente? Só um ortogeneticista levaria isto a sério; mas, pelo que vale, nós fizemos uma extrapolação com a ajuda do Morph, e está ao término do diagrama em espiral. Ela mostra uma continuação da tendência para aumento da cavidade cerebral; o queixo continua avançando e fica angular em um pequeno ponto de cavanhaque enquanto a própria mandíbula parece muito pequena para mastigar qualquer coisa além de papinha de bebê. Realmente o crânio inteiro é bastante reminiscente ao crânio de um bebê. Foi sugerido há muito tempo que a evolução humana seja um exemplo de "pedomorfose": a retenção de características juvenis na maioridade. O crânio humano adulto se parece mais com o de um chimpanzé bebê que com o de um chimpanzé adulto.  

Não conte com o H. futuris

Há alguma probabilidade de que algo como este hipotético H. futuris de cérebro grande irá evoluir? Eu colocaria muito pouco dinheiro nisto, seja de uma forma ou de outra. Certamente o mero fato de que a inflação de cérebro foi a tendência dominante durante os últimos 3m anos não diz quase nada sobre as tendências prováveis dentro dos próximos 3m. Cérebros continuarão a aumentar apenas se a seleção natural continuar a favorecer indivíduos com cérebros grandes. Isto significa, quando você vai ao cerne disto, se indivíduos com cérebros grandes conseguirem ter em média mais crianças que pessoas com cérebros pequenos.  

Não é irracional assumir que cérebros grandes acompanham inteligência, e que a inteligência em nossos antepassados selvagens era associada com habilidade para sobreviver, habilidade para atrair companheiros ou habilidade para superar os rivais. Não é irracional — mas estas duas cláusulas encontrariam seus críticos. É um artigo de fé apaixonado entre os biólogos e antropólogos "politicamente corretos" de que o tamanho do cérebro não tem nenhuma conexão com a inteligência; que a inteligência não tem nada a ver com genes; e que genes são de qualquer maneira coisas fascistas e detestáveis.  

Deixando isto de lado, problemas com a idéia permanecem. Nos dias em que a maioria dos indivíduos morria jovem, a qualificação principal para reprodução era sobrevivência até a maioridade. Mas em nossa civilização ocidental poucos morrem jovens, a maioria dos adultos escolhem ter menos crianças que são física e economicamente capazes de possuir, e não está de forma alguma claro que as pessoas com famílias maiores são as mais inteligentes. Qualquer pessoa vendo a evolução humana futura da perspectiva da civilização ocidental avançada dificilmente fará predições confiantes sobre o tamanho do cérebro continuar evoluindo.  

Em todo caso, todos estes modos de ver o assunto são extremamente a curto prazo. Fenômenos socialmente importantes como contracepção e educação exercem suas influências sobre a escala de tempo de historiadores humanos, durante décadas e séculos. Tendências evolutivas — pelo menos aquelas que duram o bastante para merecer o título de progressivas — são tão lentas que são totalmente insensíveis aos caprichos de reunião social e tempo histórico. Se nós pudéssemos assumir que algo como nossa civilização científica avançada iria durar 1m, ou até mesmo 100,000 anos, poderia valer a pena pensar nas subcorrentes de pressão da seleção natural nestas condições civilizadas. Mas a probabilidade é que, em 100,000 anos, nós ou teremos revertido ao barbarismo selvagem, ou então a civilização terá avançado além de qualquer reconhecimento — em colônias no espaço exterior, por exemplo. Em qualquer caso é provável que extrapolações evolutivas de condições presentes sejam altamente enganadoras.  

Evolucionistas são normalmente bem modestos sobre predizer o futuro. Nossa espécie é uma particularmente difícil de predizer porque a cultura humana, pelo menos durante os últimos milhares anos e acelerando todo o tempo, muda de mod

os que imitam a mudança evolutiva só que de milhares a centenas de milhares de vezes mais rapidamente. Isto é visto claramente quando nós olhamos para o hardware técnico, as ferramentas. É quase um clichê apontar que o veículo com rodas, o aeroplano e o computador eletrônico, para não dizer nada de exemplos mais frívolos como modas de vestir, evoluem de forma notavelmente reminiscente à evolução biológica. Minhas definições formais de progresso com valor-carregado e valor-neutro, embora projetadas para fósseis, podem ser aplicadas sem modificação para tendências culturais e tecnológicas.  

Comprimentos de saia e cabelo prevalecentes na sociedade ocidental são progressivos — de forma neutra em relação ao valor, porque são muito triviais para ser qualquer outra coisa — para períodos curtos. Vistos na escala de tempo de décadas, os comprimentos comuns aumentam e diminuem como ioiôs. Armas melhoram (para o que elas são projetadas para fazer, o que pode ser de valor positivo ou negativo dependendo de seu ponto de vista) constante e progressivamente, pelo menos em parte para contrabalançar melhorias no armamento de inimigos. Mas principalmente, como qualquer outra tecnologia, elas melhoram porque invenções novas se somam às anteriores e inventores em qualquer época se beneficiam das idéias, esforços e experiência de seus antecessores. Este princípio é mais espetacularmente manifestado pela evolução do computador digital. O falecido Christopher Evans, psicólogo e autor, calculou que se o motor de carro tivesse evoluído tão rápido quanto o computador e sobre o mesmo período de tempo, "Hoje você poderia comprar um Rolls-Royce por 35 centavos, faria três milhões de milhas por galão e ele forneceria bastante força para dirigir o QE2. E se você estivesse interessado em miniaturização, você poderia colocar meia dúzia deles em uma cabeça de alfinete".  

A ciência e a tecnologia que ela inspira podem, é claro, serem usadas para fins negativos. Tendências continuadas em, digamos, aeroplanos ou velocidade de computador são indubitavelmente progressivas em um senso de valor-neutro. Seria fácil de vê-las também como progressivas em vários sentidos de valor-carregado. Mas tal progresso também poderia se mostrar ser carregado com valor profundamente negativo se as tecnologias caírem nas mãos de, digamos, fundamentalistas religiosos inclinados à destruição de seitas rivais que encaram um ponto diferente da bússola para rezar, ou algum hábito igualmente insofrível. Muito pode depender em se as sociedades com a experiência científica e os valores civilizados necessários para desenvolver as tecnologias mantenham controle delas; ou se elas permitirem que se espalhem a sociedades educacional e cientificamente atrasadas que simplesmente têm o dinheiro para comprá-las.  

Os progressos científico e tecnológico são de valor-neutro. Eles são simplesmente muito bons em fazer o que fazem. Se você quiser fazer coisas egoístas, gananciosas, intolerantes e violentas, a tecnologia científica lhe proporcionará sem dúvida o modo mais eficiente de fazê-las. Mas se você quiser fazer bem, resolver os problemas do mundo, progredir no melhor senso de valor-carregado, uma vez mais, não há nenhum meio melhor a esses fins que o modo científico. Para o bem ou mal, espero que o conhecimento científico e a invenção técnica se desenvolva progressivamente durante os próximos 150 anos, e a uma taxa acelerada.

por Richard Dawkins, Economist, 1993, pp 87. original em inglês: The evolutionary future of man

Doze provas da inexistência de Deus - Por Sebastien Faure

Faure_Sebastien_carte_postaleHá duas maneiras de estudar e procurar resolver o problema da existência de Deus.

A primeiro consiste em eliminar a hipótese Deus do campo das conjecturas plausíveis ou necessárias, por meio de uma explicação clara e precisa, isto é, por meio de uma exposição de um sistema positivo do Universo, das suas origens, dos seus desenvolvimentos sucessivos, dos seus fins. Esta exposição inutilizaria a idéia de Deus e destruiria antecipadamente a base metafísica em que se apóiam os teólogos e os filósofos espiritualistas.

A existência em Deus implica necessariamente a escravidão de tudo abaixo dele. Assim se Deus existisse, só haveria um meio de servir a liberdade humana: seria o de deixar de existir.” 

Mikhail Bakunin

Dado, porém, o estado atual dos conhecimentos humanos, em tudo o que tem sido demonstrado ou passa a demonstrar-se, verificado ou verificável, somos forçados a concluir que nos falta esta exposição e que não existe um sistema positivo do Cosmos. Existem, é certo, várias hipóteses engenhosas que não se chocam com o razão; sistemas mais ou menos aceitáveis que se apóiam numa série de investigações, que se baseiam na multiplicidade de observações contínuas e que dão um caráter de probabilidade impressionante. Também se pode afirmar, sem receio de ser desmentido, que esses sistemas, essas hipóteses, suportam vantajosamente as asserções deístas. Mas a falar a verdade, não há, sobre este posto, senão teses que não possuem ainda o valor da exatidão cientifica; – cada um, no fim das contas, tem a liberdade de preferir tal ou qual sistema a um outro que lhes é oposto; e a solução do problema assim apresentado afigura-nos, pelo menos na atualidade, cheio de reservas.

Os adeptos de todas as religiões aproveitam assim as vantagens que lhes oferece o estudo deste problema, bem árduo e bem complexo, não para o resolver por meio de afirmações concretas ou de raciocínios admissíveis, mas tão-somente para perpetuar a dúvida no espírito de seus correligionários, que é, para eles, o ponto de capital importância.

E nesta luta titânica entre o materialismo e o deísmo, luta em que as duas teses opostas se empenham e se reforçam para conseguir o triunfo, os deístas recebem rudes golpes; e, conquanto se encontrem numa postura de vencidos, ainda tem a petulância de se apresentar à multidão ignara como dignos cantores da vitória! Uma prova concludente do seu procedimento baixíssimo encontramo-la na maneira como se exprimem nos jornais da sua devoção; e é com essa comédia que procuram manter, com cajado de pastor, a imensa maioria do rebanho.

Também é isto que desejam ardentemente esses maus pastores.

Apresentação do Problema em Termos Precisos

Todavia, há uma segunda maneira de estudar e de tentar a resolução da inexistência de Deus: consiste em examinar a existência de Deus que as religiões apresentam à adoração dos crentes.

Suponhamos que se nos depara um indivíduo sensato e refletido, que admite a existência de Deus – um Deus que não está envolto em nenhum mistério, um Deus que não se ignora nenhuma particularidade, um Deus que lhe confiou todo o seu pensamento e lhe transmitiu todas as suas confidências, e que nos diz:

– Ele fez isto e aquilo, e ainda isto e aquilo. Ele tem precedido e falado com tal fim e com tal razão. Ele quer tal coisa, mas também quer tal outra coisa. Ele recompensará tais ações, mas punirá tais outras. Ele fez isto e quer aquilo, porque é infinitamente sábio, infinitamente justo, infinitamente poderoso, infinitamente bom!

Ah! Que felicidade! Ora aqui está um Deus que se faz conhecer. Abandona o império do inacessível, dissipa as nuvens que o rodeiam, desce das alturas, conversa com os mortais, expõe-lhes o seu pensamento, revela-lhes a sua vontade e confia a alguns privilegiados a missão de espalharem a sua Doutrina, de propagarem a sua Lei, de a representarem enfim, cá em baixo, com plenos poderes para mandarem no Céu e na Terra.

Este Deus não é, com certeza, o Deus Força, Inteligência, Vontade, Energia, que, como tudo o que é Energia, Vontade, Inteligência, Força, pode ser alternadamente, segundo as circunstancias e, por conseqüência, indiferentemente, bom ou mau, útil ou inútil, justo ou iníquo, misericordioso ou cruel. Este Deus é o Deus em que tudo é perfeição e cuja existência não é nem pode ser compatível – visto que ele é perfeitamente sábio, justo, bom, misericordioso – senão com um estado de coisas criado por ele e no qual se afirmariam a sua infinita justiça, a sua infinita sabedoria, o seu infinito poder, a sua infinita bondade e a sua infinita misericórdia.

Este Deus é o Deus que, por meio de catecismo, nos insuflam no cérebro quando somos crianças; é o Deus vivo e pessoal, em honra do qual se erguem templos, a quem se rezam orações em borda, por quem se fazem sacrifícios estéreis e a quem pretendem representar, na Terra, todos os clérigos, todas as castas sacerdotais.

Este Deus não é o “desconhecido”, essa força enigmática, essa potência impenetrável, essa inteligência incompreensível, essa energia incognoscível, esse princípio misterioso: hipótese, enfim, que no meio da impotência para explicar o “como” e o “porquê” das coisas, o espírito do homem aceita complacente. Este Deus também não é o Deus especulativo dos metafísicos: é o Deus que os seus representantes nos tem descrito abundantemente e luminosamente detalhado. É o Deus das religiões, e como estamos na França, é o Deus dessa religião que a quinze séculos domina o nossa história: a religião católica ou cristã. É o Deus que nego e que vou discutir. É o Deus que estudaremos, se quisermos obter, desta exposição filosófica, algum proveito e algum resultado prático.

Quem é Deus?

Visto que os encarregados de seus negócios no Terno tiveram a amabilidade de no-lo descrever com toda a pompa e luzimento, aproveitemos a fineza e examinemo-lo de perto, detidamente: para discutir uma coisa, é preciso, igualmente, conhecê-la bem.

Com um gesto potente e fecundo, este Deus fez todas as coisas do nada: o ser do não-ser. E, por sua própria vontade, substituiu o movimento pela inércia, a vida universal pela morte universal. É um Deus Criador!

Este Deus é o Deus que, terminada a obra da criação, em vez de volver à inatividade secular, ficando indiferente à coisa criada, ocupa-se de sua obra, interessando-se por ela, intervém nela quando o julga necessário, rege-a, administra-a, governa-a: é um Deus Governador ou Providência.

Este Deus é o Deus arvorado em Tribunal Supremo, obriga, depois da morte, a comparecer à sua presença todos os indivíduos. Uma vez aí, julga-as segundo os atos de suas vidas; pesa, na balança, as suas boas e más ações e pronuncia, em último extremo – sem apelo nem agravo – a sentença que fará do réu, pelos séculos dos séculos, o mais feliz ou o mais desgraçado dos seres: É um Deus Justiceiro ou Magistrado.

Logo, este Deus possui todos os atributos; e não é somente bom: é a Bondade Infinita; não é somente misericordioso: é o Misericórdia Infinita; não é somente poderoso: é o Poder Infinito; não é somente sábio: é a Sabedoria Infinita.

Em conclusão: tal é o Deus que eu nego e que por doze provas diferentes (em rigor bastaria uma só), vou demonstrar a inexistência.

Divisão do Problema

Dividi os meus argumentos em três séries: a primeira trataria particularmente do Deus-Criador e compor-se-á de seis argumentos; o segundo ocupar-se-á do Deus-Governador ou Providência, e contém quatro argumentos; a terceira apresentará o Deus-Justiceiro ou Magistrado, em dois argumentos. Em suma, seis argumentos contra o Deus-Criador, quatro contra o Deus-Governador e dois argumentos contra o Deus-Justiceiro. Estes doze argumentos constituem doze provas da inexistência de Deus.

Com este plano das minhas demonstrações será mais fácil seguir o curso do meu trabalho.

Primeira série de argumentos: contra o Deus criador

1º argumento: O gesto criador é inadmissível

Que se entende por criar?

É tomar materiais diferentes, separados, mas que existem, e, valendo-se de princípios experimentados e aplicando-lhes certas regras conhecidas, aproximá-los, agrupá-los, associá-los, ajustá-los, para fazer qualquer coisa deles?

Não! Isso não é criar. Exemplos: podemos dizer que uma casa foi criada? Não, foi construída; podemos dizer que um móvel foi criado? Não, foi fabricado; podemos dizer que um livro foi criado? Não, foi composto e depois impresso.

Assim, pegar materiais que já existem e fazer qualquer coisa com eles não é criar.

Que é, pois, criar?

Criar… com franqueza, encontro-me indeciso para poder explicar o inexplicável, definir o indefinível. Procurei, contudo, fazer-me compreender.

Criar é tirar qualquer coisa do nada; é, com nada, fazer qualquer coisa do todo; é formar o existente do não-existente.

Ora, eu imagino que é impossível encontrar-se uma única pessoa dotada de razão que conceba e admita que do nada se possa tirar e fazer qualquer coisa. Suponhamos um matemático. Procurai o calculador mais autorizado; colocai-o diante de uma lousa e pedi-lhe que escreva zero sobre zeros. Terminada a operação, solicitai-lhe que os multiplique da forma que entender, que os divida até se cansar, que faça enfim toda a sorte de operações matemáticas, e haveis de ver como ele não extrairá, desta acumulação de zeros, uma única unidade.

Com nada, nada se pode fazer; de nada, nada se obtém. É por isso que o famoso aforismo de Lucrécio ex nihilo nihil é de uma certeza e de uma evidência manifesta. O gesto criador é um gesto impossível de admitir, é um absurdo.

Criar é, pois, uma expressão místico-religiosa, que pode ter algum valor aos olhos das pessoas a que agrada crer naquilo que não compreendem e a quem a fé que se impõe tanto mais quanto menos o percebem. Mas devemos convir que a palavra criar é uma expressão vazia de sentido para todos os homens cultos e sensatos, para quem uma palavra só tem valor quando representa uma realidade ou uma possibilidade.

Conseqüentemente, a hipótese de um ser verdadeiramente criador é uma hipótese que a razão repudia.

O ser criador não existe, não pode existir.

2º argumento: O “puro espírito” não podia determinar o Universo

Aos crentes que, a despeito de todo o raciocínio, se obstinam em admitir a possibilidade da criação, direi que, em todo o caso, é impossível atribuir esta criação ao seu Deus. O Deus deles é puro espírito. Portanto, é inteiramente impossível sustentar-se que o puro espírito, o imaterial, tenha podido determinar o Universo, o Material.

Eis o porquê:

O puro espírito não está separado do universo por uma diferença de grau, de quantidade, mas sim por uma diferença de natureza, de qualidade. De maneira que o puro espírito não é, nem pode ser, uma ampliação do Universo, assim como o Universo não é, nem pode ser, uma redução do puro espírito. Aqui a diferença não é somente uma distinção; é uma oposição: oposição de natureza – essencial, fundamental, irredutível, absoluta.

Entre o puro espírito e o Universo não há somente um fosso mais ou menos largo e profundo, fosso que possa, a rigor, encher-se ou franquear-se. Não. Entre o puro espírito e o Universo há um verdadeiro abismo, duma profundidade e de uma extensão tão imensos, que por colossais que sejam os esforços que se empreguem, não há nada nem ninguém que consiga enchê-lo ou franqueá-lo.

Reportando-me ao meu raciocínio, desafio o filósofo mais sutil, bem como o matemático mais consumado, a estabelecer uma relação, qualquer que ela seja (e, com a mais forte razão, uma relação tão direta quanto estreita, como a que liga a causa ao efeito) entre o puro espírito e o universo.

O puro espírito não suporta nenhuma aliança material. O puro espírito não tem forma nem corpo, nem linha, nem matéria, nem proporções, nem extensão, nem dureza, nem profundidade, nem superfície, nem volume, nem cor, nem som, nem densidade. Ora, no Universo, tudo é forma, corpo, linho, matéria, proporção, extensão, dureza, profundidade, superfície, volume, cor, som, densidade.

Como admitir que isto tenha sido determinado por aquilo? Impossível.

Chegando a este ponto da minha demonstração, a conclusão seguinte:

Vimos que a hipótese de um Deus verdadeiramente criador é inadmissível; que persistindo mesmo na crença desse poder, não pode admitir-se que o Universo, essencialmente material, tenha sido determinado por um puro espírito, essencialmente imaterial.

Mas se os crentes se obstinam em afirmar que foi o seu Deus o criador do Universo, nos impõe-se o dever de lhes fazer esta pergunta: segundo a hipótese Deus, onde se encontrava a Matéria, na sua origem, no seu princípio?

De duas, uma: ou a matéria estava fora de Deus, ou era o próprio Deus (a não ser que lhe queiram dar um terceiro lugar). No primeiro caso, se a matéria estava fora de Deus, Deus não teve necessidade de criá-la, visto que ela já existia; e, se ela coexistia com Deus, estava concomitantemente com ele, do que se depreende que Deus não é o criador.

No segundo caso, se a matéria não estava fora de Deus, encontrava-se no próprio Deus.

E, daqui, tiro a conclusão seguinte:

1º Que Deus não era puro espírito, porque encerrava em si uma partícula de matéria – e que partícula! A totalidade dos mundos materiais!

2º Que Deus, encerrando em si próprio a matéria, não teve a necessidade de criá-la, porque ela já existia. Assim, existindo a matéria, Deus não fez mais do que retirá-la de onde estava; e, neste caso, a criação deixa de ser um ato de verdadeira criação para se reduzir a um ato de exteriorização.

Nos dois casos não existe, pois, criação.

3º argumento: O perfeito não pode produzir o imperfeito

Estou plenamente convencido de que se eu fizer a um religioso a pergunta: “Pode o imperfeito produzir o perfeito?”, ele responderia sem vacilar: – Não, o imperfeito não pode produzir o perfeito!

Pelas mesmas razões, e com a mesma força de exatidão, eu posso afirmar – O perfeito não pode produzir o imperfeito!

Mais: entre o perfeito e o imperfeito não há somente uma diferença de grau, de quantidade, mas uma diferença de qualidade, de natureza, uma oposição essencial, fundamental, irredutível, absoluta.

E mais ainda: entre o perfeito e o imperfeito não há somente um fosso, mais ou menos largo e profundo, mas um abismo tão vasto e tão estonteante, que ninguém o pode franquear ou entulhar. O perfeito é o absoluto, o imperfeito o relativo. Em presença do perfeito que é tudo, o relativo, o contingente não é nada; em presença do perfeito, o relativo não tem valor, não existe. E nem o talento de um matemático e nem o gênio de um filósofo serão capazes de estabelecer uma relação entre o relativo e o absoluto: a fortiori sustentamos a impossibilidade de evidenciar, neste caso, a rigorosa concomitância que deve necessariamente unir a Causa ao Efeito.

É, portanto, impossível que o perfeito haja determinando o imperfeito.

Além disso, há uma relação direta, fatal e até matemática entre uma obra e seu autor: tanto vale a obra quanto vale o autor, tanto vale o autor quanto vale a obra. E pela obra que se conhece o autor, como é pelo fruto que se conhece a árvore.

Se eu examino um texto mal redigido, em que se abundam os erros de ortografa e as frases são mal construídas, o estilo é pobre e frouxo, as idéias raras e banais, e os conhecimentos inexatos, eu sou incapaz de atribuir este péssimo escrito a um burilador de frases, a um dos mestres da literatura.

Se observo um desenho malfeito, em que as linhas estão mal traçadas, violadas as regras do perspectiva e da proporção, jamais me acudirá o pensamento de atribuir este esboço rudimentar a um professor, a um grande mestre, a um grande artista. Bem à menor hesitação direi: isto é obra de um aprendiz, de uma criança, certo de que pela obra se conhece o artista.

Ora, a natureza é bela, o Universo é grandioso. E eu admiro apaixonadamente – tanto o que mais admiro – os esplendores e as magnificências que nos oferecem estes espetáculos incessantes. Mas, por muito entusiasmado que eu seja das belezas naturais, e por grande que seja a homenagem que eu lhes tribute, não me atrevo o afirmar que o Universo é uma obra sem defeitos, irrepreensível, perfeita. E não acredito que haja alguém que me desminta.

Sim, o Universo é uma obra imperfeita.

Conseqüentemente, digo: há sempre, entre uma obra e seu autor, uma relação rigorosa, íntima, matemática. Ora, se o Universo é uma obra imperfeita, o autor desta obra não pode ser senão imperfeito.

Esse silogismo leva-me a admitir a imperfeição de Deus, e por conseqüência a negá-lo.

Mas eu posso ainda raciocinar assim: ou não é Deus o autor do Universo (exprimo desta forma a minha convicção), ou o é, na suposição dos religiosos. Neste caso, sendo o universo uma obra imperfeita, vosso Deus, ó crente, é também imperfeito.

Silogismo ou dilema, a conclusão do raciocínio é esta: o perfeito não pode determinar o imperfeito.

4º argumento: O ser eterno, ativo, necessário, não pode, em nenhum momento, ter estado inativo ou ter estado inútil

Se Deus existe é eterno, ativo e necessário.

Eterno? – É-o por definição. É a sua razão de ser. Não se pode conceber que ele esteja enclausurado nos limites do tempo. Não se pode imaginar como tendo tido começo e venha a ter fim. Não pode haver aparição e desaparição. É de sempre.

Ativo? – É, e não pode deixar de ser. Segundo os religiosos, foi sua atividade que engendrou tudo quanto existe, como foi a sua atividade que se afirmou pelo gesto mais colossal e majestoso que imaginar se pode: a criação dos mundos.

Necessário? – É-o e não pode deixar de ser, visto que sem a sua vontade, nada existiria: ele é o autor de todas as coisas, o ponto inicial de onde saiu tudo, a fonte única e primeira de onde tudo emanou. Bastando-se a si próprio, dependeu de sua vontade que tudo fosse tudo ou que fosse nada.

Ele é, portanto: eterno, ativo e necessário.

Mas eu pretendo e vou demonstrar que se Deus é eterno, ativo e necessário, também deve ser eternamente ativo, e eternamente necessário. E que, por conseqüência, ele não pôde, em nenhum momento, ter sido inativo ou inútil, e que enfim, ele jamais criou.

Negar que Deus seja eternamente ativo equivale o dizer que nem sempre o foi, que chegou a sê-lo, que começou a ser ativo, que antes de o ser não o era. Dizer que foi pela criação que ele manifestou a sua atividade é admitir, ao mesmo tempo, que por milhares e milhares de séculos que antecederam a ação criadora, Deus esteve inativo.

Negar que Deus seja eternamente necessário equivale a admitir que ele nem sempre o foi, que chegou a sê-lo, que começou o ser necessário e que antes de o ser não o era. Dizer que a criação proclama e testemunha a necessidade de Deus equivale a admitir, ao mesmo tempo, que, durante milhares e milhares de séculos, que seguramente precedeu a ação criadora, Deus era inútil.

Deus ocioso e preguiçoso! Deus inútil e supérfluo! Que triste postura para um ser essencialmente necessário.

É preciso, pois, confessar que Deus é de todo o tempo ativo e de todo o tempo necessário.

Mas então Deus não pôde criar, porque a idéia de criação implica, de maneira absoluta, a idéia de começo, de origem. Uma coisa que começou é porque nem sempre existiu. Existiu necessariamente num tempo em que, antes de o ser, não o era. E, curto ou longo, este tempo foi que precedeu a coisa criada; é impossível suprimi-lo, visto que, de todos os modos, ele existe.

Assim, temos de concluir:

a) Ou Deus foi eternamente ativo e eternamente necessário, e só chegou a sê-lo por causa da criação (e, se é assim, antes da criação faltavam a este Deus dois atributos: a atividade e a necessidade; este Deus era um Deus incompleto; era só um pedaço de Deus e mais nada, que teve necessidade de criar para chegar a ser ativo e necessário, e completar-se).

b) Ou Deus é eternamente ativo e eternamente necessário, e neste caso tem criado eternamente. A criação é eterna, e o Universo jamais começou – existiu em todos os tempos, é eterno como Deus, é o próprio Deus, com o qual se confunde. E, sendo assim, o Universo não teve princípio – não foi criado.

Em conclusão: No primeiro caso, Deus antes da criação não era ativo nem era necessário: era um Deus incompleto, quer dizer, imperfeito, e, portanto, não existia. No segundo caso, sendo Deus eternamente ativo e eternamente necessário, não pôde chegar a sê-lo, como não pôde criar.

É impossível sair daqui.

5º argumento: O ser imutável não criou

Se Deus existe, é imutável, não se desfigura e nem se pode desfigurar. Enquanto que, na natureza, tudo se modifica, se metamorfoseia, se transforma; que nada é definitivo, mas que chega a sê-lo Deus, ponto fixo, imóvel no tempo e no espaço, não está sujeito a nenhuma modificação, não se transforma, nem pode transformar-se. É hoje o que era ontem, será amanhã o que é hoje. E tanto faz procurá-lo nos séculos passados, como nos séculos futuros: ele é, e será constantemente idêntico em si. Deus é imutável.

No entanto, eu sustento que, se ele criou, não é imutável, porque, neste caso, transmudou-se duas vezes.

Determinar-se a querer é mudar de posição. Ora, é evidente que há mudança entre o ser que quer uma coisa e o que, querendo-a, a põe em execução.

Se eu desejo e quero o que eu não desejava e nem queria a quarenta e oito horas, é porque se produziu em mim, ou a minha volta, uma ou várias circunstâncias que me levaram a querê-lo. Este novo desejo ou querer constitui uma modificação que não se pode por em dúvida, que é indiscutível.

Paralelamente: agir, ou determinar-se a agir, é modificar-se.

Esta dupla modificação – querer e agir – é tanto mais considerável e saliente quando é certo que se trata de uma resolução grave, de uma ação importante.

Deus criou, dizeis vós, crentes. Então modificou-se duas vezes: a primeiro, quando se determinou a criar; a segunda, quando resolveu por em prática sua determinação, completando o gesto criador.

Se ele se modificou duas vezes, não é imutável. E, se não é imutável, não é Deus – não existe.

O ser imutável não criou.

6º argumento: Deus não criou sem motivo; mas é impossível encontrar um único motivo que o levasse a criar

De qualquer forma que se pretende examiná-la, a criação é inexplicável, enigmática, falha de sentido.

Há uma coisa que salta à vista de todos: se Deus criou, como vós dizeis, não pôde ter realizado este ato grandioso – cujas conseqüências deviam ser, fatalmente, proporcionais ao próprio ato, e por conseguinte incalculáveis – sem que fossem determinado por uma razão de primeiro ordem.

Pois muito bem. Qual foi esta razão? Porque motivo tomou Deus a resolução de criar? Que móbil o impulsionaria a isto? Que desejo germinaria em seu cérebro? Qual seria o seu intuito? Que idéia o perseguiria? Que fim perseguiria ele?

Multiplicais, nesta ordem de idéias, as perguntas; gravito, conforme quiserdes, em torno deste problema; examinai-o em todos os seus aspectos e em todos os sentidos, e eu desafio seja quem for a que o resolve em outro sentido que não seja o das incoerências.

Por exemplo: Eis uma criança educada na religião cristã. O seu catecismo afirmou-lhe, e os seus mestres confirmam, que foi Deus que a criou e a colocou no mundo. Suponhamos que a criança faz a si própria a pergunta: porque é que Deus me criou e me lançou no mundo?, e que quer obter uma resposta judiciosa, racional. Nunca obterá.

Suponhamos ainda que a criança, confiando na experiência e no saber de seus educadores, persuadida do caráter sagrado de que eles – padres ou pastores – estão revestidos, possuindo luzes especiais e graças particulares; convencido de que, pela sua santidade, estão mais próximos de Deus e, portanto, melhores iniciados que elas nas verdades reveladas; suponhamos que esta criança tem a curiosidade de perguntar aos seus mestres por que e para que Deus a criou e a pôs no mundo, e eu afirmo que os mestres são incapazes de contestar a essa simples interrogação com uma resposta plausível, sensata. Não lhe poderão dar, porque, em verdade, ela não existe.

Mas, rodeemos bem a questão e aprofundemos o problema. Com o pensamento, examinaremos Deus antes da criação. Tomemo-lo mesmo no seu sentido absoluto.

Está completamente só; bastando-se a si próprio. E perfeitamente sábio, perfeitamente feliz, perfeitamente poderoso. Ninguém lhe pode acrescentar sabedoria, ninguém lhe pode aumentar a felicidade, ninguém lhe pode fortificar o poderio.

Este Deus não experimenta nenhum desejo, visto que a sua felicidade é infinita. Não pode perseguir nenhum fim, visto que nada falta à sua perfeição. Não pode ter nenhum intuito, visto que nada falta ao seu poder. Não pode determinar-se a fazer seja o que for, visto que não tem nenhuma necessidade.

Eia! Filósofos profundos, pensadores sutis, teólogos prestigiosos, respondei a esta criança que vos interroga e dizei-lhe por que é que Deus a criou e lançou no mundo!

Eu estou tranqüilo. Vós não lhe podeis responder, a não ser que lhe digais: “Os mistérios de Deus são impenetráveis”! – e aceitais esta resposta como suficiente. E fareis bem, abstendo-vos de lhes dar outra resposta, porque esta outra resposta – previno-vos caritativamente – cava a ruína de vosso sistema e o derribamento de vosso Deus. A conclusão impõe-se, lógica, impiedosa: Deus, se criou, criou sem motivos, sem saber por que, sem ideal.

Sabeis onde nos conduzem as conseqüências de tal conclusão? Vamos vê-las.

O que diferencia os atos de um homem dotado de razão dos atos de um louco, o que determina que um seja responsável e o outro irresponsável, é que um homem dotado de razão sabe sempre – ou pode chegar o sabê-lo – quando procede, quais são os móbiles que o impulsionam, quais são os motivos que o levam a praticar aquilo que pensava. Quando se trata de uma ação importante, cujas conseqüências podem hipotecar gravemente as suas responsabilidades, é preciso que o homem entre na posse de sua razão, se concentre, se entregue a um sério exame de consciência, persistente e imparcial, exame que, pelas suas recordações, reconstitua o quadro dos acontecimentos de que ele foi agente. Em resumo, é preciso que ele procure reviver as horas passadas para que possa discernir quais foram as causas e o mecanismo dos movimentos que o determinaram a obrar. Freqüentemente, não pode vangloriar-se das causas que o impulsionaram, e que, amiúde, o levam a corar de vergonha. Mas, quaisquer que sejam os motivos, nobres ou vis, generosos ou grosseiros, ele chega sempre o descobri-los.

Um louco, pelo contrário, precede sem saber por que; e, uma vez realizado o ato, por grandes que sejam as responsabilidades que dele possam deriva-se, interrogai-o, encerrai-o, se quiserdes, numa prisão, e apertai-o com perguntas: o pobre demente não vos balbuciará senão coisas vagas, verdadeiras incoerências.

Portanto, o que diferencia os atos de um homem sensato de um homem insensato, é que os atos dos primeiros podem explicar-se, tem uma razão de ser, distinguem-se neles a causa e o efeito, a origem e o fim, enquanto que os atos do segundo não se podem explicar, porque um louco é incapaz de discernir a causa e o que o levam a realizá-los.

Pois bem! Se Deus criou sem motivo, sem fim, procedeu como um louco. E, neste caso, a criação aparece-nos como um ato de demência.

Duas objeções capitais

Para terminar com o Deus da criação, parece-me indispensável examinar duas objeções.

Os leitores sabem muito bem, sobre este assunto, abundam objeções. Por isso quando falo em duas objeções, refiro-me a duas objeções capitais clássicas.

Estas duas objeções têm tanto mais importância quanto é certo que, com a beldade da discussão, se podem englobar todas as outras nestas duas.

ª objeção: “Deus escapa-vos!”

Dizem-me:

“O senhor não tem o direito de falar de Deus segundo a forma que o faz. O senhor não nos apresenta senão um Deus caricaturado, sistematicamente reduzido a proporções que seu cérebro abarca. Esse Deus não é nosso Deus. O nosso Deus não o pode o senhor concebê-lo, visto que lhe é superior, escapando por isso à suas faculdades intelectuais. Fique sabendo que o que é fabuloso, gigantesco para o homem mais forte e mais inteligente, é para Deus um simples jogo de crianças. Não se esqueça que a Humanidade não pode mover-se no mesmo plano que a Divindade. Não perca de vista que é tão impossível ao homem compreender a maneira como Deus procede, como os minerais imaginar como vivem os vegetais, como os vegetais conceber o desenvolvimento dos animais, e como os animais saber como vivem e operam os homens.

Deus paira a umas alturas que o senhor é incapaz de atingir ocupa montanhas inacessíveis ao senhor. Qualquer que seja o grau de desenvolvimento de uma inteligência humana; por muito importante que seja o esforço realizado por essa inteligência; seja qual for a persistência deste esforço, jamais poderá elevar-se até Deus. Lembre-se, enfim, que, por muito vasto que seja o cérebro do homem, ele é finito, não podendo, por conseqüência, conceber Deus, que é infinito.

Tenha pois a lealdade e a modéstia de confessar que não lhe é possível compreender nem explicar, não o cabe o direito de negar”.

Eu respondo aos deístas:

Dais-me conselhos de humildade que estou disposto a aceitar. Fazeis me lembrar que sou um simples mortal, o que legitimamente reconheço e não procuro olvidar-me.

Dizeis-me que Deus me ultrapassa e que o desconheço. Seja. Consinto em reconhecê-lo; afirmo mesmo que o finito não pode compreender o infinito, porque é uma verdade tão certa e tão evidente, que não está em meu ânimo fazer-lhe qualquer oposição. Vede, pois, até aqui estamos de acordo, com o que espero, ficareis muito contentes.

Somente, senhores deístas, permiti que, por meu turno, eu vos dê os mesmos conselhos de humildade, para terdes o franqueza de me responder estas perguntas: Vós não sois homens como a mim? A vós, Deus não se depara como para a mim? Esse Deus não vos escapa como a mim? Tereis vós a pretensão de moverdes no mesmo plano da divindade? Tereis igualmente a mania de pensar e a loucura de crer que, de um vôo, podereis chegar às alturas que Deus ocupa? Sereis presunçosos ao extremo de afirmar que o vosso cérebro, o vosso pensamento que é finito, possa compreender o infinito?

Não vos faço a injuria, senhores deístas, de acreditar que sustentais uma extravagância venal. Assim, pois, tende a modéstia e a lealdade de confessar que, se me é impossível compreender e explicar Deus, vós tropeçais no mesmo obstáculo. Tende, enfim, a probidade de reconhecer que, se eu não posso conceber nem explicar Deus, não o podendo, portanto, negar, a vós, como a mim, não vos é permitido concebê-lo e não tendes, por conseqüência, o direito de afirmá-lo.

Não julgueis, no entanto, que, por causa disto, ficamos na mesma situação que antes. Foste vós que, primeiramente, afirmastes a existência de Deus; deveis, pois, ser os primeiros a pôr de parte vossas afirmações. Sonharia eu, alguma vez, com negar a existência de Deus, se vós não tivésseis começado a afirmá-la? E se, quando eu era criança, não me tivessem imposto a necessidade de acreditar nele? E se, quando adulto, não tivesse ouvido afirmações nesse sentido? E se, quando homem, os meus olhos não tivessem constantemente contemplado os templos elevados a esse Deus? Foram as vossas afirmações que provocaram as minhas negações.

Cessai de afirmar que eu cessarei de negar.

2ª objeção: “Não há efeito sem causa”

A segunda objeção parece-nos mais invulnerável. Muitos indivíduos consideram-na ainda sem réplica. Esta objeção provém dos filósofos espiritualistas: Não há efeito sem causa. Ora, o Universo é um efeito; e, como não há efeito sem causa, esta causa é Deus.

O argumento é bem apresentado; parece, mesmo, bem construído e bem carpintejado. O que resto saber é se tudo quanto ele encerra é verdadeiro.

Em boa lógica, este raciocínio chama-se silogismo. Um silogismo é um argumento composto por três proposições: a maior, a menor e a conseqüência, e compreende duas partes: as premissas, constituídas pelas duas primeiras proposições e a conclusão, representada pela terceira. Para que um silogismo seja inatacável, é preciso:

1º que a maior e a menor sejam exatas;

2º que a terceira proposição dimane logicamente as duas primeiras.

Se o silogismo dos filósofos espiritualistas reúne estas duas condições, é irrefutável e nada mais me resta senão aceitá-lo; mas, se lhe falta uma só dessas condições, então o silogismo é nulo, sem valor, e o argumento destrói-se por si mesmo.

A fim de conhecer o seu valor, examinemos as três proposições que o compõe.

1ª proposição (maior): “Não há efeito sem causa”.

Filósofos, tendes razão. Não há efeito sem causa: nada mais exato. Não há, não pode haver, efeito sem causa. O efeito não é mais do que a continuação, o prolongamento, o limite da causa. Quem diz efeito diz causa. A idéia de efeito provoca, necessariamente e imediatamente a idéia de causa. Se, ao contrário, se concebe um efeito sem causa, isto seria o efeito do nada, o que equivaleria a crer no absurdo.

Sobre esta primeira proposição, estamos, pois, de acordo.

2ª proposição (menor): “Ora, o Universo é um efeito”.

Antes de continuar, peço explicações:

Sobre o que se apóia esta afirmação tão franca e tão categórica? Qual o fenômeno, ou conjunto de fenômenos, na qual a verificação, ou conjunto de verificações, que permitem uma afirmação tão rotunda?

Em primeiro lugar, comecemos suficientemente o Universo? Temo-lo estudado profundamente, temo-lo examinado, investigado, compreendido, para que nos seja permitido fazer afirmações desta natureza? Temos penetrado nas suas entranhas e explorado os seus espaços incomensuráveis? Já descemos a profundeza do oceano? Conhecemos todos os domínios do Universo? O Universo já nos declarou todos os seus segredos? Já lhe arrancamos todos os véus, penetramos todos os seus mistérios, descobrimos todos os seus enigmas? Já vimos tudo, apalpamos tudo, sentimos tudo, entendemos tudo, observamos tudo, afrontamos tudo? Não temos nada mais que aprender? Não nos resta nada mais que descobrir? Em resumo, estamos em condições de fazer uma apreciação formal do Universo?

Supomos que ninguém ousará responder afirmativamente a todas estas questões; e seria digno de lástima todo aquele que tivesse a tenebridade e a insensatez de afirmar que conhece o Universo.

O Universo! – quer dizer não somente este ínfimo planeta que habitamos e sobre o qual se arrastam as nossas carcaças; não somente os milhões de astros que conhecemos e que fazem parte do nosso sistema solar, ou que descobrimos com o decorrer dos tempos, mas ainda, esses mundos, aos quais, com conjectura, conhecemos a existência, mas cuja distancia e o número restam incalculáveis!

Se eu dissesse “o universo é uma causa”, tenho a certeza que desencadeariam imediatamente contra mim as vaias e os protestos de todos os religiosos; e, todavia, a minha afirmação não era mais descabelada que a deles. Eis tudo.

Se me inclino sobre o Universo, se o observo quanto me permitir o homem contemporâneo, os conhecimentos adquiridos, verificarei que é um conjunto inacreditavelmente complexo e denso, uma confusão impenetrável e colossal de causas e de efeitos que se determinam, se encadeiam, se sucedem, se repetem e se interpenetram. Observarei que o todo leva uma cadeia sem fim, cujos elos estão indissoluvelmente ligados.

Certificar-me-ei de que cada um destes elos é, por sua vez, causa e efeito: efeito da causa que o determinou, causa do efeito que se lhe segue.

Quem poderá dizer: “Eis aqui o primeiro elo – o elo causa”? Quem poderá afirmar: “Eis o último elo – elo efeito”? E quem poderá ainda dizer: “Há necessariamente uma causa número um e um efeito número… último”?

À segunda proposição, “ora, o Universo é um efeito”, falta-lhe uma condição indispensável: a exatidão. Por conseqüência, o famoso silogismo não vale nada.

Acrescento mesmo que, no caso em que esta segunda proposição fosse exata, faltaria estabelecer, para que a conclusão fosse aceitável, se o Universo é o próprio efeito de uma Causa única, de uma Causa primeira, da Causa das Causas, de uma Causa sem Causa, da Causa eterna.

Espero, sem me inquietar, esta demonstração, porque é uma demonstração que se tem desejado muitas vezes, sem que ninguém no-la desse; é também uma demonstração, da qual se pode afirmar, sem receio de desmentido, que jamais poderá se estabelecer de uma forma séria, positiva e científica.

Por último: admitindo que o silogismo fosse irrepreensível, ele poderia voltar-se facilmente contra a tese do Deus-Criador, colocando-se a favor da minha demonstração.

Expliquemos: “não há efeito sem causa!” – Seja! – “o Universo é um efeito!” – De acordo! – “Logo este efeito tem uma causa e é esta causa que chamamos Deus! – Pois seja!

Mas não vos entusiasmeis, deístas; escutai-me, porque ainda não triunfastes.

Se é evidente que não há efeito sem causa, é também rigorosamente exato que não há causa sem efeito. Não há, não pode haver, causa sem efeito. Que diz causa, diz efeito. A idéia de causa implica necessariamente e chama a idéia de efeito. Porque uma causa sem efeito seria uma causa do nada, o que seria tão absurdo quanto o efeito do nada. Que fique, pois, bem entendido: não há causa sem efeito.

Vós, deístas, afirmais, enfim, que o Deus-Causa é eterno. Desta afirmação concluo que o Universo-Efeito é igualmente eterno, visto que a uma causa eterna, corresponde, indubitavelmente, a um efeito eterno. Se pudesse ser de outro modo, quer dizer, se o Universo tivesse começado, durante os milhares e milhares de séculos que, talvez, precederam a criação do Universo, Deus teria sido uma causa sem efeito, o que é impossível; uma causa de nada, o que seria absurdo.

Em conclusão: se Deus é eterno, o Universo também o é: e, se o Universo também é eterno, é porque ele nunca principiou, é que jamais foi criado.

É clara a demonstração?

Segunda série de argumentos: Contra o Deus-governador

7º argumento: O governador nega o criador

São muitíssimos – formam legiões – os indivíduos que, apesar de tudo, se obstinam em crer. Concebo que, a rigor, se possa crer na existência de um criador perfeito, como também concebo que se possa crer na existência de um governador necessário. Mas, o que me parece impossível é que, ao mesmo tempo, se possa crer racionalmente num e noutro, porque estes dois seres perfeitos se excluem categoricamente: afirmar um é negar o outro; proclamar a perfeição do primeiro é confessar a inutilidade do segundo; sustentar a necessidade do segundo é negar a perfeição do primeiro.

Por outras palavras: pode-se crer na perfeição ou na necessidade do outro; mas o que não tem a menor sombra de lógica é crer na perfeição dos dois. É preciso, pois, escolher qualquer deles.

Se o Universo criado por Deus tivesse sido uma obra perfeita; se, no seu conjunto, como nos seus pormenores, esta obra não apresentasse nenhum defeito; se o mecanismo desta criação gigantesca fosse irrepreensível; se a sua perfeição fosse de modo que a ninguém despertasse a menor suspeita de qualquer desarranjo ou de qualquer avaria; se, enfim, a obra fosse digna deste operário genial, deste artista incomparável, desse construtor fantástico a que chamam Deus, a necessidade de um governador nunca se teria sentido.

É que é lógico supor que, uma vez a formidável máquina fosse posta em movimento, nada mais haveria a fazer do que abandoná-la a si própria, visto que os acidentes seriam impossíveis. Não seria preciso este engenheiro, este mecânico, para vigiar a máquina, para a dirigir, para a reparar, para a afinar, enfim. Não, este engenheiro seria inútil, este mecânico não teria razão de ser.

E, neste caso, o Deus-Governador era também inútil. Se o Governador existe, é porque a sua intervenção, a sua vigilância são indispensáveis. A necessidade do Governador é como que um insulto, como um desafio lançado ao Criador; a sua intervenção corrobora o desconhecimento, a incapacidade, a impotência desse criador.

O Deus-Governador nega a perfeição do Deus-Criador.

8º argumento: A multiplicidade dos deuses prova que não existe nenhum deles

O Deus-Governador é, e não pode deixar de ser, poderoso e justo, infinitamente poderoso e infinitamente justo.

Ora, eu afirmo que a multiplicidade das religiões atesta que falta a este Deus poder ou justiça, se não, ambas as coisas.

Não falemos dos deuses mortos, dos cultos abolidos, das religiões esquecidas, que se contam por milhares e milhares. Falemos somente das religiões de nossos dias. Segundo os cálculos mais bem fundados, há, presentemente, oitocentas religiões, que se disputam o império das mil e seiscentas milhões de consciências que povoam o nosso planeta. Ninguém pode duvidar que cada uma destas religiões reclama para si privilégio de que só o seu Deus é que é o verdadeiro, autêntico, o indiscutível, o único, e que todos os outros Deuses são Deuses risíveis, Deuses falsos, Deuses de contrabando e de pacotilha, e que, portanto, é uma obra piedosa combatê-los e pulverizá-los.

A isto, ajunta: Se em vez de oitocentas religiões, não houvesse senão cem ou dez, ou duas, o meu argumento teria o mesmo valor.

Pois bem, afirmo novamente que a multiplicidade destes Deuses atesta que não existe nenhum, certificando, ao mesmo tempo, que Deus não é todo-poderoso nem sumamente justo.

Se fosse poderoso teria podido falar a todos os indivíduos com a mesma facilidade com que falou isoladamente a alguns. Ter-se-ia mostrado, ter-se-ia revelado a todos sem empregar mais esforços do que o que empregou para se apresentar a poucos.

Um homem – qualquer que seja – não pode mostrar-se nem falar senão a um número reduzido de indivíduos: os seus órgãos vocais têm uma persistência que não pode exceder certos limites. Mas Deus… Deus pode falar a todos os indivíduos – por muito grande que seja o número – com a mesma facilidade que falaria a uns poucos. Quando se eleva, a voz de Deus pode e deve perpetuar-se nos quatro pontos cardeais! O verbo divino não conhece distâncias nem obstáculos. Atravessa os oceanos, escala as alturas, franqueia os espaços, sem a menor dificuldade.

E visto que ele quis – é a religião que o afirma – falar com os homens, revelar-se-lhes, confiar-lhes os seus desejos, indicar-lhes a sua vontade, fazer-lhes conhecer a sua lei, bem teria podido fazê-lo a todos e não a um punhado de privilegiados.

Mas Deus não fez assim, visto que uns o negam, outros o ignoram, e outros, enfim, opõe tal Deus a tal outro Deus dos seus concorrentes.

Nestas condições não será mais sensato pensar que ele não falou a ninguém, e que as múltiplas revelações que me atribuem, não são, senão, múltiplas imposturas, ou arma que, se ele falou a uns poucos, é porque era incapaz de falar com todos?

Sendo assim, eu acuso-o de impotência. E se não quiserdes que o acuse de impotência, acuso-o de injustiça. Que pensar, com efeito, de um Deus que se mostra a um reduzido número e que se esconde das outras? Que pensar de um Deus que fala para uns e que, para outros, guarda o mais profundo silêncio?

Não esqueçais que os representantes desse Deus afirmam que ele é o pai de todos: e que todos, qualquer que seja o seu título ou grau, são os filhos bem amados desse Pai que reina lá no céu! Pois, muito bem, que pensais desse pai que, exuberante da ternura para alguns privilegiados, os desperta, revelando-se-lhes evitando-se as angustias da dúvida, arrancando-o das torturas da hesitação, enquanto que, violentamente, condena a maioria de seus filhos aos tormentos da incerteza? Que pensais desse pai que, no meio de seu esplendor de Majestade, se mostra a uma parte de seus filhos, enquanto que, para a outra, fica envolto nas mais profundas trevas? Que pensais desse pai que, exigindo de seus filhos a prática de um culto, com o seu contingente de respeitos e adorações, chama só alguns deles para escutarem a sua palavra de Verdade, enquanto que, com um propósito deliberado, nega aos demais esta distinção, este insigne favor?

Se julgais que este pai é justo e bom, não vos surpreendas com a minha apreciação, que é muito diferente:

A multiplicidade de religiões proclama que a Deus faltou poder ou justiça. Ora, Deus deve ser infinitamente poderoso e infinitamente justo – são os religiosos que o afirmam. E se lhe falta um destes dois atributos – poder ou justiça – não é perfeito: não sendo perfeito, não tem razão de ser, não existe.

A multiplicidade dos Deuses e das religiões demonstra que não existe nenhum deles.

9º argumento: Deus não é infinitamente bom: é o inferno que o prova

O Deus-Governador ou Providência é, deve ser, infinitamente bom, infinitamente misericordioso. Mas a existência do Inferno demonstra-nos que não é assim.

Atentai bem ao meu raciocínio: Deus podia – porque é livre – não nos ter criado; mas criou-nos. Deus podia – porque é todo poderoso – ter-nos criado todos bons; mas criou-nos bons e maus. Deus podia – porque é bom – admitir-nos todos, após a morte, no seu Paraíso, contentando-se, como castigo, com o tempo de sofrimento e atribulações que passamos na Terra. Deus podia, em suma – porque é justo – não admitir em seu Paraíso senão os bons, recusando ali lugar aos perversos; mas, neste caso, deveria destruir totalmente os maus com a morte, e jamais condená-lo aos sofrimentos do Inferno. E isto porque quem pode criar, pode destruir; quem tem poder para dar a vida, também tem o poder para tirá-la, para aniquilá-la.

Vejamos: vós não sois deuses. Vós não sois infinitamente bons, nem infinitamente misericordiosos. Sem vos atribuir qualidades que não possuís, eu tenho a certeza de que, se estivesse em vossas mãos – sem que isso vos exigisse um grande esforço, e sem que, de aí, resultasse para nós algum prejuízo moral ou material – evitar a um ser humano uma lágrima, uma dor, um sofrimento, eu tenho a certeza, repito, que o faríeis imediatamente, sem vacilar nem titubear. E, todavia, vós não sois infinitamente misericordiosos.

Sereis, por acaso, melhores e mais misericordiosos que o Deus dos cristãos?

Porque, enfim, o Inferno existe. A Igreja faz alarde dele: é a horrível visão, com a ajuda da qual semeia o pavor no cérebro das crianças e dos velhos, e entre os pobres de espírito e os medrosos; é o espectro que se estala na cabeceira dos moribundos, na hora em que a morte os arrebata toda a coragem, toda a energia, toda a lucidez.

Pois bem, o Deus dos cristãos, esse Deus que dizem cheio de piedade, de perdão, de indulgência, de bondade e de misericórdia, precipita para todo o sempre, uma parte dos seus filhos, num antro de torturas as mais cruéis, e de suplicias as mais horrendas.

Oh! Como ele é bom! Como ele é misericordioso!

Vós conheceis certamente estas palavras das escrituras: “Muitos serão os chamados, mas poucos os eleitos”. Bem abusos do seu valor, estas palavras significam que o número de salvos será ínfimo, enquanto que o número de condenados há de ser considerável. Esta afirmação é de uma crueldade tão monstruosa que os deístas têm procurado dar-lhe um outro sentido.

Mas pouco importa: o Inferno existe, e é evidente que os condenados – muitos ou poucos – aí sofrerão os mais dolorosos tormentos.

Agora, pergunto eu: a quem podem beneficiar os tormentos dos condenados? Aos eleitos? – Evidente que não. Por definição, os eleitos serão os justos, os virtuosos, os fraternais, os compassivos: e seria absurdo supor que a sua felicidade, já incomparável, pudesse ser aumentada com o espetáculo de seus irmãos torturados. Aos próprios condenados? – também não, porque a igreja afirma que o suplicio desses desgraçados jamais acabará; e que, pelos séculos dos séculos, os seus sofrimentos serão tão horripilantes como no primeiro dia.

Então?… Então, aparte os eleitos e aparte os condenados, não há senão Deus, não pode haver senão ele. É, pois, Deus, quem obtém benefícios aos sofrimentos dos condenados? É, pois, ele, esse pai infinitamente bom, infinitamente misericordioso, que se regozija sadicamente com as dores e que voluntariamente condena os seus filhos?

Ah! Se isto é assim, esse Deus aparece-nos como carrasco mais feroz, como o inquisidor mais implacável que imaginar se pode.

O inferno prova que Deus não é bom nem misericordioso – a existência de um Deus de bondade é incompatível com a existência do inferno.

E de duas uma: ou o inferno não existe, ou Deus não é infinitamente bom.

10º argumento: O problema do mal

É o problema do mal que me fornece material para o meu último argumento contra o Deus-Governador, e, simultaneamente, para o meu primeiro argumento contra o Deus-justiceiro.

Eu não digo que a existência do mal – mal físico e mal moral – seja incompatível com a existência de Deus; o que digo é que é incompatível com o mal a existência de um Deus infinitamente poderoso e infinitamente bom.

O argumento é conhecido, ainda que o não seja senão pelas múltiplas refutações – sempre impotentes – que se lhes tem apresentado. Remontam-no a Epicuro. Tem, portanto, mais de vinte séculos de existência: mas, por velho que seja, conserva ainda todo o seu vigor. Esse argumento é o seguinte:

O mal existe. Todos os seres sensíveis conhecem o sofrimento. Deus, que tudo sabe, não pode ignorá-lo. Pois bem, de duas, uma: Ou Deus quer suprimir o mal e não pode; ou Deus pode suprimir o mal e não quer.

No primeiro caso, Deus pretendia suprimir o mal, porque era bom, porque compartilhava das dores que nos aniquilam, porque participava dos sofrimentos que suportamos. Ah! Se isso dependesse dele! O mal seria suprimido e a felicidade reinaria sobre a Terra…

Mais uma vez Deus é bom, mas não pode suprimir o mal – não é todo poderoso.

No segundo caso, Deus podia suprimir o mal. Bastava que o quisesse para que o mal fosse abolido. Ele é todo poderoso e não quer suprimir o mal; portanto, não é infinitamente bom.

Aqui, Deus é todo poderoso, mas não é bom; acolá, Deus é bom mas não é todo poderoso. Para admitir a existência de Deus, não basta que ele possua uma destas perfeições: poder ou bondade. É indispensável que possua as duas.

Este argumento nunca foi refutado. Entendamo-nos: ao dizer nunca foi refutado quero dizer que, racionalmente, ninguém a pode ainda refutar, embora tenham ensaiado isso muitas vezes. O ensaio de refutação mais conhecido é este:

Vós apresentais em termos errôneos o problema do mal. É um equivoco atirar para cima de Deus toda a responsabilidade. Bem, é certo que o mal existe – é inegável; mas só o homem é responsável por ele. Deus não quis que o homem fosse um autômato, uma máquina, que obedece cega e fatalmente. Ao criá-lo, Deus deu-lhe completa liberdade – fez dele um ser inteiramente livre; e, conforme com essa liberdade, que generosamente lhe outorgou, concedeu-lhe a faculdade de fazer dela, em todas as circunstâncias, o uso que quisesse. E se o homem, em vez de fazer uso nobre e justiceiro deste bem inestimável, faz dele um uso criminoso, porque seria injusto: devemos acusar mais é o homem, o que é razoável.

Eis a clássica objeção. Que é que ela vale? Nada!

Eu explico-me: façamos distinção entre o mal físico e o mal moral. O mal físico é a doença, o sofrimento, o acidente, a velhice, com o seu cortejo de vícios e enfermidades; é a morte, que implica perda de seres que amamos. Há crianças que nascem e que morrem, dias depois de seu nascimento, e cuja vida foi um sofrimento permanente. Há uma enorme multidão de seres humanos para quem a vida não é mais do que uma longa série de dores e aflições: seria preferível que não tivessem nascido. E, na ordem natural, as epidemias, os cataclismos, os incêndios, as secas, as inundações, as tempestades, a fome, constituem uma soma de trágicas fatalidades que originam a dor e a morte.

Quem ousará dizer que o homem é o responsável por este mal físico? Quem não compreende que se Deus criou o Universo, dotando-o com as formidáveis leis que o regem, o mal físico não é senão uma destas fatalidades que resultam de um jogo normal das forças da natureza? Quem não compreende que o autor responsável destas calamidades é, com toda a certeza, quem criou o Universo e quem o governa?

Suponho que, sobre este ponto, não há contestação possível. Deus que governa o Universo, é o responsável pelo mal físico. Esta resposta seria suficiente, e, no entanto, vou continuar.

Eu entendo que o mal moral é tão imputável a Deus quanto o mal físico. Se Deus existe, foi ele que presidiu à organização do mundo físico. Por conseqüência, o homem, vítima do mal moral, como do mal físico, não pode ser responsável por um nem por outro.

Vamos, pois, ver agora na terceira e última série de argumento, o que tenho a dizer sobre o mal moral.

Terceira serie de argumentos: Contra o Deus justiceiro

11º argumento: Irresponsável, o homem não pode ser castigado nem recompensado

Que somos nós? Presidimos às condições de nosso nascimento? Fomos consultados sobre se queríamos nascer? Fomos chamados a traçar o nosso destino? Tivemos, sobre qualquer destas questões, voz ou voto?

Se cada um de nós tivesse voz e voto para escolher, desde o nascimento, a saúde, a força, a beleza, a inteligência, a coragem, a bondade, etc…, seguramente que todos estes benefícios nos teríamos outorgado. Cada um de nós seria, então, em resumo de todas as perfeições, uma espécie de Deus em miniatura.

Mas, afinal, que somos nós? Somos aquilo que queríamos ser? Não, incontestavelmente.

Na hipótese Deus, somos – visto que foi ele que nos criou – aquilo que ele quis que fôssemos. Deus é livre, não podia nos ter criado. Ou podia ter-nos criado menos perversos, porque é bom. Ou, então, podia ter-nos criado virtuosos, bem comportados, excelentes, enchendo-nos de todos os dotes físicos, intelectuais e morais, porque é todo poderoso.

Pela terceira vez: Que somos nós? Somos o que Deus quis que fôssemos, visto que ele criou-nos segundo o seu capricho e o seu gosto.

Se se admite que Deus existe e que foi ele que nos criou, não se pode dar outra resposta a pergunta “quem somos nós?”. Com efeito, foi Deus que nos deu os sentidos, as faculdades de compreensão, a sensibilidade, os meios de perceber, de sentir, de raciocinar, de agir. Ele previu, quis determinar as nossas condições de vida; coordenou as nossas necessidades, os nossos desejos, as nossas paixões, as nossas crenças, as nossas esperanças, os nossos ódios, as nossas ternuras, as nossas aspirações. Toda a máquina humana corresponde àquilo que ele quis. Ele arranjou e concebeu todas as peças do meio em que vivemos, preparando todas as circunstâncias que, a cada momento, dão um assalto a nossa vontade, determinando as nossas ações.

Perante este Deus formidavelmente armado, o homem é, portanto, irresponsável.

O que não está sob a dependência de ninguém é inteiramente livre; o que está um pouco sob dependência de um outro é um pouco escravo, e livre só para a diferença; o que está muito sob a dependência de um outro é muito escravo, e não é livre senão para o resto; enfim, o que esta em absoluto sob a dependência de outro, é totalmente escravo, não gozando de nenhuma liberdade.

Se Deus existe, é nesta última postura – a do escravo – que o homem se encontra em relação a Deus; e sua escravidão é tanto maior quanto maior for o espaço entre o Senhor e ele.

Se Deus existe, só ele é que sabe, pode, quer, só ele é livre. O homem nada sabe, nada pode, nada quer, a sua dependência é completa. Se Deus existe, ele é tudo – o homem, nada.

O homem, submetido a esta escravidão, aniquilado sob a dependência, plena e inteira de Deus, não pode ter nenhuma responsabilidade. E, se o homem é irresponsável, não pode ser julgado. Todo o julgamento implica um castigo ou uma recompensa; mas os atos de um irresponsável, não possuindo nenhum valor moral, estão isentos de qualquer responsabilidade. Os atos de um irresponsável podem ser úteis ou prejudiciais. Moralmente não são bons nem maus, como não são meritórios nem repreensíveis; julgados eqüitativamente, não podem ser recompensados nem castigados.

Portanto, Deus, erigindo-se em justiceiro, castigando e recompensando o homem irresponsável, não é mais do que um usurpador, que se arroga um direito arbitrário, usando dele contra toda a justiça.

Do que fica escrito, concluo:

a) Que a responsabilidade do mal moral é imputável a Deus, como igualmente lhe é imputável a responsabilidade do mal físico;

b) Que Deus é um juiz indigno, porque, sendo o homem irresponsável, não pode ser castigado nem recompensado.

12º argumento: Deus viola as regras fundamentais de equidade

Admitamos por um instante que o homem é responsável, e veremos como, dentro desta hipótese, a justiça divina viola constantemente as regras mais elementares da eqüidade.

Se se admite que a prática de justiça não pode ser exercida sem uma sanção; que o magistrado tem, por mandato, fixá-la; e que há uma regra, segundo o qual o sentimento deve pronunciar-se unanimemente, é evidente que, da mesma forma, tem de haver uma escala de mérito e culpabilidade, assim como uma escala de recompensas e de castigos.

Admitindo este princípio, o magistrado que melhor pratica a justiça é aquele que proporciona o mais exatamente possível a recompensa ao mérito e o castigo a culpabilidade. E o magistrado ideal, impecável, perfeito, seria aquele que estabelece uma relação rigorosamente matemática entre o ato e a sanção.

Eu penso que esta regra elementar de justiça é acerta por todos. Pois bem, Deus, distribuindo o Céu e o Inferno, finge conhecer esta regra e viola-a.

Qualquer que seja o mérito do homem, esse mérito é limitado (como o próprio homem); e, no entanto, a sanção da recompensa não o é: o Céu não tem limites, ainda que não seja senão pelo seu caráter de perpetuidade. Qualquer que seja a culpabilidade do homem, esta culpabilidade é limitada (como o próprio homem); e, no entanto, o castigo não o é: o Inferno o é: o Inferno é ilimitado, ainda que não seja senão pelo seu caráter de perpetuidade.

Há, pois, uma grande desproporção entre o mérito e a recompensa, entre a falta e a punição: o mérito e a falta são limitados, enquanto que a recompensa e o castigo são ilimitados.

Deus viola, pois, as regras fundamentais da equidade.

Finda aqui a minha tese. Resta-me apenas recapitulá-la e concluí-la.

Recapitulação

Prometi uma demonstração terminante, substancial, decisiva, da inexistência de Deus. Creio poder afirmar que cumpri esta promessa.

Não percais de vista que eu não me propus dar-vos um sistema do Universo que tornasse inútil todo o recurso à hipótese de uma Força sobrenatural, de uma Energia ou de uma Potência extramundial, de um Princípio superior ou anterior do Universo. Tive a lealdade, como era o meu dever, de vos dizer com toda a franqueza: apresentado assim, o problema não admite, dentro dos conhecimentos humanos, nenhuma solução definitiva; e que a única atitude que convém aos princípios refletidos e razoáveis é a expectativa.

O Deus que eu quis negar e do qual posso dizer que neguei a possibilidade é o Deus, é o Deus das religiões, o Deus Criador, Governador e Justiceiro, o Deus infinitamente sábio, poderoso, justo e bom, que os padres e os pastores se jactam de representar na Terra e que tentam impor a sua veneração.

Não há, não pode haver, equívoco. E este Deus que é preciso defender dos meus ataques.

Toda a discussão sobre outro terreno – e previno-vos disto, porque é necessário que vos ponhais em guarda contra as insídias do adversário – será apenas uma diversão, e, ainda mais: a prova provada de que o Deus das religiões não pode ser defendido nem justificado.

Provei que Deus, como criador, é inadmissível, imperfeito, inexplicável; estabeleci que Deus, como governador, é inútil, impotente, cruel, odioso, despótico; demonstrei que Deus, como justiceiro, é um magistrado indigno, pois que viola as regras essenciais da mais elementar eqüidade.

Conclusão

Tal é, portanto, o Deus que, desde tempos imemoriais, nos tem ensinado e que ainda hoje se ensina às crianças, tanto nas escolas como nos lares. E que de crimes se tem cometido em nome dele! Que de ódios, guerras, calamidades tem sido furiosamente desencadeados pelos seus representantes! Esse Deus de tanto sofrimento não tem sido a causa! E quantos males provoca ainda hoje!

Há quantos séculos a religião traz a humanidade curvada sob a crença, espojada na superstição, prostrada resignadamente!

Não chegará jamais o dia em que, deixando de crer na justiça eterna, nas suas sentenças imaginárias, nas suas recompensas problemáticas, os seres humanos começam a trabalhar com um ardor infatigável pelo vento de uma justiça imediata, positiva e fraternal sobre a Terra? Não soará jamais a hora em que, desiludidos das consolações e das esperanças falazes que lhes sugere a crença de um paraíso compensador, os seres humanos comecem a fazer do nosso planeta do Éden de abundância, de paz e de liberdade, cujas portas estejam fraternalmente abertas para todos?

Há muito tempo que o contrato social é inspirado num Deus sem justiça, como há muito tempo que ele se inspira numa justiça sem Deus. Há muito tempo que as relações entre os países e os indivíduos dimanam num Deus sem filosofia, como há muito tempo que elas dimanam uma filosofia sem Deus. Há muitos séculos que monarcas, governos, castas, padres, condutores do povo e diretores de consciências, tratam a humanidade como um vil rebanho de cordeiros, para, em último lugar, serem esfolados, devorados, atirados ao matadouro.

Há séculos que os deserdados suportam passivamente a miséria e a servidão, graças ao milagre procedente do Céu e à visão horrorosa do inferno. É preciso acabar com este odioso sortilégio, com esta burla abominável.

Tu, leitor, que me lês, abre os olhos, examina, observa, compreende. O Céu de que te falam sem cessar; o Céu com a ajuda do qual procuram insensibilizar a tua miséria, anestesiar os teus sofrimentos e afogar os gemidos que, apesar de tudo, saem do teu peito, é um Céu irracional, um Céu deserto. Só o seu inferno é que é povoado, que é positivo.

Basta aos lamentos: os lamentos são vãos! Basta de prosternações: as prosternações são estéreis! Basta de preces: as preces são impotentes!

Levanta-te homem! E, direito, altivo, declara guerra implacável a Deus que, a tanto tempo, impõe aos teus irmãos e a ti próprio uma veneração embrutecedora!

Desembaraça-te deste tirano imaginário e sacode o jugo dos indivíduos que pretendem ser os representantes dele na Terra!

Mas, lembra-te bem, que, com este gesto de libertação, não terás cumprido senão uma das tarefas que te incumbe.

Não te esqueças de que de nada servirá quebrar as cadeias que os Deuses imaginários, celestes e eternos, tem forjado contra ti, se não quebrares igualmente as cadeias que, contra ti, tem forjado os Deuses passageiros da Terra.

Estes Deuses giram em torno de ti, procurando envilecer-te e degradar-te. Estes Deuses são homens como tu.

Ricos e governantes, estes Deuses da Terra tem-na povoado de inúmeras vítimas, de tormentos inexplicáveis.

Possam, enfim, um dia, os condenados da Terra insurgirem-se contra os seus verdugos, para fundarem uma Cidade na qual não possa haver destes monstros.

Quando te tiveres emancipado dos Deuses do Céu e da Terra, quando te tiveres desembaraçado dos chefes de cima e dos chefes debaixo, quando tiveres levado à pratica este duplo gesto de libertação, então, mas então somente, ó meu irmão, sairás do Inferno em que te encontras para entrar no Céu que tu realizarás! Deixarás as trevas da tua ignorância, para abraçar as puras claridades da tua inteligência, desperta, já, das influências letárgicas das religiões!

O Autor

Sebastien Faure nasceu no ano de 1858 na França. Criado em uma família burguesa e muito conservadora, recebeu ensino em um estabelecimento religioso. Os dirigentes do colégio, padres jesuítas, detectaram nele inteligência e vocação para seguir o “caminho de Deus”, e, aos dezessete anos entrou no noviciado.

Foi um noviço exemplar. Por dezessete meses se aprofundou numa fé rigorosa e cega. Até que num dia recebeu um telegrama dizendo que seu pai estava gravemente doente. Visitou o seu pai, que disse-lhe que devia deixar a sua vida religiosa para sustentar a família.

Seu pai morreu. Ele voltou a sua vida normal e, com o tempo, foi vendo a farsa em que ele estava acreditando. Se tornou ateu e anarquista, pelo qual lutou por quase toda a sua vida. Faleceu em 1942.