quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Entrevista de Sam Harris a revista Veja - A religião faz mal ao mundo

O filósofo Sam Harris, um dos ateus mais barulhentos dos EUA, diz que só com o fim da fé se poderá erguer uma civilização global.
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Dependendo do ângulo em que é observado, o filósofo americano Sam Harris, de 40 anos, exibe uma des-concertante semelhança fí-sica com o ator Ben Stiller, mas seu trabalho nunca está para comédias. Junto com o biólogo inglês Richard Dawkins, autor de Deus, um Delírio, Sam Harris é um dos mais ativos militantes contra as religiões. Em 2005, nos Estados Unidos, ele lançou O Fim da Fé e ficou mais de trinta semanas na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times. Neste ano, produziu um novo best-seller com críticas à religião. Com 91 páginas, Carta a uma Nação Cristã, já lançado no Brasil pela Companhia das Letras, é um compêndio em defesa do ateísmo. É redigido com uma linguagem tão cortante e argumentos tão implacáveis que, por vezes, roça o panfletário, mas dá seu recado com clareza absoluta. O filósofo bate em cada um dos pilares da fé e conclui: "A religião agrava e exacerba os conflitos humanos muito mais do que o tribalismo, o racismo ou a política". Ele deu a seguinte entrevista:


VejaO movimento dos ateus é forte nos Estados Unidos e na Inglaterra, principalmente. É uma decorrência dos atentados de 11 de setembro de 2001?


Sam_Harris_01Vejo dois motivos simultâneos para essa confluência geográfica: os atentados de 11 de setembro e a escancarada religiosidade do governo de George W. Bush. A conjunção desses dois fatores levou muitas pessoas a se preocupar com o fato de que a fé está agora dos dois lados do balcão. Esse é um jogo altamente perigoso.








VejaPor quê?



Sam_Harris_01A fé é, intrinsecamente, um elemento que, em vez de unir, divide. A única coisa que leva os seres humanos a cooperar uns com os outros de modo desprendido é nossa prontidão para termos nossas crenças e comportamentos modificados pela via do diálogo. A fé interdita o diálogo, faz com que as crenças de uma pessoa se tornem impermeáveis a novos argumentos, novas evidências. A fé até pode ser benigna no nível pessoal. Mas, no plano coletivo, quando se trata de governos capazes de fazer guerras ou desenvolver políticas públicas, a fé é um desastre absoluto.


VejaO senhor acha que o mundo seria melhor sem religião, sem fé, sem crença em Deus?


Sam_Harris_01Seria melhor se não houvesse mentiras. A religião é construída, e num grau notável, sobre mentiras. Não me refiro aos espetáculos de hipocrisia, como quando um pastor evangélico é flagrado com um garoto de programa ou metanfetamina, ou ambos. Refiro-me à falência sistemática da maioria dos crentes em admitir que as alegações básicas para sua fé são profundamente suspeitas. É mamãe dizendo que vovó morreu e foi para o céu, mas mamãe não sabe. A verdade é que mamãe está mentindo, para si própria e para seus filhos, e a maioria de nós encara tal comportamento como se fosse perfeitamente normal. Em vez de ensinarmos as crianças a lidar com o sofrimento e ser felizes apesar da realidade da morte, optamos por alimentar seu poder de se iludir e se enganar.


Veja
É possível conciliar ciência e religião?



Sam_Harris_01A diferença entre ciência e religião é a diferença entre ter bons ou maus motivos para acreditar nas hipóteses sobre o mundo. Se houvesse boas razões para crer que Jesus nasceu de uma virgem ou que voltará à Terra, tais proposições fariam parte de nossa visão racional e científica do mundo. Mas, como não há boas razões para acreditar nisso, quem o faz está em franco conflito com a ciência. É claro que as pessoas sempre acham um modo de mentir para elas mesmas e para os outros. A estratégia, nesse caso, é dizer que tal crença decorre da fé. Com freqüência, ouvimos dizer que não há conflito entre razão e fé. É o mesmo que dizer que não há conflito entre fingir saber e realmente saber. Ou que não há conflito entre auto-engano e honestidade intelectual.


VejaHaverá o dia em que a humanidade deixará de ter fé ou a fé faz parte da natureza humana?




Sam_Harris_01O desejo de compreender o que se passa no mundo é inato, assim como o desejo de ser feliz, de estar cercado por pessoas que amamos ou o desejo de ser mais feliz, mais carinhoso, mais ético no futuro. Mas nada disso nos obriga a mentir para nós mesmos, ou para nossos filhos, a respeito da natureza do universo. É claro que nossa compreensão do universo é incompleta e desconhecemos a extensão exata de nossa ignorância. Não temos como antecipar as maravilhosas descobertas que serão feitas. O que sabemos com absoluta certeza, aqui e agora, é que nem aBíblia nem o Corão trazem nossa melhor compreensão do universo.


VejaMas nem a Bíblia nem o Corão se pretendem um manual científico para entender o mundo?


Sam_Harris_01Esses livros não são sequer um guia sobre moralidade que possamos considerar minimamente adequado, e falo de moralidade porque é um campo em que ambos se consideram exemplares. ABíblia e o Corão, por exemplo, aceitam a escravidão. Qualquer um que os considere guias morais deve ser a favor da escravidão. Não há uma única linha no Novo Testamento que denuncie a iniqüidade da escravidão. São Paulo até aconselha aos escravos que sirvam bem aos seus senhores e sirvam especialmente bem aos seus senhores cristãos. É desnecessário dizer que a Bíblia e o Corão,além de não servir como guias em termos de moralidade, também não são autoridade em física, astronomia ou economia.


VejaQue tipo de impacto seu livro pode ter sobre os leitores religiosos?



Sam_Harris_01Eu ficaria feliz se o livro levasse os leitores a se perguntar por que, em pleno século XXI, ainda aplaudimos pessoas que fingem saber o que elas manifestamente não sabem nem podem saber. Não há uma única pessoa viva que saiba se Jesus era filho de Deus ou se nasceu de uma virgem. Na verdade, não há uma pessoa viva que saiba se o Jesus histórico tinha barba. No entanto, em muitos países é uma necessidade política simular que sabemos coisas sobre Deus, sobre Jesus, sobre a origem divina da Bíblia. Imagino que qualquer pessoa religiosa que leia Carta a uma Nação Cristãcom a cabeça aberta descobrirá que os argumentos usados contra a fé religiosa são absolutamente irrespondíveis. Isso deve ter algum efeito sobre o modo de ver o mundo dos leitores. Eles certamente vão perceber que ser um cristão devotado faz tanto sentido quanto ser um muçulmano devotado, que, por sua vez, é tão lógico quanto ser um adorador de Poseidon, o deus do mar na Grécia antiga. É hora de falarmos sobre a felicidade humana e nossa disponibilidade para experiências espirituais na linguagem da ciência do século XXI, deixando a mitologia para trás.


VejaO Brasil é um país aparentemente tolerante com as diferentes religiões e conhecido pelo sincretismo religioso. Num país assim, é mais fácil ou mais difícil para o ateísmo crescer?


Sam_Harris_01Em certo sentido, deve ser mais fácil. O convívio intenso de crenças inconciliáveis deve levar as pessoas a compreender que tais crenças são produtos de acidentes históricos, são contingenciais, são criadas pelo homem e, portanto, não são o que pregam ser. Judeus e cristãos não podem estar ambos certos porque o núcleo de suas crenças é contraditório. Na verdade, eles estão equivocados sobre muitas coisas, exatamente como estavam antes os adoradores dos deuses egípcios ou gregos. Ou os adoradores de milhares de deuses que morreram durante a longa e escura noite da superstição e da ignorância humana. Em qualquer lugar que os seres humanos façam um esforço honesto para chegar à verdade, nosso discurso transcende o sectarismo religioso. Não há física cristã, álgebra muçulmana. No futuro, não haverá nada como espiritualidade muçulmana ou ética cristã. Se há verdades espirituais ou éticas a ser descobertas, e tenho certeza de que há, elas vão transcender os acidentes culturais e as localizações geográficas. Falando honestamente, esse é o único fundamento sobre o qual podemos erguer uma civilização verdadeiramente global.


Revista Veja                                                                                                                                     Edição 2040 de 26 de dezembro de 2007

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Controle de natalidade

camisinha

A religião católica e os Astecas

Para os europeus em meado do século XV, viajar pelo oceano Atlântico era uma tarefa perigosa, pois para os marinheiros o oceano era cheio de monstros e mistérios. Visto que muito pouco se sabia do oceano Atlântico, muitas histórias fantasiosas foram inventadas no decorrer do tempo. Como que em algumas partes desse mar existiam monstros marinhos (como hydras e grandes peixes) grandes cascatas e o verdadeiro ‘fim do mundo’ onde a água caia sem fim. Os primeiros paises que encarar esse oceano foram Portugal e a Espanha. Cada um deles seguiu seu próprio caminho para o desconhecido.

Portugal “achou” o Brasil, mas mesmo sua colonização agressiva, não foi possível limitar a religiosidade aqui, como se vê hoje, esse emaranhado de religiosidades, uma verdadeira festa de religiões.

A Espanha por sua vez encontrou mais desafios. Encontraram povos que já conheciam suas minas de ouro, que já tinham uma sociedade estruturada economicamente, politicamente e religiosamente. Nesse texto falarei um pouco sobre a colonização (ou exterminação, como preferir) dos povos nativos da América: os Incas, Maias e Astecas. Começarei então pelos Astecas:

No século XVI, os espanhóis organizaram algumas expedições para conquistas de novas terras. A expedição de maior destaque foi a de Hernan Cortez, que conquistou e destruiu o império asteca, na atual região do México.

Os astecas eram considerados o povo mais religioso dessa região. Sua religião era essencialmente astral, isto é, baseada nos astros, e foram absorvendo e criando deuses e rituais, o deus mais importante era Uitzlopochtli, que representava o sol do meio-dia.

O mais interessante foi como Cortez conseguiu conquistar esse império. O imperador asteca, Montezuma e seu povo imaginaram que Cortez e seus homens eram grandes deuses, por isso em vez de lutar e defender seu grande império, Montezuma mandou emissários com presentes para o colonizador Cortez, para assim manter a paz e a harmonia entre seu povo e os deuses. Mas os espanhóis, além de seus cavalos dispunham de outras armas de guerra, desconhecidas para o povo asteca.

Como os espanhóis estavam em menor número, eles procuraram conhecer bem a língua, a cultura daquele povo. Os astecas já conheciam o outro, assim Cortez fez Montezuma mostrar os mapas de seu império para conseguir acesso as lendárias riquezas do império asteca. O confronto entre espanhóis e astecas começou quando o colonizador Cortez teve de voltar em Vera Cruz e deixar as tropas em Tenochtitlán sob o comando de Pedro Álvaro. Em uma festa religiosa regional, Pedro manda fechar as porta do templo central e exterminar todos os nativos ali.

Foram totalmente massacrados, com mais de mil mortos. Mas os nativos conseguiram reagir, sob as ordens de Cuitlahuac, irmão de Montezuma. Enquanto o combate no templo seguia, a cidade também passava por outra crise: as doenças trazidas pelos europeus, como exemplo um surto de varíola que também ajudou os europeus na conquista (Até hoje é debatido se essa doenças trazidas pelos português foram propositais para ajudar na conquista do império Asteca), pois essas doenças eram desconhecidas para os nativos (Os anticorpos dos europeus eram mais avançados que dos nativos) e por isso eles não tinham defesa. No meio desses problemas o irmão do imperador Montezuma morreu.

Cortez com um exército de apenas 650 soldados, 194 mosqueteiros, 84 cavaleiros (Dá pra notar a diferença entre os povos por esses números) e milhares de nativo aliados, começou o ataque a Tenochtitlán. Visto que os guerreiros astecas não se deixaram vencer tão fácil e lutavam bravamente, Cortez invadiu a cidade e envenenou todas as fontes de água. Em 75 dias muitos astecas morreram e passaram fome. Os nobres de destaque foram torturados para assim poderem falar onde estavam os tesouros da cidade.

E diferente de algumas colônias, os espanhóis foram autoritários com a cultura asteca, acabando com todo e qualquer tipo de ritual, pelo fato dos espanhóis se depararem com povos de estruturas sociais complexas fez com que a Igreja percebesse “a dimensão da tarefa de evangelização que agora se exigia dela no Novo Mundo.”. Por isso, foi necessário que os espanhóis primeiramente conquistassem militar e politicamente os povos nativos daquela área para que depois fosse possível a missão evangelizadora da Igreja Católica.

Na Europa, pela segunda metade do século XV ocorreu a reforma protestante, e como os espanhóis não aderiam a reforma, acharam que na colônia espanhola dever-se-ia estabelecer o “cristianismo puro”, isento dos erros do velho continente, restaurando assim a Igreja primitiva, foi até estado na colônia o Concílio de Trento, que marcou a evangelização em toda América, sendo que foram impostas diferentes regras como, a título de exemplo, a liturgia que continuara a ser professada em latim e a restrição do acesso dos fiéis à palavra de deus.

Infelizmente, a violência da colonização espanhola acabou destruindo grande parte dessa rica cultura, a Igreja foi unânime e acabou com toda a religião e caçaram todos aqueles que a praticavam.

Bibliografia:

Caminhos das Civilizacoes Historia Integrada Geral e do Brasil - Jose Geraldo Vinci Moraes

A Igreja Católica na América espanhola colonial - BARNADAS, Josep M

A guerra da imagens e a ocidentalização da América” GRUZINSKI, Serge

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Onde estou eu? - Daniel Dennett

Daniel_Dennett_in_Venice_2006Um texto de Daniel Dennett é um divertido conto que expõe os principais problemas da filosofia da mente. Dennett imagina uma situação na qual, através de uma cirurgia, seria possível separar o cérebro de um ser humano do resto de seu corpo. O cérebro poderia ser mantido numa proveta e o corpo enviado para outro lugar, para executar tarefas perigosas.

Daniel Clement Dennett (Boston, 28 de março de 1942) é um proeminente filósofo estadunidense.
As pesquisas de Dennet se prendem principalmente à filosofia da mente (relacionada à ciência cognitiva) e da biologia. Dennett é ainda um dos mais proeminentes ateus da atualidade.
Para Dennett, os estados interiores de consciência não existem. Em outras palavras, aquilo que ele chama de "teatro cartesiano", isto é, um local no cérebro onde se processaria a consciência, não existe, pois admitir isto seria concordar com uma noção de intencionalidade intrínseca. Para ele a consciência não se dá em uma área especifica do cérebro, como já dito, mas em uma sequência de inputs e outputs que formam uma cadeia por onde a informação se move
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Onde estou eu?

Agora que ganhei meu processo, invocando a lei de liberdade de informação, sinto-me a vontade para revelar, pela primeira vez, um episódio curioso da minha vida que pode ser de interesse não apenas para os pesquisadores da Filosofia da Mente, da Inteligência Artificial e da Neurofisiologia como também para o público em geral.

Há alguns anos atrás fui procurado por agentes do Pentágono que me pediram para realizar uma missão altamente perigosa e secreta. Em colaboração com a NASA e Howard Hughes, o Departamento de Defesa estava gastando bilhões para desenvolver um dispositivo supersônico de túnel subterrâneo, o STUD (Supersonic Tunneling Underground Device). “Este dispositivo deveria cavar um túnel sob a terra, em grande velocidade, e colocar uma ogiva atômica especialmente projetada,” bem em cima do depósito de mísseis soviéticos" como estava escrito numa placa de bronze do Pentágono.

O problema foi que durante um teste preliminar, eles acabaram colocando a ogiva uma milha abaixo de Tulsa, em Oklahoma, e eles queriam que eu fosse até lá para recuperá-la. "Por que eu?", perguntei. Bem, a missão envolvia algumas aplicações pioneiras de pesquisas sobre o cérebro, e eles tinham ouvido falar do meu interesse por cérebros, e, é claro, de minha curiosidade de Fausto, de minha grande coragem e assim por diante. Bem, como poderia eu recusar? A dificuldade que levou o Pentágono a me procurar era que o dispositivo que eles tinham pedido que eu recuperasse era altamente radioativo e poderia apresentar efeitos imprevisíveis. De acordo com instrumentos de controle, alguma característica do dispositivo e sua complexa interação com bolsões de material geológico tinha produzido uma radiação que poderia causar graves danos ao tecido cerebral. Não se achou nenhuma maneira de proteger o cérebro desses raios mortíferos, que aparentemente não causavam nenhum dano a outros órgãos do corpo. Assim, tinha sido decidido que a pessoa a ser mandada para recuperar o dispositivo deveria "separar-se de seu cérebro". Seu cérebro deveria ser mantido num lugar seguro e executar suas funções normais de controle através de ondas de rádio. Eu iria me submeter a uma cirurgia que removeria completamente meu cérebro, que seria então mantido vivo através de um sistema artificial desenvolvido pelo Manned Spacecraft Center de Houston. Todos os fluxos entre inputs e outputs seriam re-estabelecidos por um par de transmissores de rádio micro-miniaturizados, um deles ligado ao cérebro e o outro aos ligamentos nervosos do crânio vazio. Nenhuma informação seria perdida, todas as conexões seriam preservadas. No início, fui um pouco relutante. Será que isto iria realmente funcionar? Os neurocirurgiões de Houston logo me encorajaram: "Pense nisto - eles diziam - como um mero alongamento dos nervos. Se o seu cérebro fosse deslocado cerca de uma polegada no interior de seu crânio, isto não iria alterar ou prejudicar a sua mente. Nós simplesmente vamos tornar os nervos indefinidamente elásticos, através de sua ligação com ondas de rádio".

Eles me mostraram as instalações do laboratório de Houston e eu vi a proveta borbulhante onde meu cérebro seria colocado, seu eu concordasse. Conheci o grande e brilhante grupo de neurologistas, hematologistas, biofísicos e engenheiros elétricos. Após vários dias de discussões e demonstrações, concordei em fazer uma tentativa. Fui submetido a uma enorme série de exames de sangue, mapeamentos cerebrais, experimentos, entrevistas e coisas do gênero. Eles anotaram minha autobiografia nos seus mínimos detalhes, gravaram listas enfadonhas de minhas crenças, esperanças, medos e gostos. Eles até mesmo listaram minhas músicas favoritas e me submeteram a uma série de sessões intensivas de psicanálise.

O dia da cirurgia finalmente chegou e, é claro, eu fui anestesiado e não me lembro nada da operação. Quando eu acordei da anestesia, abri meus olhos, olhei em volta e formulei a inevitável e tradicional pergunta chavão: "Onde estou eu?". A enfermeira sorriu para mim. "Você está em Houston", ela disse, e eu pensei que esta resposta ainda tinha grande chance de ser a verdade, de uma maneira ou de outra. Ela me passou um espelho. Certifiquei-me da existência de pequenas antenas saindo de seus suportes de titânio afixados no meu crânio.

"Acho que a operação foi um sucesso", eu disse. "Quero ir ver meu cérebro". Eles me levaram (eu estava um pouco tonto e cambaleante) por um longo corredor, até chegar ao laboratório de manutenção artificial da vida. Uma salva de palmas partiu do grupo de cientistas que estava reunido, e eu respondi com um gesto que acreditei ser um cumprimento gracioso. Ainda me sentindo tonto, ajudaram-me a chegar até a proveta. Olhei através do vidro. Lá, flutuando em algo que parecia ginger ale[1] estava, inegavelmente, um cérebro humano, embora quase todo recoberto por circuitos elétricos, pequenos tubos de plástico, eletrodos e toda uma parafernália. "Aquele é o meu?", eu perguntei. "Aperte o botão de transmissão de output lá do lado da proveta, e confira você mesmo", disse o diretor do projeto. Movi o botão para "DESLIGA" e imediatamente eu comecei a cair, grogue e enjoado, nos braços dos técnicos até que um deles gentilmente recolocou o botão na posição "LIGA". Enquanto eu recuperava o equilíbrio e a postura, pensei comigo mesmo: "Bem, aqui estou eu sentado numa cadeira dobrável, olhando através de um pedaço de vidro, para o meu próprio cérebro... Mas, um momento - disse para mim mesmo - não deveria eu ter pensado "Aqui estou eu, suspenso num fluído borbulhante, sendo olhado pelos meus próprios olhos?" Tentei elaborar este último pensamento. Tentei projetá-lo para o tanque, oferecendo-o esperançosamente para meu cérebro, mas não consegui fazer isto com qualquer convicção. Tentei novamente. "Aqui estou eu, Daniel Dennett, suspenso num fluido borbulhante, sendo olhado pelos meus próprios olhos". Não, não funcionou. Era ainda mais inquietante e confuso. Sendo um filósofo de firme convicção fisicalista, eu acreditava piamente que meus pensamentos estavam ocorrendo em algum lugar do meu cérebro: contudo, quando eu pensei "Aqui estou eu" onde o pensamento ocorria para mim era aqui, fora da proveta, onde eu, Dennett, estava de pé, olhando para meu cérebro.

Tentei várias vezes pensar em mim mesmo como estando dentro da proveta, mas não deu certo. Tentei treinar-me fazendo alguns exercícios mentais. Pensei comigo mesmo: "O sol está brilhando ", cinco vezes, numa sucessão rápida, cada vez me imaginando num lugar diferente: por ordem, o canto ensolarado do laboratório, depois, o gramado do jardim do hospital, Houston, Marte e Júpiter . Achei que eu tinha pouca dificuldade em fazer meu "lá" saltar por todo o mapa celestial com suas referências adequadas. Eu podia enviar um "lá" num instante, para os mais distantes confins do espaço, e em seguida dirigir o próximo "lá" para o quadrante superior esquerdo de uma sarda do meu braço. Por que eu estava tendo problema com "aqui"? "Aqui em Houston" funcionava bem, e assim era com "aqui no laboratório" e até mesmo com "aqui nesta parte do laboratório", mas "aqui na proveta" sempre parecia uma estranha sentença na minha mente, sem nenhum significado. Tentei fechar meus olhos enquanto pensava nisto. Isto parecia ajudar, mas mesmo assim eu não conseguia afastar esta idéia, exceto talvez por uma fração de segundo. Eu não podia ter certeza. A descoberta de que eu não podia ter certeza era também inquietante. Como poderia eu saber onde era referido por "aqui" quando eu pensava "aqui"? Poderia eu pensar que eu me referia a um lugar quando de fato eu me referia a outro? Eu não via como admitir isto a não ser desfazendo os pequenos limites que separam a intimidade entre uma pessoa e sua própria vida mental - limites que teriam sobrevivido ao massacre de neurocientistas e de filósofos fisicalistas e behavioristas. Talvez eu fosse incorrigível acerca de onde eu me referia quando eu dizia "aqui". Mas nas circunstâncias presentes tudo indicava que havia duas possibilidades: ou eu estava condenado a sistematicamente conceber falsos pensamentos dêiticos [2] pela pura e simples força de hábitos mentais ou a conceber que onde uma pessoa está (e portanto onde seus pensamentos são identificados quando se efetua uma análise semântica) não é necessariamente onde o seu cérebro, ou seja, o estofo físico de sua alma, está. Estonteado por tanta confusão, tentei me orientar usando um estratagema preferido pelos filósofos. Comecei por atribuir nomes às coisas.

"Yorick", disse em voz alta para meu cérebro, "você é o meu cérebro". O resto do meu corpo, sentado nesta cadeira, eu chamarei de "Hamlet". Assim, aqui estamos todos nós: Yorick é meu cérebro, Hamlet é meu corpo, e eu sou Dennett. E então, onde estou eu ? E quando eu penso: "onde estou eu?", onde ocorre tal pensamento? Ele ocorre no meu cérebro, perambulando pela proveta, ou exatamente aqui, entre minhas orelhas, onde ele parece ocorrer? Ou em nenhum lugar? Suas coordenadas temporais não parecem causar problemas, mas ele deve ter também coordenadas espaciais. Comecei a fazer uma lista de alternativas:

1- Aonde vai Hamlet, Dennett vai também - Este princípio foi facilmente refutado recorrendo-se aos já conhecidos experimentos mentais com transplantes de cérebros, tão apreciados pelos filósofos. Se Tom e Dick trocam de cérebro, Tom é a pessoa com o corpo que era de Dick - pode-se perguntar para ele, e ele dirá ser Tom e contará os detalhes mais íntimos da autobiografia de Tom. Era suficientemente claro, então, que meu corpo e eu poderíamos ser bons companheiros, mas não que , da mesma maneira, eu poderia ser separado de meu cérebro. O corolário que emerge tão claramente a partir de experimentos mentais é que numa operação de transplante de cérebro quer-se o doador e não o receptor. É melhor chamar tal operação de transplante de corpo. Esta parece ser a verdade.

2- Onde Yorick vai, Dennet vai também - Esta alternativa não parece ser boa. Como poderia eu estar na proveta e não estar indo para nenhum lugar, quando eu estava fora da proveta, olhando para ela e começando a fazer planos secretos de retornar para o meu quarto para um almoço substancioso? Isto significaria escamotear a questão, mas mesmo assim parecia que com isto se chegava a algo importante. Na procura de algum apoio para minha intuição topei com um argumento legalista que poderia ter sido considerado interessante por Locke.

Suponhamos, eu argumentava comigo mesmo, que eu agora fosse voar para a Califórnia, roubar um banco e ser preso. Em qual estado eu seria processado: na Califórnia, onde o roubo aconteceu, ou no Texas, onde são mantidos os equipamentos especiais que conservam seus cérebros? Seria eu um criminoso do Texas, manipulando, por controle remoto, um cúmplice da mesma espécie na Califórnia? Parecia possível que eu poderia levar vantagem sobre a falta de uma decisão sobre essa questão de jurisdição, embora, talvez este fosse considerado um crime interestadual e portanto federal. De qualquer maneira, suponhamos que eu fosse condenado. Será que o estado da Califórnia se satisfaria em jogar Hamlet na masmorra sabendo que Yorick estava vivendo a boa vida e se banhando luxuriosamente nas águas do Texas? Será que o estado do Texas encarceraria Yorick deixando Hamlet livre para pegar o próximo navio para o Rio de Janeiro? Esta alternativa me era atraente. A não ser no caso de pena capital ou alguma outra punição cruel e pouco habitual, o estado seria obrigado a manter o sistema de manutenção de vida artificial para Yorick, embora eles pudessem removê-lo de Houston para Leavenworth, e a não ser pela humilhação, eu não me incomodaria e me consideraria um homem livre nessas circunstâncias. Se o estado tem interesse em mostrar sua eficácia em prender pessoas em instituições, ele falharia ao tentar me prender colocando Yorick lá. Se isto for verdade, eu sugiro uma terceira alternativa.

3 - Dennett está onde quer que ele pense estar - Generalizando, isto corresponde a seguinte afirmação: num dado tempo uma pessoa tem um ponto de vista e a localização do ponto de vista (que é determinada internamente pelo conteúdo do ponto de vista) é também a localização da pessoa.

Tal proposição também me deixa um pouco perplexo, mas ela me parece um passo na direção correta. O único problema era que ela parecia nos colocar numa situação pouco confiável, do tipo "cara você ganha e coroa você perde" no que diz respeito a localização. Não estivera eu freqüentemente errado acerca de onde eu estava, ou pelo menos freqüentemente incerto? Não se pode ficar perdido? Claro que perder-se geograficamente não é a única maneira de perder-se. Se alguém se perde num bosque esse alguém pode tentar encontrar um caminho, com o consolo de que pelo menos sabia onde estava: estava bem aqui nos arredores conhecidos de seu próprio corpo. Talvez neste caso não fosse necessário fazer um esforço de atenção muito grande. Contudo, há enrascadas muito piores que podemos imaginar, e eu não estaria certo de não estar numa dessas situações neste momento.

Ponto de vista certamente tem a ver com localização pessoal, mas esta é uma noção pouco clara. É óbvio que o conteúdo do ponto de vista de alguém não coincide nem é determinado pelo conteúdo das crenças ou pensamentos dessa pessoa. Por exemplo, o que dizer acerca do ponto de vista de uma pessoa que assiste Cinerama e que grita e se contorce na sua cadeira na medida que o carrinho da montanha russa desliza rapidamente e faz com que ela perca a noção real das distâncias? Terá ela se esquecido que está sã e salva, sentada numa cadeira do auditório? Sobre isto inclino-me a dizer que a pessoa está experienciando uma mudança ilusória de ponto de vista. Em outros casos, minha inclinação para chamar tais mudanças de ilusórias seria menor. Os operadores de laboratórios e de fábricas que manipulam materiais perigosos ao se utilizar de braços e de mãos mecânicas controladas por feedback sofrem uma mudança de ponto de vista que é mais nítida e muito mais acentuada do que qualquer coisa que o Cinerama possa provocar. Eles podem sentir o peso e o jeito escorregadio dos frascos que eles manipulam com seus dedos metálicos. Eles sabem perfeitamente bem onde eles estão, não geram falsas crenças através de sua experiência, e apesar disto tudo se passa como se eles estivessem numa câmara isolada que eles estão observando. Através de esforço mental, eles conseguem mudar seu ponto de vista para frente e para trás, como se estivessem fazendo um cubo de Necker transparente ou fazendo um desenho de Escher mudar de orientação diante dos olhos de alguém. Parece extravagante supor que ao fazer essa pequena ginástica mental eles estejam se transportando para a frente e para trás.

O exemplo dessas pessoas me trouxe esperança. Se eu estivesse de fato na proveta, a despeito de minhas intuições, eu poderia ser capaz de me treinar para adotar tal ponto de vista, mesmo que como um hábito. Eu deveria "ser um habitante" de imagens de mim mesmo confortavelmente flutuando em minha proveta, emitindo ordens para aquele corpo familiar fora. Eu refleti que a facilidade ou a dificuldade desta tarefa era, presumivelmente, independente da verdade acerca da localização do cérebro de uma pessoa. Se eu tivesse praticado antes da operação poderia agora estar achando que isto seria minha segunda natureza. Você poderia tentar agora exercer esta ilusão de ótica. Imagine que você tenha escrito uma carta inflamada, que foi publicada no Times, e que resultou na decisão do governo de colocar o seu cérebro por um período probatório de três anos na sua temida Clínica Cerebral, em Bethesda, Maryland. Claro que ao seu corpo é concedida a liberdade de ganhar um salário e gerar uma renda sobre a qual recairão impostos. Neste momento, contudo, seu corpo está sentado num auditório ouvindo um relato peculiar de D. Dennett acerca de uma experiência semelhante. Tente isto. Pense em Bethesda e depois volte seus olhos demoradamente para seu corpo, tão distante, embora parecendo estar tão próximo. É somente através de um esforço a grande distância (seu? do governo?) que você pode controlar seu impulso de fazer suas mãos baterem palmas, num aplauso educado, antes de pilotar o velho corpo para a sala de estar e tomar um merecido copo de sherry no salão. A tarefa para a imaginação é certamente difícil, mas se você atingir seu objetivo, os resultados poderão ser consoladores.

De qualquer forma, lá estava eu em Houston, perdido no pensamento, (como alguém poderia dizer), mas não por muito tempo. Minhas especulações foram logo interrompidas pelos médicos de Houston, que queriam testar meu novo sistema nervoso protético antes de me mandarem para aquela missão arriscada. Como eu disse antes, eu estava um pouco tonto no começo, e isto não era surpreendente, embora eu logo tivesse me habituado as novas circunstâncias (que eram, afinal de contas, quase indistinguíveis de minhas antigas circunstâncias). Minha acomodação não era perfeita, e até então eu estava ainda sendo incomodado por pequenas dificuldades de coordenação. A velocidade da luz é muito grande, apesar de finita, e a medida em que meu corpo e meu cérebro se separavam cada vez mais, a delicada interação de meu sistema de feedback sofria desarranjos, por causa das diferenças nos intervalos de tempo. Da mesma maneira que alguém fica quase incapaz de falar na medida em que ouvir sua própria voz ou o eco de sua própria voz ocorrer com atraso no tempo, assim por exemplo, eu também fico virtualmente incapaz de seguir um objeto em movimento com os meus olhos quando meu cérebro e meu corpo estão separados a uma distância de umas poucas milhas. Sob muitos aspectos, este defeito é dificilmente detectável embora eu não possa mais chutar uma bola imediatamente, quando ela se aproxima de mim. É claro que há algumas compensações. Embora bebidas alcoólicas adquiram um sabor melhor do que nunca, e aqueçam minha goela ao mesmo tempo que corroem meu fígado, posso bebê-las a vontade, o quanto eu quiser sem me sentir nem um pouco inebriado, uma curiosidade que alguns de meus amigos mais próximos devem ter notado (embora eu ocasionalmente tenha simulado embriaguez para não chamar muito a atenção para minha situação peculiar). Por razões similares, eu tomo aspirina oralmente para uma distensão no pulso, mas se a dor persiste, eu peço a Houston para me ministrar codeína in vitro. Nas ocasiões em que fico doente a conta de telefone pode ser astronômica.

Mas vamos voltar para minha aventura. Finalmente, tanto os médicos quanto eu estávamos convencidos de que eu estava pronto para iniciar minha missão subterrânea. Assim, deixei meu cérebro em Houston e fui de helicóptero para Tulsa. Bem, era assim que as coisas pareciam ser. É dessa maneira que eu as descrevia, da perspectiva de minha cabeça. Durante a viagem refleti mais um pouco acerca de minha ansiedade inicial e cheguei a conclusão de que minhas especulações no período pós-operatório tinham sido marcadas pelo pânico. A questão não era tão estranha ou metafísica como eu tinha suposto até então. Onde estava eu? Certamente em dois lugares: dentro da proveta e fora dela. Da mesma maneira que alguém pode estar com um pé em Connecticut e outro em Rhode Island, eu estava em dois lugares ao mesmo tempo. Eu tinha me tornado um dos indivíduos mais espalhados de que se ouvira falar. Quanto mais eu pensava sobre esta resposta, mais ela me parecia obviamente verdadeira. Mas, estranhamente, quanto mais ela parecia verdadeira, menos importante parecia ser a questão para a qual tinha encontrado resposta. Um destino triste, mas não incomum para uma questão filosófica. Claro que a resposta não me satisfazia completamente. Havia algumas interrogações para as quais eu gostaria de ter uma resposta, e elas não eram "Onde estão todas as minhas partes?" nem "Qual meu ponto de vista habitual?" ou pelo menos me parecia que havia tal interrogação. Pois parecia inegável que em algum sentido EU e não apenas a maior parte de mim estava descendo para o interior da terra, sob Tulsa, para procurar uma ogiva atômica.

Quando eu encontrei a ogiva, senti-me feliz pelo fato de ter deixado meu cérebro em outro lugar, pois o ponteiro do contador Geiger especialmente construído que eu levava, estava quase estourando. Chamei Houston através de meu rádio, e informei a central de controle de operações de minha posição e de meus progressos. Em resposta, eles me deram instruções para desmantelar a ogiva baseados em minhas observações locais. Eu tinha iniciado meu trabalho com o maçarico quando de repente algo terrível ocorreu. Fiquei totalmente sem comunicação. De início pensei que meus fones de ouvido tivessem quebrado, mas quando bati no meu capacete, não ouvi nada. Aparentemente os transmissores auditivos tinham pifado. Eu não podia mais ouvir Houston, nem minha própria voz, mas eu podia falar, e assim, eu comecei a contar o que tinha acontecido. Em suma, eu sabia que havia alguma outra coisa que estava indo mal. Meu aparato vocal tinha ficado paralisado. Então minha mão direita ficou mole - um outro transmissor tinha quebrado. Eu estava realmente numa encrenca muito grande. Mas coisa pior estava por vir. Depois de mais alguns minutos fiquei cego. Amaldiçoei minha sorte, e amaldiçoei os cientistas que me colocaram diante de perigo tão grave. Lá estava eu: surdo, mudo e cego, num buraco radioativo mais de uma milha abaixo de Tulsa. Por fim, minha ligação com meu cérebro, por ondas de radio, foi interrompida, e eu estava subitamente diante de um novo e ainda mais chocante problema: enquanto no instante anterior eu tinha sido enterrado vivo em Oklahoma, agora eu estava desencarnado em Houston. Após alguns minutos de ansiedade abateu-se sobre mim a idéia de que meu pobre corpo jazia centenas de milhas a distância, com o coração pulsando e os pulmões respirando, mas por outro lado, tão morto quanto o corpo de qualquer doador num transplante de coração, estava meu crânio com um sistema eletrônico quebrado, inútil. A mudança de perspectiva que antes me parecia quase impossível agora era bastante natural. Embora eu pudesse me pensar como estando de volta para meu corpo no túnel abaixo de Tulsa, precisei fazer algum esforço para manter essa ilusão. Pois certamente era uma ilusão supor que eu estava em Oklahoma: eu tinha perdido qualquer contato com aquele corpo.

Ocorreu-me então, num desses momentos de revelação sobre os quais é preciso pensar com alguma suspeita, que eu tinha topado com uma impressionante demonstração da imaterialidade da alma baseada em princípios e premissas fisicalistas. Pois a medida em que o último sinal de rádio entre Tulsa e Houston desapareceu, não tinha eu mudado de Tulsa para Houston na velocidade da luz? E por acaso não tinha eu conseguido fazer isto sem nenhum acréscimo de massa? O que se moveu de A para B em tal velocidade era certamente eu, ou, de alguma maneira, minha mente ou minha alma - o centro imaterial de meu ser e a sede de minha consciência. Meu ponto de vista tinha, de alguma maneira, ficado para trás, mas eu já tinha notado a influência indireta do ponto de vista sobre a localização pessoal. Eu não podia entender como um filósofo fisicalista podia discordar disto, a não ser tomando o horripilante e contra-intuitivo caminho de banir qualquer tipo de discurso sobre pessoas. Mesmo assim a noção de pessoa estava tão entranhada na visão de mundo de todos - ou pelo menos isto era o que me parecia - que qualquer negação desta noção seria tão pouco convincente e tão pouco engenhosa como a negação cartesiana "non sum".

A alegria da descoberta filosófica sobreveio a mim a medida em que horas e minutos de desesperança acerca de minha situação ficavam claros. Ondas de pânico e até mesmo de náusea se apossaram de mim, tornadas ainda mais horríveis pela ausência de uma fenomenologia corporal. Não havia fluxo de adrenalina latejando nos braços, eu não sentia o coração disparar nem havia salivação premonitória. A uma certa altura senti uma sensação de afundamento nas minhas entranhas e isto me causou a ilusão momentânea que me fez ter a falsa crença de que eu estava sofrendo o reverso do processo que tinha me deixado nesta situação - uma gradual reencarnação. Mas o isolamento e o caráter único daquela pontada logo me convenceram de que aquele era simplesmente o primeiro flagelo da alucinação com corpos fantasmas que eu, como qualquer vítima de amputação, provavelmente sofreria.

Meu humor estava caótico. De um lado, eu estava aceso e entusiasmado com minha descoberta filosófica e forçando meu cérebro (uma das poucas coisas familiares que eu ainda podia fazer) a imaginar como eu comunicaria minha descoberta para jornais e revistas especializadas, enquanto, por outro lado, eu me sentia amargo, solitário, cheio de horror e incerteza. Felizmente este estado não durou muito, pois a equipe científica me sedou, colocando-me num sono sem sonhos, do qual eu acordei ouvindo com incrível fidelidade a abertura do meu trio de piano favorito, tocando Brahms. Era para isto que eles queriam ter uma lista das minhas músicas preferidas! Não levou muito tempo para perceber que eu estava ouvindo música sem ter ouvidos. O output do stereo estava sendo colocado em mim através de alguma sofisticada retificação do circuito, diretamente no meu nervo auditivo. Eu estava "dopado" com Brahms, uma experiência inesquecível para qualquer fanático por música. No fim da gravação não foi surpresa escutar a voz do diretor do projeto reaparecendo e falando num microfone que agora era meu ouvido protético. Ele confirmou minha análise do que tinha saído errado e me assegurou que já estavam tomando providências para me reencarnar. O diretor científico não entrou em detalhes e, após mais algumas músicas, eu estava caindo no sono outra vez. Meu sono durou, eu soube mais tarde, quase um ano, e quando acordei encontrei meus sentidos totalmente recuperados. Contudo, quando olhei no espelho contudo, senti-me um pouco amedrontado ao ver um rosto pouco familiar. Estava com a barba crescida e um pouco mais pesada, ainda refletindo alguma semelhança com minha antiga face e com a mesma aparência de inteligência brilhante e caráter resoluto, mas certamente era um novo rosto. Algumas auto-explorações de caráter íntimo confirmaram que aquele era um novo corpo e o diretor do projeto confirmou minhas conclusões. Ele não forneceu nenhuma informação acerca da história passada do meu novo corpo e eu decidi (sabiamente, quando olho em retrospectiva) não pedir nenhuma. Como vários filósofos pouco familiares com meu suplício especularam mais recentemente, a aquisição de um novo corpo deixa a pessoa intacta. E após um período de ajuste a uma nova voz, novas forças musculares e fraquezas etc. a personalidade de alguém é de uma maneira geral também preservada. Mudanças mais acentuadas de personalidade foram observadas regularmente em pessoas que se submeteram a cirurgia plástica ostensiva e em operações de troca de sexo mas creio que ninguém contestaria o fato de que a pessoa sobrevive a tais casos. De qualquer maneira eu logo me acomodei ao meu novo corpo ao ponto de me tornar incapaz de registrar suas novidades em minha consciência e até mesmo em minha memória. Minha visão no espelho logo se tornou completamente familiar. Nesta imagem ainda havia antenas, e assim eu não fiquei surpreso ao saber que meu cérebro não tinha sido removido de seu habitat no laboratório de manutenção artificial da vida.

Eu decidi que o velho e bom Yorick merecia uma visita. Eu e meu novo corpo, que poderemos chamar de Fortinbras fomos ao laboratório para receber mais uma rodada de aplausos dos técnicos, que estavam, é claro, se congratulando a si próprios e não a mim. Uma vez mais parei defronte da proveta e contemplei o pobre Yorick, e numa atitude extravagante, mais uma vez empurrei o interruptor para a posição DESLIGA. Imaginem minha surpresa quando nada anormal aconteceu. Não senti que ia desmaiar, nem náusea, nem nenhuma mudança perceptível. Um técnico correu a colocar o interruptor na posição LIGA, mas mesmo assim eu não senti nada. Exigi uma explicação, que o diretor do projeto se apressou em dar. Parece que antes de eu ser operado, eles tinham construído um computador que era uma réplica de meu cérebro, reproduzindo toda a estrutura de processamento de informação e a velocidade computacional de meu cérebro - tudo foi reproduzido num programa computacional gigante. Após a operação - mas antes deles ousarem me mandar para minha missão em Oklahoma - eles rodaram este sistema computacional e Yorick lado a lado. Os sinais de rádio que saiam de Hamlet foram simultaneamente enviados para os receptores de Yorick e para a placa de inputs do computador. E os outputs de Yorick não eram apenas enviados de volta para Hamlet , meu corpo, eles eram gravados e comparados com os outputs simultâneos do programa de computador, que era chamado de Hubert - por razões obscuras para mim. Por dias e até por semanas, os outputs eram idênticos e sincronizados, o que é claro não provava que eles tinham conseguido copiar a estrutura funcional do cérebro, mas os resultados empíricos eram, de qualquer forma, muito encorajadores.

Os inputs de Hubert, e portanto sua atividade, foram mantidos em paralelo com os de Yorick durante os dias em que eu estava desencarnado. E agora, para demonstrar isto, eles de fato ligaram o interruptor mestre que colocava Hubert pela primeira vez em linha direta para controle do meu corpo - não Hamlet , mas Fortinbras. (Eu soube que Hamlet nunca mais foi retirado de sua tumba subterrânea e podia agora ser considerado como algo que voltou a ser pó. Na lápide de meu túmulo ainda está a grandiosa carcaça do dispositivo abandonado, com a palavra STUD resplandecente e escrita com letras enormes - algo que provavelmente dará aos arqueólogos do próximo século uma curiosa intuição acerca dos rituais fúnebres de seus ancestrais).

Os técnicos do laboratório logo me mostraram o interruptor principal, que tinha duas posições, uma B para Cérebro (eles não sabiam que o nome de meu cérebro era Yorick), e outra H para Hubert. O interruptor estava na posição H e eles me explicaram que se quisesse, eu podia mudá-lo de volta para B. Com o coração nas mãos (e com o cérebro na proveta), eu decidi mudar o interruptor para B. Nada aconteceu. Só um clique, foi tudo. Para testar o que diziam, e com o interruptor principal agora na posição B, apertei o transmissor de outputs de Yorick na proveta. Comecei a desmaiar. Quando o interruptor foi recolocado na posição anterior e eu recuperei consciência (por assim dizer), eu continuei a brincar com o interruptor principal, empurrando-o para a frente e para trás. Descobri que com exceção do momento do "click" eu não podia detectar nenhum tipo de diferença. Eu podia mudar o interruptor no meio de uma sentença, e assim a sentença que eu tinha começado a falar sob o controle de Yorick era completada, sem nenhum intervalo ou dificuldade de qualquer espécie sob o controle de Hubert. Eu tinha um cérebro sobressalente, um dispositivo protético que poderia algum dia manter meu equilíbrio, no caso de algum tropeção desajeitado de Yorick. Alternativamente, eu poderia deixar Yorick como sobressalente e usar Hubert. Não parecia fazer nenhuma diferença qual deles eu escolhia, pois o desgaste e a fadiga do meu corpo não tinham qualquer efeito debilitante sobre nenhum dos cérebros, estivesse ele de fato causando os movimentos de meu corpo ou estivesse ele apenas produzindo seus outputs por aí afora.

O único aspecto verdadeiramente inquietante deste novo aperfeiçoamento era a possibilidade, da qual logo me apercebi, de alguém separar o sobressalente -Hubert ou Yorick, conforme o caso - de Fortinbras e colocá-lo num outro corpo,- algum Johnny Rosencrantz ou Guildenstern. Então haveria duas pessoas, isto ficava claro. Uma delas seria uma espécie de super-irmão gêmeo. Se houvesse dois corpos, um sob o controle de Hubert e outro sendo controlado por Yorick, então qual deles o mundo reconheceria como sendo o verdadeiro Dennett? E, seja qual fosse o que o mundo decidisse, qual deles seria eu? Seria eu aquele com o cérebro de Yorick, em virtude da prioridade causal de Yorick e em virtude da primeira relação íntima com o corpo original de Dennett, Hamlet? Isso pareceria um pouco legalista, algo que recenderia demais ao arbítrio da consangüinidade e à idéia de posse legal para ser convincente a nível metafísico. Pois suponhamos que antes da entrada do segundo corpo em cena, eu tivesse mantido Yorick como sobressalente por anos e que eu tivesse deixado os outputs de Hubert dirigir o meu corpo - ou seja Fortinbras - todo aquele tempo. O casal Hubert-Fortinbras pareceria então por usucapião (para combater uma intuição legalista com outra) ser o verdadeiro Dennett e o herdeiro legal de tudo aquilo que era de Dennett. Esta era, com certeza, uma questão interessante mas não tão premente quanto uma outra que me inquietava. Minha intuição mais forte era que em tal caso Eu sobreviveria a medida em que qualquer uma das duplas cérebro/corpo permanecesse intacta, mas eu mesmo tinha sentimentos confusos acerca de se eu deveria desejar que ambos sobrevivessem.

Discuti minhas preocupações com os técnicos e com o coordenador do projeto. A perspectiva de haver dois Dennetts me horrorizava sobretudo por razões sociais. Eu não gostaria de ser meu próprio rival na disputa pelo afeto de minha esposa, nem me agradava a perspectiva de dois Dennetts dividindo meu modesto salário de professor. Ainda mais vertiginosa e desagradável, contudo, era a idéia de saber demais acerca de uma outra pessoa, o mesmo ocorrendo dele em relação a mim. Como poderíamos nos encarar mutuamente? Meus colegas no laboratório argumentariam que eu estava ignorando o lado positivo do assunto. Não havia uma porção de coisas que eu gostaria de fazer, mas pelo fato de ser somente uma pessoa eu me tornava incapaz de realizar? Agora um Dennett podia ficar em casa e ser o professor e o homem de família, enquanto o outro poderia sair para uma vida de aventuras e de viagens - sentindo falta da família, é claro, mas feliz por saber que o outro Dennett cuidaria do lar. Eu podia ser fiel e adúltero ao mesmo tempo. Eu poderia até mesmo me cornear - sem falar de outras possibilidades mais lúgubres que meus colegas tentariam impor sobre minha imaginação já tão carregada. Mas meu suplício em Oklahoma (ou foi em Houston?) tornou-se menos aventureiro e por isso eu desisti dessa oportunidade que me estava sendo oferecida (embora, é claro, eu nunca estive certo de que ela estava sendo oferecida para mim).

Havia uma outra perspectiva ainda mais desagradável: que o sobressalente, Hubert ou Yorick conforme fosse o caso, fosse separado de qualquer input de Fortinbras e mantido desse jeito, isto é separado. Então, como no outro caso, haveria dois Dennetts, ou pelo menos dois requerentes do mesmo nome e posses, um incorporado em Fortinbras e o outro, triste e miserável, sem corpo. O egoísmo e o altruísmo fizeram-me tomar providências para que isto não acontecesse. Assim eu perguntei que medidas deveriam ser tomadas para me certificar que ninguém nunca poderia se intrometer nas conexões do receptor ou assumir o controle do interruptor sem meu (nosso? não, meu) consentimento. Uma vez que eu não desejava passar minha vida montando guarda no equipamento em Houston foi decidido por ambas as partes que todas as conexões eletrônicas no laboratório seriam mantidas trancadas. Tanto aqueles que controlavam o sistema de manutenção artificial de vida para Yorick como aqueles que controlavam o fornecimento de energia para Hubert seriam guardados com dispositivos a prova de falhas e eu levaria comigo o único interruptor-mestre, equipado com controle remoto de rádio, onde quer que eu fosse. Eu carrego isso amarrado em volta de minha cintura e - espere um momento - aqui está ele. Uma vez por mês eu inspeciono o equipamento, trocando os canais. Faço isso somente na presença de amigos, é claro, pois se o outro canal estiver, que Deus não permita, ou desligado ou ocupado com alguma outra coisa, haveria alguém que defenderia meus interesses e o mudaria , trazendo-me de volta do vazio. Pois conquanto eu pudesse sentir, ver, ouvir e sentir seja lá o que for que faz cair meu corpo após uma mudança no interruptor, eu seria incapaz de controla-lo. Por falar nisso, as duas posições do interruptor estão propositadamente sem marca, e assim eu nunca tenho a menor idéia de se eu estou passando de Hubert para Yorick ou vice-versa. (Alguns de vocês podem pensar que neste caso eu realmente não sei quem eu sou, e muito menos onde eu estou. Mas tais reflexões não tem mais a menor influência sobre minha Dennetticidade essencial, no meu próprio sentir quem eu sou. Se é verdade que num sentido em não sei quem eu sou, então essa é uma outra verdade filosófica de significado espantoso).

De qualquer maneira, até agora todas as vezes que eu mexi no interruptor, nada aconteceu. Por isso, vamos fazer uma pequena tentativa...

GRAÇAS A DEUS, EU PENSEI QUE VOCÊ NUNCA MAIS FOSSE VIRAR O INTERRUPTOR; você não pode imaginar como foram horríveis estas duas últimas semanas - mas agora você sabe, é a sua vez de ir para o purgatório. Quanto tempo estive esperando por este momento! você sabe, cerca de duas semanas atrás - desculpem-me senhoras e senhores, mas eu tenho que explicar isto para meu...um, irmão, creio que poderíamos dizer, mas ele já lhes contou os fatos, assim os senhores entenderão. Cerca de duas semanas atrás, nossos dois cérebros saíram um pouco de sincronia. Eu não sei, mais do que vocês, se o meu cérebro é agora Hubert ou Yorick, mas de qualquer maneira, os dois cérebros se separaram, e, é claro, uma vez que o processo se iniciou foi tomando vulto pois eu estava num estado receptivo ligeiramente diferente com relação ao input que nós dois recebemos, uma diferença que logo se ampliou. Em nenhum momento a ilusão de que eu estava controlando meu corpo - nosso corpo - foi completamente dissipada. Não havia nada que eu pudesse fazer - eu não podia chamar você. VOCÊ NEM SABIA QUE EU EXISTIA! É o mesmo que ser carregado dentro de uma jaula ou estar possesso - ouvindo minha própria voz dizer coisas que eu não queria dizer, olhando com frustração minhas mãos fazerem coisas que eu não tinha a menor intenção de fazer. Você se coçava, mas não da maneira que eu o teria feito e você me manteve acordado, tossindo e se revirando. Eu estava totalmente exaurido, a beira de um colapso nervoso, carregado por aí sem defesa, seguindo todo o seu roteiro infernal de atividades, mantido vivo apenas pelo conhecimento de que algum dia você viraria o interruptor.

Agora é sua vez, mas pelo menos você terá o conforto de saber que eu sei que você está lá dentro. Como uma mulher grávida estou comendo - ou pelo menos experimentando comida, cheirando, olhando - por dois agora, e eu tentarei facilitar as coisas para você. Não se preocupe. Assim que o colóquio terminar, você e eu vamos voar para Houston e veremos o que pode ser feito para arranjar para um de nós um outro corpo. Você pode ter um corpo de mulher - e seu corpo poderia ser da cor que você quiser. Mas vamos pensar bem. Eu te digo uma coisa: para ser justo, se nós dois queremos este corpo, eu prometo deixar o coordenador jogar uma moeda para estabelecer quem de nós fica com este, e quem tem que escolher um novo corpo. Isso vai garantir uma decisão justa, não é? De qualquer forma, eu cuidarei de você, eu prometo. Estas pessoas são minhas testemunhas.

Senhoras e senhores, esta comunicação que acabam de ouvir não é exatamente a comunicação que eu teria feito, mas eu lhes asseguro que tudo o que foi dito era perfeitamente verdadeiro. E agora, com licença, acho que eu - ou nós - gostaríamos de sentar.

Tradução de João de Fernandes Teixeira.


[1] Ginger ale é um tipo de refrigerante que foi muito popular nos anos 60 e 70.

[2] (N do tradutor): os dêiticos ou “indexicals” (no inglês) constituem os instrumentos lingüisticos para efetuar a designação demonstrativa e não simbólica. Por exemplo, os pronomes demonstrativos “este” e “aquele” quando aponto para dois vasos que se encontram diante de mim permite-me distingüi-los sem ter de descrevê-los ou referir-me a uma de suas características individuais.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Stephen Hawking grava palestra em que conta sua história

hawkingConsiderado um dos maiores gênios da atualidade, o cientista britânico Stephen Hawking não pôde comparecer às comemorações de seus 70 anos pela Universidade de Cambridge devido a sua saúde frágil, mas ainda assim é um exemplo de desafio à ciência tanto do ponto de vista médico quanto de sua produção intelectual.

Embora ausente, Hawking enviou uma palestra gravada, intitulada “Uma breve história de mim”, em que contou sua história e urgiu a Humanidade a continuar a olhar para o céu pelo bem do futuro. Segundo ele, a espécie humana não vai sobreviver os próximos mil anos se não colonizar o espaço. "Lembrem-se de olhar para cima, para as estrelas, e não para baixo, para seus pés", pediu. "Tentem encontrar sentido no que veem e imaginar o que faz o Universo existir. Sejam curiosos".

Diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA), uma doença neurodegenerativa incurável, em 1963, Hawking tem surpreendido os médicos com sua longevidade. Então aos 21 anos, ele ainda estudava para seu doutorado e a expectativa é de que vivesse no máximo mais dois e cinco anos mais. "De fato, o médico que me diagnosticou lavou as mãos e nunca mais o vi de novo. Ele achava que não havia nada que poderia ser feito", lembrou. "A princípio fiquei deprimido. Não parecia haver sentido em trabalhar no meu doutorado se eu não sabia se viveria o bastante para terminá-lo".

Ainda assim, quase meio século depois o cientista continua vivo e produtivo, tendo mudado o conhecimento que temos do Universo neste período. Seu trabalho jogou novas luzes sobre a origem do Cosmos e seu futuro, os buracos negros e a cosmologia quântica. E, apesar da natureza complexa dos assuntos que aborda, também contribuiu para a popularização da ciência. O título de sua palestra comemorativa, por exemplo, é uma referência explícita a “Uma breve história do tempo”, seu livro de maior sucesso, que vendeu mais de 10 milhões de cópias em todo mundo. Ele também já fez participações especiais em programas de TV como “Os Simpsons” e “Jornada nas estrelas”. "Nunca esperei que “Uma breve história do tempo” fosse ter um desempenho tão bom", reconheceu. "Nem todos podem tê-lo terminado de ler ou entendido tudo que leram, mas ao menos tiveram a ideia de que vivemos em um Universo governado por leis racionais que podemos descobrir e compreender".

Mesmo com cada vez mais dificuldades em se comunicar e trabalhar, Hawking permanece na vanguarda das pesquisas. Quase totalmente paralisado, atualmente ele usa pequenos movimentos nos músculos de sua bochecha para escolher letras e palavras em um sintetizador de voz. Isso faz com sua comunicação seja extremamente lenta, ao ritmo médio de uma palavra por minuto. Isso não o impede, porém, de chefiar as pesquisas no Departamento de Matemática Aplicada e Física Teórica de Cambridge, tendo apenas recentemente saído do posto conhecido como “Professor Lucasiano de Matemática” da universidade, título que outrora pertenceu a Isaac Newton. "Nossa imagem do Universo mudou muito nos últimos 40 anos e estou feliz de ter feito uma pequena contribuição para isso", disse. "O fato de nós humanos, que somos uma mera coleção de partículas fundamentais da Natureza, termos conseguido chegar tão perto de compreender a leis que nos governam e ao nosso Universo é um grande triunfo".

Entre o principais focos de estudo de Hawking no momento está a “Teoria M”, que pretende explicar a existência do Universo a partir da ideia de que existem vários universos, o chamado “multiverso”. "A Teoria M prevê que muitos universos diferentes foram criados do nada e que esses múltiplos universos podem surgir naturalmente pelas leis da física", explicou. "Cada um destes universos tem muitas histórias possíveis e muitos estados possíveis no futuro, isto é, em épocas como nosso presente, muito depois da criação. Muitos destes estados seriam bem diferentes do Universo que observamos e pouco hospitaleiros para qualquer forma de vida. Apenas alguns poucos permitiriam que criaturas como nós existam. Assim, nossa presença seleciona desta vasta gama de universos apenas aqueles que são compatíveis com nossa existência. Embora sejamos pequenos e insignificantes na escala do Cosmos, isso nos faz de certa forma senhores da criação".

Hawking também não hesitou em fazer nova aposta quanto a previsões da física teórica, embora já tenha reconhecido a perda em duas que fez com amigos e colegas, relativas à existência dos buracos negros e ao vazamento de informações destes monstros cósmicos. O cientista ofereceu 100 libras contra a possibilidade de o Grande Acelerador de Hádrons (LHC, na sigla em inglês) encontrar o Bóson de Higgs, também conhecido como “partícula de Deus” e única das 32 partículas previstas pelo Modelo Padrão da Física cuja existência ainda não foi comprovada: "A Física seria mais interessante assim, mas provavelmente será outra aposta que vou perder".

Da Agência O Globo

domingo, 8 de janeiro de 2012

Estupro intelectual

Estupro intelectual é o tipo de estupro frequentemente usado por pessoas religiosas, que insistem em empurrar suas crenças no rabo da gente, elas além de nos forçar a escutar as merdas que elas dizem, elas tem que escutar a gente concordar com elas, elas forçam a gente a concordar com todas essas merdas que forçam o nosso intelecto.

A gente não concorda já com tanta merda, mas as vezes a gente nem quer contestar para não criar brigas, mas isso não basta para elas. Elas tem que forçar a gente a concordar, glorificar e aceitar tudo o que elas enfiam no rabo da gente.Pra mim isso não tem outro nome se não estupro intelectual.

Assim como um estuprador enfia o pinto na sua vitima contra a vontade dela, o religioso enfia a sua crença para a gente.Se a gente não aceita a crença deles, aí eles começam a bater com alegações insanas que por qualquer pessoa com um pingo de intelecto é contestada. Mas o estuprador é um ser cruel, eles tem que berrar no ouvido da gente, as vezes guspir e até agredir fisicamente a gente para que a gente aceite a crença delas.

Guilherme Kempoviki Serafim dos Santos

estupro

Evolução é mais fácil para crianças…

evolucao-dos-seres-vivos24

sábado, 7 de janeiro de 2012

Deus é justiça?

“Tudo acontece pela vontade de Deus”, “Deus é justo” Quantas vezes nossa inteligência foi insultada com essas frases? Mas como um raio no exato momento que escutamos esse tipo de coisa, notícias como a imagem a seguir nos vem a mente:

justiçaSe deus é a causa de todas as coisas, se tudo o que acontece seja de bom ou de ruim é por vontade de deus. Só tenho uma coisa a dizer; – esse deus é um facínora, é um torturador, é um troglodita, é um rei tirano que tira vantagem das inúmeras riquezas do rico e estuque o que resta do pobre, se auto promove com a desgraça alheia, é um desgraçado que se eu acreditasse nele mera questão de bom senso teria que odiá-lo.

se justo

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Deus é como chifre…

Deus é como chifre

A LAICIDADE DO ESTADO E OS DIREITOS HUMANOS

Desde a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, na França revolucionária (1789), a independência do Estado diante de qualquer religião tem sido evocada como um requisito indispensável para a efetivação do artigo 10 desse documento, que dizia o seguinte:

"Ninguém deve ser molestado por suas opiniões, mesmo religiosas, desde que sua manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei."

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada e proclamada pela Assembléia Geral das Nações Unidas, em 1948, contém várias referências a essa questão: no preâmbulo, proclama o advento de um mundo novo em que se goze da liberdade de crença; no artigo II afirma que os direitos e as liberdades devem ser gozados sem distinção de religião (entre outras condições), assim como, no artigo XVI, que afirma a liberdade de homens e mulheres maiores de idade contraírem matrimônio e fundarem uma família. Além dessas referências, há todo um artigo em que essa questão é ainda mais explícita, como na passagem abaixo:

"Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular." (artigo XVIII)

Mas, se essa declaração foi tão amplamente apoiada pelos Estados saídos da II Guerra Mundial, a maneira como eles lidavam com os crentes e não crentes, e com as sociedades religiosas variava bastante. Em uns países, o Estado era confessional, isto é, havia religião oficial; em outros, o Estado era ateu, isto é, afirmava (e ensinava nas escolas) o caráter necessariamente alienado de toda e qualquer religião; outros, ainda, eram laicos.

Uma laicidade estrita foi inserida na Constituição brasileira de 1892, por força da ideologia das elites políticas republicanas, de orientação liberal, maçônica ou positivista, mas desprovida de base popular. A constituição de 1934 abriu uma nova fase, expressa na fórmula da "colaboração recíproca", em moldes fascistas, que pretendia estancar a crise de hegemonia. Esse lema foi repetido nas Constituições posteriores, com pequenas mudanças formais, favorecendo aos dois lados da entente: as sociedades religiosas beneficiaram-se das entidades estatais para o exercício de sua atividade própria, enquanto o Estado recebeu um forte aliado na manutenção da ordem, com poucas exceções, localizadas e de curta duração.

Em 1988, apesar da evocação da proteção divina aos constituintes,como se todos eles fossem crentes, a liberdade de crença religiosa foi garantida em dois incisos do art. 5º.:

"É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção dos locais de culto e suas liturgias; (VI)

"Ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei." (VIII)

Em suma, a Constituição brasileira assegura a liberdade de consciência e de crença, de organização religiosa e de culto, todas elas dimensões dos Direitos Humanos Fundamentais. Se essa foi uma importante conquista histórica, não é suficiente a ampliação desses direitos, que precisa mais do que isso carece da laicidade do Estado, de modo a não privilegiar uma religião em relação a outras, nem os crentes diante dos não crentes.

 

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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Brasil: Estado laico e a inconstitucionalidade da existência de símbolos religiosos em prédios públicos

No Brasil, a discussão entre religiosidade e Estado não se encerra com a promulgação da Constituição Federal de 1988. Um resquício dessa dicotomia se encontra tanto no preâmbulo, o qual revela uma possível falha legislativa, como no art. 19, I da Carta Magna. Ganha enfoque neste estudo o respeito ao direito de liberdade de manifestação do pensamento, inclusive da minoria não religiosa, assim como a inviolabilidade da consciência e crença religiosa.

1. Introdução

            Tenciona-se, neste estudo, chamar a atenção para a laicidade da República Federativa do Brasil e ao aparente conflito entre o preâmbulo constitucional e o inciso I do artigo 19 da Magna Carta. Assim sendo, foram realizadas breves anotações com o intuito de direcionarmos a atenção aos direitos das minorias e proporcionar a reflexão sobre a matéria.

            A análise da relação Estado / Igreja poderia transportar-nos para os tempos mais remotos da civilização, como a cultura do antigo Egito, os impérios escravistas da Antigüidade. Ninguém pode contestar a enorme influência da Igreja na Idade Média. Entretanto, não seria possível sintetizar essa evolução mundial em poucas páginas, pois este enfoque não pertence, neste momento, ao cerne de nossa pesquisa.

            As razões que levaram a produção deste artigo têm origem na atualizadíssima discussão quanto à constitucionalidade da utilização de objetos religiosos em prédios públicos – como o crucifixo.

            Pretende-se, portanto, discorrer, de forma sucinta, sobre a força normativa do referido preâmbulo, percorrendo o conceito de Estado laico, sua evolução nas constituições do Brasil, tendo como real objetivo a reflexão quanto à possível ocorrência de desrespeito à minoria não religiosa ou de religiões incompatíveis com tais símbolos.

2. A evolução histórica do Estado laico nas Constituições do Brasil

            Estado laico é Estado leigo, neutro.

            Conforme De Plácido e Silva: "LAICO. Do latim laicus, é o mesmo que leigo, equivalendo ao sentido de secular, em oposição do de bispo, ou religioso." (SILVA, 1997, p. 45)

            O termo laico remete-nos, obrigatoriamente, à idéia de neutralidade, indiferença. É também o que se compreende nos ensinamentos de Celso Ribeiro Bastos, onde

            "A liberdade de organização religiosa tem uma dimensão muito importante no seu relacionamento com o Estado. Três modelos são possíveis: fusão, união e separação. O Brasil enquadra-se inequivocadamente neste último desde o advento da República, com a edição do Decreto119-A, de 17 de janeiro de 1890, que instaurou a separação entre a Igreja e o Estado.

            O Estado brasileiro tornou-se desde entãolaico. (...) Isto significa que ele se mantém indiferente às diversas igrejas que podem livremente constituir-se (...)".

            (BASTOS, 1996, p. 178)

O Estado e a Igreja sempre andaram muito próximos, por várias vezes confundindo-se, e isto desde as antigas civilizações. Diferente não foi com a formação do Estado brasileiro, que em seus primórdios já foi chamado de Terra de Santa Cruz e teve como primeiro ato solene uma missa.

            No Brasil, a Constituição outorgada de 1824 estabelecia a religião católica como sendo a religião oficial do Império, que perdurou até o início de 1890, com a chegada da República.

            "A constituição de 25-3-1824 previa, em seu artigo 5º, que a ‘religião Catholica Apostólica Romana continuará a ser a religião do Império. Todas as outras Religiões são permitidas com seu culto doméstico ou particular, em casas para isso destinadas, sem forma exterior de templo’. Com o advento da primeira Constituição da República, o Brasil passou a ser um Estado laico e a consagrar ampla liberdade de crença e cultos religiosos".

            (MORAES, 2004, p. 215)

            Pinto Ferreira demonstra o quanto a Igreja Católica era ligada ao Império de Dom Pedro II, quando nos lembra que a Constituição de 1824 só permitia a elegibilidade para o Congresso àquelas pessoas que professassem o catolicismo.

            "O Artigo 113, item 5º da constituição de 1934 estatuiu que as associações religiosas adquiriram personalidade jurídica nos termos da lei civil. Os princípios básicos continuaram nas constituições posteriores até a vigente." (SILVA, J., 2000, p. 254).

            Depois do advento da República, o Brasil jamais deixou de ser um Estado laico, pelo menos no papel.

3. O preâmbulo da Constituição de 88 e o artigo 19, I

            Preâmbulo é o enunciado que antecede o texto constitucional. Nem todas as constituições o possuem. Nas constituições brasileiras ele esteve sempre presente. Mas qual é o valor jurídico do Preâmbulo?

            Como bem discorre Ferreira, "o preâmbulo é uma parte introdutória que reflete ordinariamente o posicionamento ideológico e doutrinário do poder constituinte." (FERREIRA, 1989, p. 03)

            As constituições brasileiras de 1891 e 1937 omitiram, em seu preâmbulo, a invocação do nome de Deus.

            A Constituição de 88 trouxe o seguinte preâmbulo:

            "Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL."

            Afirma João Barbalho que

            "O preâmbulo enuncia por quem, em virtude de que autoridade e para que fim foi estabelecida tal Constituição. Não é uma peça inútil ou de mero ornato na construção dela: mas simples palavras que constituem, resumem e proclamam o pensamento primordial e os intuitos dos que o arquitetam." (BARBALHO, 1924, p. 03 apud FERREIRA, 1989, p.03).

            Uma linha doutrinária entende ter o texto preambular caráter coativo. Linha divergente aponta a ausência de força normativa da peça introdutória.

            Entendemos que o preâmbulo terá força cogente somente nos termos que se encontram reafirmado no texto constitucional, do mesmo modo que entende Pinto Ferreira.

            Observe-se que referência ao Estado Democrático encontra-se no artigo 1º da CF. O exercício dos direitos sociais e individuais, o direito à liberdade, à segurança, ao bem-estar, ao desenvolvimento, à igualdade e à justiça são todos retomados nos primeiros artigos de forma explícita, todavia não exaustiva, pois se encontram por toda a Constituição. Os artigos 3º e 4º da atual CF apontam novamente para a harmonia social, para uma sociedade fraterna e sem preconceitos e à solução pacífica das controvérsias.

            A forma federativa do Estado é tão protegida que é tida como cláusula pétrea, constando no artigo 60, § 4º, I.

            O único ponto do Preâmbulo não reforçado pelo texto constitucional foi a referência a Deus.

            Além de não reafirmado, o artigo 19, I aponta para o contrário.

            Artigo 19.

            É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

            I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na formada lei, a colaboração de interesse público;

            Como bem esclarece Pontes de Miranda,

            "estabelecer cultos religiosos está em sentido amplo: criar religiões ou seitas, ou fazer igrejas ou quaisquer postos de prática religiosa, ou propaganda. Subvencionar está no sentido de concorrer, com dinheiro ou outros bens de entidade estatal, para que se exerça a atividade religiosa. Embaraçar o exercício significa vedar, ou dificultar, limitar ou restringir a prática, psíquica ou material dos atos religiosos". (MIRANDA apud SILVA, J., 2000, p. 253 e 254)

            O artigo 150, IV, b proíbe a tributação sobre qualquer templo, justamente com a finalidade de não dificultar seu funcionamento por via financeira.

            Extrai-se disto que o artigo 19, I não é conflitante com o preâmbulo constitucional. O artigo se sobrepõe, e só podemos entender que a "proteção de Deus" preambular é pertencente somente aos constituintes e seu caráter é meramente subjetivo.

4. A inviolabilidade de consciência e crença e a ostentação de símbolos religiosos em prédios públicos

            Tanto a liberdade de opinião e a inviolabilidade de consciência são asseguradas por nossa Constituição.

            A consciência e a crença são inerentes ao ser humano. É a pessoa humana quem pode ou não acreditar em um ser divino.

            O Estado não tem sentimento religioso e, laico como é, não deve estabelecer preferências ou se manifestar por meio de seus órgãos.

            Entendemos haver um equívoco ao se afirmar que o Brasil acredita em Deus. Quem pode acreditar ou não são os brasileiros.

            Vemos que hoje há um predomínio de símbolos religiosos em prédios públicos, em sua maioria, crucifixos. Sendo o Brasil um Estado laico, que se coloca como neutro no que diz respeito à religião, então onde se assegura o direito das minorias não adeptas de tais símbolos?

            Como bem afirma Dr. Roberto Arriada Lorea "(...) O Brasil é um país laico e a liberdade de crença da minoria, que não se vê representada por qualquer símbolo religioso, deve ser igualmente respeitada pelo Estado". (LOREA, O poder judiciário é laico. Folha de São Paulo, São Paulo, 24 set. 2005. Tendências/Debates, p.03).

            Saliente-se então que, conforme nosso entendimento, não é lícito que prédios públicos ostentem quaisquer símbolos religiosos, por contrariar o princípio da inviolabilidade de crença religiosa. O Estado deve respeito ao ateísmo e quaisquer outras formas de crença religiosa. O predomínio do Catolicismo no Brasil não justifica tais símbolos.

            Não entramos no mérito das religiões. Não avaliamos qual ou quais religiões o crucifixo representa. Isto não tem conotação pública e não nos interessa. Se tais símbolos ofendem a liberdade de crença ou descrença de uma única pessoa, já se torna justificada a retirada destes objetos.

5. Conclusões

            Poderíamos ter abordado de forma mais ampla a evolução do Estado laico ou os vários pontos em que a Constituição de 88 aborda a respeito da religião, como o ensino religioso na escola pública, a assistência religiosa em entidades civis e militares.

            Todavia, não seria possível perscrutar todos esses temas e reuni-los em apenas um artigo. Preferimos traçar uma noção sobre o preâmbulo constitucional e confrontá-lo com a laicidade da República Federativa do Brasil. O mérito das religiões não foi questionado - e seria totalmente contraditório se tentássemos analisá-lo.

            A invocação de que a maioria brasileira é católica não pode ser utilizada em desrespeito à liberdade de qualquer pessoa.

            O estudo não trata de religiões. É direito inviolável e constitucional não nos interessarmos por elas.

            Advogamos pela inconstitucionalidade da permanência de qualquer alusão a alguma religião em dependências públicas. Para os que questionam quais benefícios surgirão, na prática, com a retirada deste símbolo, antes perguntamos: O que se ganhou quando da sua colocação?

Referências:

           BASTOS. Celso Ribeiro. Curso de Direito Constitucional. 17ª ed. São Paulo: Editora Saraiva, 1996.FERREIRA, Pinto. Comentários à Constituição Brasileira. 1ª ed. v. I, São Paulo: Saraiva, 1989.LOREA, Roberto A. O poder judiciário é laico. Folha de São Paulo, São Paulo, 24 set. 2005 Tendências/Debates, p. 03. MORAES. Alexandre de. Direito Constitucional. 17ª ed. São Paulo: Editora Atlas, 2005.Constituição do Brasil Interpretada. 4ª ed. São Paulo: Editora Atlas, 2004.SILVA. De Plácido. Vocabulário Jurídico. 12ª ed. v. III, Rio de Janeiro: Editora Forense, 1997 SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 17ª ed. São Paulo: Editora Malheiros

Autor: Fernando Fonseca de Queiroz

bacharelando em Direito pela Faculdade Estadual de Direito do Norte Pioneiro (FUNDINOPI), em Jacarezinho (PR)